20 de agosto de 2007
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA
Curioso fenômeno, não de todo explicado :na paz, os generais ganham mais medalhas do que na guerra. E é também na guerra que eles morrem menos.
Joel Silveira, datilografado por GMN
Concorrência desleal
Toró de lágrimas
Dona Flor do Lácio e suas mutações
JOSÉ, PARA ONDE?
Dizer que a literatura de José Sarney não presta é fácil para quem se senta numa cadeira e, sem embaraço, usa os dedos. Ora, o grande mérito do maranhense é, justamente, exercer seu ofício com as quatro patas no chão.
DIABO LIGANDO PRO CÉU
— Olha, querida, eu pensei que tinha conseguido inventar o cúmulo da crueldade com meus caldeirões ferventes, enxofre, correntes e tal, mas vejo que vocês criaram suplício muito maior com essa coisa de telemarketing. Parabéns. Agora, por favor, será que eu posso falar com São Pedro ou algum outro santo?
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— Um minuto, senhor. Eu vou estar transferindo o senhor para o setor responsável.
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— Transfe... Não! Für Elise de novo, não, pelo amor d'Aquele Sujeito!... Por... Droga, droga, maldito Beethoven! Bater nos ouvidos foi pouco! Eu devia ter feito o pai furar os olhos dele!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/devoluo.html)
IMPRENSA
Via de regra, não costumo confiar na imprensa, procurando, para me informar, compulsar fontes mais verossímeis e fidedignas, como a mitologia clássica e os contos dos irmãos Grimm.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/06/em-defesa-de-nossos-altivos.html)
CLIMA PAULISTANO
Andei conversando com alguns patrícios mais experientes, os quais me acalmaram e, pedindo paciência, asseguraram que no máximo em trinta anos já estarei acostumado ao clima paulistano. Isso, claro, na eventualidade de o efeito estufa ser refreado e ainda existir inverno àquela época.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/06/cada-um-tem-o-schiller-que-merece.html)
19 de agosto de 2007
"DOSSIÊ DRUMMOND" (JÁ NAS LIVRARIAS!) : A HISTÓRIA DE UM TESOURO LITERÁRIO QUE PODE SE PERDER
O Brasil é um complexo de inferioridade de oito milhões de quilômetros quadrados. Adora falar mal de si próprio.
Um dos rótulos que o Brasil inventou para si diz que este é um "país sem memória". É parcialmente verdade.
O abaixo-assinado lamenta informar que a memória da literatura brasileira corre o risco de sofrer um golpe.
Os manuscritos de Carlos Drummond de Andrade que a namorada do poeta, Lygia Fernandes, guardava em casa, na rua Barão de Jaguaripe, em Ipanema, ganharam um destino incerto e não sabido. Depois que Lygia morreu, em 2003, o apartamento foi vendido. O material ficou com parentes da ex-musa de Drummond. Procurados, demonstraram pouquíssimo interesse em tratar do assunto.
Em qualquer país do mundo, manuscritos de um poeta da estatura de Drummond estariam guardados numa instituição pública, num museu, numa biblioteca. Não aqui no Brasil.
Com o cuidado de um colegial, Drummond copiou uma coleção de poemas. Os manuscritos, com aquela letra miúda inconfundível, ficaram guardados no apartamento da namorada por anos a fio. Vi quando estive lá.
Além de um registro histórico sobre o maior poeta brasileiro, os manuscritos são material de interesse para acadêmicos, estudantes, exegetas, críticos da obra de CDA.
Os poemas que Drummond copiou (a maioria, pelo menos) foram publicados em livros. Mas um livro que trouxesse os poemas manuscritos pelo próprio autor seria, com certeza,um tesouro bibliográfico.
A história completa do destino incerto dos manuscritos faz parte do capítulo inédito que foi acrescentado à nova edição do livro "DOSSIÊ DRUMMOND".
O livro traz a íntegra da última grande entrevista de Carlos Drummond de Andrade, gravada pelo locutor que vos fala apenas duas semanas antes da morte do poeta. Lá, Drummond ataca - por exemplo- uma herança "nociva" do Modernismo: a crença de que qualquer um poderia escrever versos.
"DOSSIÊ DRUMMOND" acaba de chegar às livrarias. Paulo Francis disse o seguinte :"a melhor entrevista que li de Carlos Drummond".
(o livro traz a análise completa de Paulo Francis sobre o depoimento de CDA).
Perdoai a propaganda em causa própria. Mas o motivo é nobre: Carlos Drummond de Andrade.
PERGUNTA FEITA AOS CÉUS
A Banda Calypso, o presidente do Senado, Oswaldo Montenegro, Sônia Braga, Lucélia Santos e os publicitários que inventaram a campanha da cerveja "boa" continuam soltos ?
O dilúvio nacional-televisivo
Elvis não morreu
"A personalização do mal numa figura exótica que mobiliza súditos fanatizados era uma tática recorrente do colonialismo europeu, que no seu ocaso precisava equiparar ataques ao seu domínio a ataques à razão e às religiões sensatas."
Este colonialismo não se parece com o atual estágio do colonialulismo?
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA - 2
Se o poder é triste, como vivem a proclamar os poderosos, por que motivo os que estão nele riem tanto ?
Não me digam que é nervosismo.
Joel Silveira, datilografado por GMN
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA
Ser carioca é ter nascido em Xapuri,no Acre. Ser carioca é ter nascido em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ser carioca é ter nascido em Diamantina, em Minas.
Mas, antes de tudo, ser carioca é não ter nascido em São Paulo.
Joel Silveira, datilografado por GMN
Tanto bate, até que fura
Tanto quanto o de seu pai, alegadamente.
O pai adotivo de Rove era gay e pioneiro do piercing, segundo artigo postado num site de modificações corporais.
A veracidade do relato ainda está para ser checada. O autor do artigo diz que era amigo de Louis Claude Rove. E que postou na Wikipedia seu relato, o qual foi deletado.
ESQUISITICES NÓRDICAS. E PERGUNTAS AOS CREMADORES DE CORPOS
O cineasta Ingmar Bergmann morreu no dia 30 de julho. O corpo só foi enterrado dezoito dias depois. Eis uma esquisitice nórdica. Por que demoram tanto para se desfazer da carcaça inerte ? Por que guardar o corpo por tanto tempo ?
Pela primeira vez na vida, compareci a um crematório, esta semana, para o adeus ao mestre e amigo de tantos anos, o grande repórter Joel Silveira. Já escrevi, aqui, sobre o ritual - simples, rápido, despojado, exatamente como ele queria.
Quando tudo acabou, fiquei com dúvidas. Terminei telefonando para o crematório, para matar a curiosidade ( o que diabos um repórter pode fazer neste "vale de lágrimas", além de perguntas ?)
O caixão some de vista depois de deslizar por uma esteira. Quando a família & amigos vão embora, o time de cremadores entra em campo, nos bastidores.
Pergunto : o caixão, afinal de contas, é cremado junto com o corpo ?
É,sim.
Quanto tempo demora a cremação ?
Cerca de três horas. Depois, uma hora para "resfriar".
Qual é a temperatura lá dentro do forno ?
De 800 a 900 graus centígrados ( bombeiros que atuaram no acidente com o avião da TAM informaram que a temperatura dentro do prédio atingido pelo Boeing chegou a 1.000 graus. Ou seja : superior à de um forno crematório)
Aberto o forno, o que acontece com os restos ?
Passam por um triturador. Somente aí é que o corpo vira realmente pó. Vinte e quatro horas depois da cremação, o pó é entregue à família.
Nem com estrondo nem com suspiro. Isso é coisa de poeta. Pelo menos ali, como se fosse o último paradoxo possível, o corpo se extingue com uma labareda.
É tudo rápido, é tudo prático, é tudo higiênico. É bom que não haja demora. Para que prolongar sofrimentos ?
Mas, lá no fundo, não há como fugir de um sentimento incômodo : tudo pode ser rápido, prático e higiênico, mas tudo é também um grande e irremediável absurdo. O espanto de sempre se repete, irresolvido: como é possível que um feixe de ossos, músculos, tecidos e sentimentos, que funcionava até há tão pouco tempo, transmute-se em pó diante da mais absoluta indiferença da natureza ? (Registre-se que, lá fora do crematório, a tarde brilhava bonita e azul).
Toda vez que é provocado, como agora, nosso espanto ruge diante da morte. É inútil rugir, claro. Mas não há outra coisa a fazer.
18 de agosto de 2007
PASSAGENS BÍBLICAS
— Mestre, foi o senhor que curou aquela muda?
— És parente dela?
— Sou.
— Ergue-te. Não precisas agradecer a mim, quem fez a obra foi meu Pai que está nos céus.
— Agradecer? Ela é minha sogra, Senhor!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/pequenos-incidentes-ocorridos-na.html)
DA BONDADE DIVINA E DO LIRISMO DAS SAGRADAS ESCRITURAS
"Estando Moisés a caminho, numa estalagem, atacou o Senhor a Moisés e procurava matá-lo. Séfora tomou então uma pedra afiada, cortou o prepúcio de seu filho e atirou-o aos pés de Moisés, dizendo: 'Tu me és um esposo de sangue!' Assim o Senhor o deixou". (Êxodo, 4, 24-26)
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(Tradução: Centro Bíblico Católico, mediante a versão dos Monges de Maredsous)
PERGUNTA FEITA À TERRA
O dinheiro gasto com a produção do programa que João Doria Jr. apresenta na TV aos domingos tem registro no TSE?
INDIGNAÇÃO
Enquanto nordestino, a nível de pessoa, gostaria de deixar registrado aqui meu repúdio às declarações do dono da Philips. Se o sujeito não gosta de Piauí, problema dele. Mas é um absurdo dizer que ninguém sentiria falta da revista!
Reflexões sobre o esfalfado Cansei
- O presidente da Philips, Tolo von Baitola, ao relegar o Piauí à lata de lixo nacional, não estaria querendo dizer ou pensar em Alagoas?
- Um movimento cujo líder se chama Jesus pode dar certo?
DA SÉRIE ENTREVISTAS IMPROVÁVEIS: A ESCRITORA ROSA DESCOBRE NUMA BALEIA O GRANDE SEGREDO DAS PALAVRAS

O nome : Rosa. É assim que se chama a mulher que telefona para a redação tarde da noite à procura de um repórter. Quer dar uma notícia sobre "a aparição de uma baleia". O repórter suspira, desalentado: a mulher - que fala com sotaque espanhol - deve ser uma dessas loucas que escrevem cartas para as redações ou ligam de madrugada para dar notícias absurdas sobre profecias, iluminações, códigos, conspirações, segredos.
O sotaque só serve para agravar a suspeita: o espanhol é a língua preferida por cartomantes que inventam nomes e carregam no sotaque para impressionar os desesperados que as procuram.
Rosa insiste : a notícia sobre a aparição da baleia merece ser ouvida porque é algo "sumamente importante". A entrevista fica marcada para o dia seguinte, num lugar improvável : um banco de praça. Rosa chega na hora marcada: meio-dia ( Noto que os cabelos pretos estão penteados como se, numa subversão absurda do calendário, ela estivesse posando, em 2007, para uma foto que já nascia amarelada, num álbum dos anos setenta. Aquele corte de cabelo um dia foi chamado de Pigmalião. Virou febre, nos anos setenta, não em homenagem ao escultor da mitologia,mas porque era usado por uma atriz numa novelinha medíocre das sete da noite. Ah, o implacável poder simplificador da televisão...)
Rosa se move com gestos rápidos. Informa a idade: 56 anos. Traz, nas mãos, um livro em que,na capa, a imagem de uma menina de vestido rosa se sobrepõe a uma velha foto de família.Os outros nove personagens retratados na capa estão em preto-e-branco. Só a menina ganhou a graça da cor.
Noto um detalhe banal: o título do livro que ela traz para a entrevista tem doze letras. Por um segundo, cedo às tentações da superstição: são doze os apóstolos, são doze os signos, são doze os meses do ano, são doze as horas que dividem as duas metades do dia. As doze letras do título terão algum significado ?
Não! - repreendo-me, em silêncio. Toda superstição é idiota.
Não há tempo a perder. Pergunto como foi, afinal,a aparição da baleia. Por que diabos a aparição de um animal terá sido tão aterradora, tão reveladora e tão importante? Rosa move a cabeça em direção ao gravador que seguro nas mãos. Não quer que o alvoroço do barulho de carros na rua e de crianças na praça encubra o que ela vai falar:
- "De repente,sem nenhum aviso, aconteceu. Um estampido aterrador agitou o mar ao nosso lado : era um jato d´água, o jato de uma baleia, poderoso, enorme, espumante, uma voragem que nos encharcou e fez o Pacífico ferver em torno de nós. E o ruído, aquele som incrível, aquele bramido primordial, uma respiração oceânica, o alento do mundo. Essa sensação foi a primeira : ensurdecedora, ofuscante; e imediatamente depois emergiu a baleia.
Primeiro, emergiu o focinho, que logo depois tornou a se meter debaixo d´água; e depois veio deslizando todo o resto, numa onda imensa, num colossal arco de carne sobre a superfície, carne e mais carne, brilhante e escura, emborrachada e ao mesmo tempo pétrea, e num determinado momento passou o olho, um olho redondo e inteligente que se fixou em nós, um olhar intenso vindo do abismo. Quando já estávamos sem fôlego diante da enormidade do animal, ergueu a toda altura aquela cauda gigantesca e afundou-a com elegante lentidão na vertical; e, em todo esse deslocamento do seu corpo tremendo, não fez qualquer marola, não provocou a menor salpicadura nem emitiu nenhum ruído além do suave cicio de sua carne monumental acariciando a água. Quando desapareceu, imediatamente depois de ter mergulhado, foi como se nunca houvesse estado ali".
Rosa fala sem tomar fôlego. Diz que a aparição da baleia pode significar para todos o que significou para ela : a descoberta do Cálice Sagrado, a visão inesquecível que lhe abriu as portas para desvendar o Grande Segredo das Palavras, esta obsessão que há séculos mobiliza tanta gente:
- "Com a escrita é a mesma coisa: muitas vezes, você intui que o segredo do universo está do outro lado da ponta dos seus dedos, uma catarata de palavras perfeitas, a obra essencial que dá sentido a tudo. Você está no próprio limiar da criação, e em sua cabeça eclodem tramas admiráveis, romances imensos, baleias grandiosas que só revelam o relâmpago do seu dorso molhado, ou melhor, fragmentos desse dorso, pedaços dessa baleia, migalhas de beleza que permitem intuir a beleza insuportável do animal inteiro ;mas em seguida, antes de você ter tempo de fazer alguma coisa, antes de poder calcular seu volume e sua forma, antes de entender o sentido do seu olhar perfurante, a pridigiosa besta submerge e o mundo fica quieto e surdo e tão vazio"
Pergunto: o que fazer com as palavras, depois da revelação de que elas, no fim, não conseguirão desvendar a "beleza insuportável" do grande animal ? Que utilidade elas terão ?
-"Disparamos palavras contra a morte, como arqueiros de cima das ameias de um castelo em ruínas. Mas o tempo é um dragão de pele impenetrável que devora tudo. Ninguém vai se lembrar da maioria de nós dentro de alguns séculos: para todos os efeitos, será como se não houvéssemos existido. O esquecimento absoluto daqueles que nos precederam é um manto pesado, é a derrota com a qual nascemos e para a qual nos dirigimos. É o nosso pecado original".
Se a batalha contra esse "dragão de pele impenetrável" um dia estará perdida, por que, então, insistir na tarefa de erguer barricadas com as palavras ?
- "Isto é a escrita :o esforço de transcender a individualidade e a miséria humana, a ânsia de nos unir aos outros num todo, o desejo de sobrepor-nos à escuridão, à dor, ao caos, à morte"
Você diz que escolheu escrever romances para participar dessa batalha. Por que essa escolha ?
"Escrever romances implica atrever-se a completar o monumental percurso que tira você de si mesmo e permite se ver no convento, no mundo, no todo. E, depois de fazer esse esforço supremo de entendimento, depois de quase tocar por um instante na visão que completa e fulmina, regressamos mancando para nossa cela, para o encerro de nossa estreita individualidade, e tantamos nos resignar a morrer".
A fita termina. Rosa soletra o sobrenome : Montero, sem "i". Rosa Montero. Deixa de presente o livro com o título de doze letras ("A Louca da Casa").
Despede-se com um leve meneio de cabeça. Começa a caminhar em direção ao portão de ferro que, à noite, protegerá a praça da invasão dos mendigos. Dá meia volta, pede para o repórter checar se o gravador funcionou. Fica aliviada quando vê que as pilhas funcionaram, sim. "Gravou tudo", digo. "Por supuesto", ela responde.
E vai embora.
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PS: Tanto os encontros com a escritora espanhola Rosa Montero quanto as perguntas da entrevista são imaginários. Mas as respostas da escritora sobre as baleias e as palavras são verdadeiras : foram extraídas do livro "A Louca da Casa", publicado no Brasil pela Ediouro. Recomendadíssimo.
O MITO DO "ESCRITOR PURISTA"
Do blog de Antonio Fernando Borges:
"Entre os efeitos colaterais provocados pela indústria do best-seller, o mercado editorial nos legou um mito: a boa literatura não vende.
E também, como uma espécie de corolário, a figura romântica do escritor que se recusa a “vender sua arte”, muitas vezes sentindo arrepios diante da idéia de fazer sucesso – o que, para ele, significaria “ser devorado pela máquina”.
O sucesso editorial de grandes autores já derrubou o primeiro mito – Graciliano Ramos, por exemplo, é um sucesso permanente de vendas. Mesmo assim, a figura quixotesca e solitária do “escritor purista” ainda tem muitos representantes entre nós"
(aqui, o texto completo: http://www.antoniofernandoborges.com/)
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA - 2
Joel Silveira, datilografado por GMN
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA
Quando o último português colonialista foi embora, o que deixou a nós, brasileiros, de herança, além daqueles dois imperadores medíocres ? Uma língua inviável, costumes e hábitos frouxos, um caráter amolecido. Só. E é com tal "massa", tão ordinária, que vimos tentando construir uma coisa chamada pátria e essa outra, ainda mais subjetiva, chamada nação.
Joel Silveira, datilografado por GMN
Dos anúncios pertinentes
17 de agosto de 2007
FLANELINHA
— Pronto. Deixa solto. Quatro estrofes de Drummond, chefia.
— Como é que é?
— Pra parar o carro aqui, quatro estrofes.
— Tá louco, ô, moleque? Semana passada, eu parei nesse mesmo lugar e só tive que recitar cinco versos de Bandeira!
— O preço é tabelado, chefia. A gente temos sindicato e tudo. Se fizero esse preço pro senhor, esse sujeito deve de ser denunciado. Tá vilipendiando a arte.
— Três estrofes e não se fala mais nisso, ok?
— De João Cabral?
— Peraí, não era de Drummond?
— Quatro de Drummond, três de João Cabral. Sabe como é, o homem concorreu ao Nobel…
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(Mais, aqui: http://culturando.com//?page_id=61)
EM NOME DA LEI E DA ORDEM GRAMATICAL
— Mas a gente é apenas namorados, seu guarda! Não fizemos nada!
— Namorados?
— É!
— Não, sua burra, “namorada”. “A gente é namorada”. “Gente” é substantivo feminino e concorda no singular! Passa já pro camburão!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/polcia-gramatical-numa-confeitaria.html)
O sangue de Jesus tem poder?
Será a bispa capaz de converter female inmates ou serão as female inmates capazes de converter a bispa?
Carnaval do terceiro mandato - 1975
É de novo carnaval
Para o samba este é o maior prêmio
E o Beija-Flor vem exaltar
Com galhardia o grande decênio
Do nosso Brasil que segue avante
Pelo Céu, mar e terra
Nas asas do progresso constante
Onde tanta riqueza se encerra
Lembrando PIS e PASEP
E também o FUNRURAL
Que ampara o homem do campo
Com segurança total
O comércio e a indústria
Fortalecem nosso capital
Que no setor da economia
Alcançou projeção mundial
(E lembraremos)
Lembraremos também
O MOBRAL, sua função
Que para tantos brasileiros
Abriu as portas da educação
(É de novo...)
A ARTE DO COICE
— É que ontem o vizinho tava precisando de um umbigo sobressalente e, pra ser gentil, eu acabei emprestando o meu. Em troca, ele me deixou a cova de queixo dele. Foi isso. Tá explicado.
— Eu tô falando sério. Mesmo. Não me lembro dessa cova no teu queixo. Pelo menos, não assim.
— É, não sei. Talvez seja uma cova perdida. Ou órfã. Outro dia até vi uma campanha tocante na TV sobre a adoção de covas de queixo. Cê sabe que a maioria das pessoas só aceita adotar uma cova cônica ou cúbica, sem estrias, e deixam as covas irregulares e enrugadas para trás? Um absurdo!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/cova.html)
METÁFORAS POLICIAIS EM TEMPOS DE CORRUPÇÃO
— Acabou, Batata, lá se foi minha inspiração... Também, meu irmão, é muita corrupção, porra, todo o dia são bem dez operações, quem é que vai dar conta disso? Tô sobrecarregado, tô estressado... Eu...
— Não chora, Bigode. Quem sabe a gente adia a operação por uns dois ou três dias, hein? Isso mesmo. A gente fica esperando, pra que a pressa? Tudo em nome da arte.
— Não! Isso, não! Espera... Espera lá... Que... tal... Que tal Ma...
— Sim?
— Ma... ma...
— Ma... ma?
— Mama África! “Operação Mama África”, que tal? Hein? Hein?
—A gente por acaso vai prender o Chico César, Bigode?
— Não, pô! Olha a licença poética, Batata! Se liga na metáfora, mermão.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/06/crise-criativa-na-sede-da-pf.html)
Um dia sem Senado
A maior reviravolta é:
*viajar pela operosa TAM, overbooking e tudo, agora que perdeu o jatinho amigo do usineiro João Lyra do Delírio;
*acordar na fazenda com os galos cantando;
*passar no glamuroso frigorífico Mafrial pra tomar um café de desjejum e ver como estão os negócios;
*tentar falar com a operadora telefônica porque as linhas da aprazível Murici emperraram; consertadas as linhas, ver o tempo passar no alpendre, ainda assim sem receber telefonemas e tampouco telefonar.
*levar para almoçar Adriana Braga Cavalcanti Montenegro Duarte, a qual, por pobre, apresentara à Receita Federal declaração de isenta, diz Josias de Souza, mesmo tendo sido listada pelo auspicioso senador como compradora de seu gado;
*cochilar no alpendre;
*levar para jantar Cristiano Alberto Santos Duarte, outro pobre, que, diz Josias, também se apresentara à Receita como isento de Imposto de Renda e também foi listado como comprador de seu gado;
*buscar, sem sucesso, saber qual a manchete prevista pelos jornais da agora fervilhante Alagoas;
*tarde da noite, esperar a sra. Calheiros dormir para, sorrateiramente, enviar email para a jornalista Mônica Veloso, de modo a obter informações sobre a filha mais importante desde os tempos de Lurian.
QUANDO COMEÇAM A FALTAR NOMES NA POLÍCIA FEDERAL
— Vamo lá, pô, é só pensar um pouquinho. Reage!
— Que tal...
— Olha aí, tá saindo...
— Onomatopéia!
— Ahn?
— Isso mesmo, “Operação Onomatopéia”! Bonito e...
— Porra, Bigode, a operação é pra prender bicheiro e não professor de português, cacete!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/06/crise-criativa-na-sede-da-pf.html)
EVOLUÇÃO ANATÔMICA
— Estranho... Ela era mesmo exatamente assim?
— Não, não. Como toda cova de queixo, ela iniciou a carreira como um simples poro. Com o tempo, ascendeu a cravo e, subindo na hierarquia dos orifícios, após árduo trabalho, chegou a cova de bochecha e, finalmente, a cova de queixo. Mas o sonho dela é mesmo chegar a ser um c...
— Epa, olha os modos!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/cova.html)
PRÊMIO PARA MELHOR FICÇÃO DO ANO
PAUSA PARA ANÚNCIO EM CAUSA PRÓPRIA : "DOSSIÊ DRUMMOND" ACABA DE CHEGAR ÀS LIVRARIAS
Quem é o ombudsman dessa joça ? Quem foi que jogou fora o manual de redação do Sopa de Tamanco ? É ou não é proibido fazer propaganda em causa própria ? Enquanto o Comitê Central discute esta dúvida devastadora, anuncio aos tamanqueiros habituais ou
acidentais : acaba de chegar às livrarias uma edição "revista e ampliada" do "Dossiê Drummond". Traz a íntegra da última grande entrevista de Carlos Drummond de Andrade, além de depoimentos de quarenta e cinco personalidades sobre ele. Há flores e pedras.
Drummond reclama de uma "herança nociva" do modernismo: todo mundo achou que poderia ser poeta. As musas lamentam informar, mas não pode. Revela por que não era fã de Nélson Rodrigues.
A acidentada (e traumática) participação de Drummond na política é um dos destaques nos depoimentos. Em resumo :confirma-se que a poesia e a política, como diz o personagem de Terra em Transe, são demais para um homem só.
Frases de Drummond na última entrevista:
.”Não tenho a menor pretensão de ser eterno.Pelo contrário : tenho a impressão de que daqui a vinte anos – e eu já estarei no cemitério São João Batista – ninguém vai falar de mim,graças a Deus.O que eu quero é paz”.
.”Não fiz nada organizado.Não tive um projeto de vida literária.As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso.Não houve nenhuma programação.Por outro lado,não tendo tido nenhuma ambição literária,fui poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia.Fiz da minha poesia um sofá de analista.É esta a minha definição do meu fazer poético”.
.”A popularidade nada tem a ver com a poesia.A popularidade pode acontecer.Mas um grande poeta pode também passar despercebido”.
.”Tive apenas o desejo de exprimir minhas emoções.Eu sentia necessidade de que eles se soltassem ; era um problema mais de ordem psicológica do que de outra natureza”.
.”O jornalismo é uma forma de literatura.Eu,pelo menos,convivi – e mil escritores conviveram- com uma forma de jornalismo que me parece muito afeiçoada à criação literária : a crônica”.
.”O que lamento é que as novas gerações já não tenham os estímulos intelectuais que havia até trinta ou quarenta anos passados.As pessoas que sabiam escrever a língua se destacavam na literatura e nas artes em geral.Hoje em dia,há escritores premiados que não conhecem a língua natal”.
.”Sou uma pessoa terrivelmente corajosa,porque não espero nada de coisa nenhuma”.
.”Considero-me agnóstico.Sou uma pessoa que não tem capacidade intelectual e competência para resolver o problema infinito que é se existe ou não existe uma divindade”.
.”Minha motivação foi esta : tentar resolver,através de versos,problemas existenciais internos.São problemas de angústia,incompreensão e inadaptação ao mundo”.
Clássicos que não o eram - O terceiro mandato
Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço
Foi esse o meu amargo fim...
Cara de gaiato, pinta de gaiato, roupa de gaiato...
foi o que eu arranjei "pra" mim...
Estavas roxa por um "trouxa"
"pra" fazer cartaz.
Na tua lista de golpista,
tem um bobo a mais...
Quando a chanchada deu em nada,
eu até gostei.
A fantasia foi aquela que esperei.
Cara de palhaço, pinta de palhaço, roupa de palhaço
Pela mulher que não me quer...
Mas, se ela quiser voltar "pra" mim,
vai ser assim...
cara de palhaço, pinta de palhaço...
até o fim...
UMA TARDE COM A VÍBORA JOEL SILVEIRA : SOM & IMAGEM
Numa de minhas expedições à "escola de jornalismo da rua Francisco Sá" - que frequentei por vinte anos - tive uma companhia nobre: uma câmera, para gravar som & imagem. Era lá que morava Joel Silveira. O cinegrafista Lúcio Rodrigues, fera das imagens, gravou tudo. A conversa foi ao ar no Jornal da Globo. A víbora vai falar.
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM714709-7823-JOEL+SILVEIRA+A+VIBORA,00.html
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA - 2
A moda, agora, é fazer oitenta anos, uma idade no mínimo ridícula e perigosamente irresponsável. Jamais chegarei lá. Já aos noventa, quem sabe ?
Joel Silveira, datilografado por GMN
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA
A vida é uma porcaria, com um defeito ainda mais sórdido :acaba.
Joel Silveira, datilografado por GMN
ENQUANTO ISSO, NA POLÍCIA FEDERAL...
— Quem sabe algo que insinue mais que revele, um lance assim meio oculto, que nem... “Veneta”, por exemplo. Taí, “Operação Veneta”.
— Olha que “Veneta” tem rima, Bigode! Pô, Bigode, pensa numa coisa simples, rapaz, simples. Esses anos todos tu tem inventado uns nome maneiro, cara. Teve “Fênix”, “Cavalo de Tróia”, “Anaconda”, “Sanguessuga”...
— Acabou-se, Batata. Perdi a inspiração, tô em crise, bicho, tô em crise.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/06/crise-criativa-na-sede-da-pf.html)
A INVENÇÃO DO PAPEL HIGIÊNICO
No século XVI, Gutenberg inventou a prensa móvel. A partir de então, seria popularizado o jornal e, o que é melhor, o jornal velho, que logo substituiria a folha de bananeira na toalete básica. Surgia assim o Homo Bundassadus. Contudo, em sua incansável luta para superar obstáculos e, principalmente, combater oxiúros, o homem acabou eliminando a parte supérflua do jornal impresso. Produziu um papel que não continha nada escrito e, mais importante, sem a coluna da Eliane Cantanhêde.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/breve-histria-da-humanidade-uma.html)
SONOTERAPIA
Um local confortável. Talvez um grande galpão, escuro, ornamentado com motivos que propiciem o sono: tons azuis, anjos renascentistas, discursos do Marco Maciel.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/cem-metros-rasos-com-ressaca.html)
IDEAL GREGO
Dizer que as pessoas que freqüentam a academia de ginástica não têm cultura é uma tolice. Conheci um sujeito lá que é fazendeiro e possui logo duas: uma de feijão e outra de mandioca. Sem falar de uma moça que já havia lido todas as páginas amarelas de um exemplar de Veja de 1983 e de um garoto que, sabendo de cor a maioria das letras da Kelly Key, caminha a passos largos para, quando menos, fazer crônicas poéticas no Jornal Nacional.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/bravo-forte-filho-do-norte-4.html)
DE ONDE FALA, POR FAVOR ? É DA CASA DE JOEL SILVEIRA ?
http://dtdnews.blogspot.com/2007/07/entrevista-joel-silveira.html
16 de agosto de 2007
INTOLERANÇA ZÉRU
— Isso é violência policial! Nós tem os nossos direitos!
— “Nós temos”!
— O senhor também, claro.
— Uff... Tá, tá, vocês têm direito ao uso de um intelectual e podem consultar a gramática normativa para falar com a família. Agora, venham! Chega!
— Então é isso? Voz de prisão?
— Não, voz passiva: VOCÊS ESTÃO SENDO PRESOS POR MIM! Vamos! Andando!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/polcia-gramatical-numa-confeitaria.html)
'Brazilian beef' desonra as tropas irlandesas?
Não é isso que afirma a nota postada no 'Belfast Telegraph'.
Ela apenas registra o protesto da Associação de Fazendeiros Irlandeses diante da possibilidade de os bravos militares estarem sendo alimentados por uma carne de um país sul-americano cujo controle de qualidade deixa a desejar.
Em todo caso, uma conexão Murici-Belfast seria assaz divertida, não?
MÁ FAMA
— O avô dele era poeta. E parnasiano ainda por cima! Na família dele o pessoal gosta de...
— Como? Não ouvi.
— (sussurando) Gosta de arte, doutor. Arte erudita, entende? Pintura figurativa, música clássica, poesia épica, essas coisas. É triste, doutor, como é triste! Ele tem até um tio que escreveu um... (suspira) um romance realista, de enredo linear, prosa tradicional, doutor.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/no-consultrio-mdico.html)
Diálogos improváveis - Saias das vaias
- Relaxa e goza - atalhou a ministra Marta Suplicy.
Alagoas é o epicentro
O terceiro mandato de Lula
O MAIOR REPÓRTER BRASILEIRO SE VAI, ÀS TRÊS E QUARENTA E UM DA TARDE
A cortina caiu, literalmente, às três e quarenta e um da tarde desta quinta-feira, no crematório do Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. Três e quarenta e um. Neste momento, um funcionário invisível da Santa Casa de Misericórdia acionou o mecanismo. A esteira onde estava o caixão com o corpo do maior repórter brasileiro começou, então, a se mover, lentamente.
Não se vê o rosto de quem aciona a máquina. Nada, ninguém. É como se o espetáculo da morte dispensasse coadjuvantes. Os parentes e amigos ficam sentados como se estivessem num pequeno auditório. O palco é ocupado pelo caixão - que desliza sobre a esteira até desaparecer, literalmente, atrás de uma cortina parecida com essas usadas no setor de bagagem dos aeroportos.
A última cena protagonizada por Joel Silveira transcorreu assim.
O corpo se vai. Fica o que conta: uma obra jornalística de qualidade excepcional.
Joel me pediu há poucos dias uma fotocópia do belo texto que Sérgio Augusto escreveu sobre ele. O texto de Sérgio Augusto foi publicado no livro "As Penas do Ofício". Ficou feliz, claro, quando eu repeti, por telefone, as louvações que Sérgio Augusto escreveu sobre os despachos que ele, Joel, enviou da Itália na época da guerra. Fiz a fotocópia. Não houve tempo para entregar. Igualmente, ele me perguntou várias e várias vezes quando é que ele poderia ver uma entrevista que gravei na Alemanha com Niklas Frank, o filho de um carrasco nazista. A "víbora" Joel queria saber o que o filho do carrasco tinha dito. Não houve tempo para ele visse a entrevista.
É sempre assim: um dia, o tempo falta, tanto para as grandes tarefas quanto para as banalidades.
Mas resta uma boa notícia: já tínhamos acertado, há meses, com a Editora Globo, a publicação de um livro em que reuniríamos nossas conversas ao longo de vinte anos de convivência. O título já estava escolhido: "Diálogos com o Último Dinossauro".
Deve ter sido o último compromisso profissional de Joel.
Virou tarefa: o livro vai ser feito. Nestas duas décadas, gravei uma série de entrevistas e conversas com Joel sobre o assunto que nos apaixonava: o Jornalismo. Eu, discípulo e aprendiz, ouvia o que o maior repórter brasileiro tinha a dizer sobre os personagens que conheceu e as situações que viveu ao longo de tanto tempo. Não é pouca coisa.
Diante do grande repórter, agi como repórter: gravei e guardei tudo.
Os depoimentos de Joel nos "Diálogos com o Último Dinossauro" terão destinatários certos : estudantes de Jornalismo e jornalistas que, a exemplo de Joel, acreditam que a reportagem é, sempre foi e será a alma da profissão.
A cortina caiu. Mas a voz continuará a ser ouvida.
FLAGRANTE DELITO
— Aha! Mãos ao alto, boca fechada! Anda, meliante!
— Ma-mas o que... que foi que eu fiz, seu guarda?
— Você foi pego em flagrante cometendo um gerundismo, seu calhorda!
— É mentira, seu guarda. Eu juro que usei o futuro do presente!
— Nada disso, eu ouvi perfeitamente quando você falou “vai estar fazendo”, seu mentiroso!
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BARULHINHO RUIM
Às cinco horas da manhã, no entanto, todos deveriam ir para as camas. Às seis, seriam despertados com um barulho ensurdecedor: talvez mil despertadores potentes, talvez uma análise política do Alexandre Garcia.
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MALHAÇÃO E METAFÍSICA
Vocês, leitores preconceituosos, hão de pensar que a academia de ginástica não é local apropriado para a especulação metafísica. Pois digo que estão enganados. Eu, por exemplo, ao olhar para aquela gente se exercitar arduamente, empurrando ferros com a ferocidade com que Santiago foi ter aos mouros, digo a vocês que imediatamente me dou conta da total falta de sentido da existência. E me convenço de que Sartre não teria escrito “O Ser e o Nada” se, em algum ponto de sua vida, não houvesse tentado a malhação.
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Divã sem teto - Da hipoteca à hiperteca
Correção na exuberância da bolha
Jogos americanos - Mulher em progresso

Enfim um jornalista esportivo que liga o amor à pessoa. Parte do SDT acredita que jornalistas de esportes tendem a ser juquinhas levemente 'cansei'. As razões foram explanadas noutros tempos.
O mundo esportivo boquiabriu-se, no país dos comedores de cheesburger, quando o Mike Penner, do 'Los Angeles Times', anunciou em pleno periódico que mudaria de sexo.
Agora enquanto Christine Daniels, o ex-Mike voltou às lides esportivas e aproveita para blogar enquanto 'mulher em progresso'.
O Departamento de Condecorações do SDT pensa em conceder o título de coleguinha esportivo mais macho do mundo.
Tamancada às avessas - João Lyra
É da carta aberta ao senador Renão Calheiros que sai esta gema,a reluzir por todo o nosso querido Brasil:
'Quanta vilania!'
GUARDA GRAMATICAL
— Nós temos gravações em que vocês aparecem infringindo a norma culta em inúmeras conversas telefônicas. Ao longo de dois meses incorreram nos delitos mais diversos, entre eles queísmos, barbarismos, silepses, solecismos e uma série de infrações à regência e à conjugação. Alguns são crimes hediondos, como o uso de expressões como “eu, enquanto pessoa” e palavras como “obstaculizar”. Passa!
— Tá falando com nós?
— “Conosco”, animal! Vira a mão!
— Ai! ai! ai! Não, seu guarda, a palmatória, não!
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CEM METROS COM RESSACA
Não entendo como, havendo esportes olímpicos tão instigantes quanto o jogo de peteca, o softbol e a luta greco-romana (que, como se sabe, é aquela em que vence o competidor capaz de derrubar o outro com o maior número de silogismos), ainda não se inventou algo chamado “cem metros rasos com ressaca a caminho do trabalho”. Diante dele, o pentatlo não passaria de uma brincadeira sem maiores compromissos, como o cuspe à distância e o mandato parlamentar.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/cem-metros-rasos-com-ressaca.html)
LIXO
Dada a obstupefação da anabolizada criatura, achei que ela havia finalmente encontrado o que procurava e, agradecida, me levaria a seu planeta, juntamente com alguns CDs do Latino, como prova do que de pior a humanidade tinha sido capaz de produzir.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/bravo-forte-filho-do-norte-2.html)
Um strudel para Joel
Espero, apenas, que ele tenha comido o strudel que fiz para ele e que deixei em seu prédio, em algum momento de 2005. Foi meu jeito capenga de dizer, na época, obrigado. Assim como este texto é meu jeito capenga de dizer, mais uma vez, obrigado.
Se quiser ler mais, sinta-se à vontade para clicar aqui.
CONVITE A LUANA PIOVANI
Madame, em vosso claro olhar, e leve,
ser feito, por ser coisa de outros dias
Que eternos somos, dúvida não tenho,
buscar. E embora em nós tudo nos chame,
LANÇAMENTO DO BLOG: A WIKIMÉRDIA
JOEL SILVEIRA, REPÓRTER, APURA O NÚMERO DE AVIÕES VISTOS DA JANELA DO HOSPITAL
O que dizer de um grande repórter ?
Diga-se que, numa tarde, sem ter o que fazer num quarto de hospital, ele foi capaz de contar o número de aviões que cruzavam os céus.
A cena, testemunhada pelo abaixo-assinado:
Enrolado num lençol verde para atenuar o frio do ar-condicionado ligado na potência máxima, o ex-correspondente de guerra Joel Silveira descobriu uma maneira originalíssima de combater o tédio que se abatia sobre ele nas tardes infindáveis do quarto 1122 do Hospital dos Servidores do Estado,no centro do Rio, numa das vezes em que esteve internado : resolveu contar quantos aviões passavam no céu.
O quarto 1122 oferece uma bela vista da Ponte Rio-Niterói. Da cama de Joel, era possível enxergar o intenso tráfego de aviões que se dirigiam ao Aeroporto Santos Dumont. “Já contei quarenta e três aviões. Agora, chega” – disse,ao dar por encerrada a apuração de dados aeronáuticos para uma reportagem que, ele sabia, jamais seria escrita. Repórter é assim.
A contagem de aviões nos céus do centro do Rio foi a última tarefa jornalística daquele que era chamado por Assis Chateaubriand de “a víbora”.O apelido lhe foi dado pelo chefão dos Diários Associados depois que Joel escreveu uma reportagem recheada de ironias sobre as damas do soçaite paulistano. O título de “maior repórter brasileiro” também acompanhou inúmeras vezes o nome de Joel Silveira – que,aos trinta e dois anos,foi enviado por Chateaubriand para os campos de guerra na Itália,na Segunda Guerra Mundial.”Fui para a guerra com 32 anos.Voltei com 80.O que a guerra nos tira – quando não tira a a vida - não devolve nunca mais” – diria,pelo resto da vida. Viu o sargento Wolf ser fuzilado por uma patrulha alemã.O texto que Joel mandou para os Diários Associados começava na primeira pessoa : “Vi perfeitamente quando.....”.
Joel Silveira era representante de uma categoria que sempre foi rara : a dos repórteres que dão um toque pessoal e inconfundível ao que escrevem. Passou a vida lamentando não ter abordado Ernest Hemingway que,solitário,bebia conhaque num café da Paris do pós-guerra.”Perdi a chance de pedir uma entrevista. O pior que poderia acontecer era levar um soco de Hemingway- o que garantiria uma bela matéria”. Rubem Braga foi companheiro de Joel na aventura européia durante a guerra.
Com Nélson Rodrigues – de quem foi companheiro de redação em publicações como a Manchete a e Última Hora - Joel tinha relações distantes.
Depois de ficar em silêncio observando Joel datilografar furiosamente um artigo na redação, Nélson Rodrigues soltou uma exclamação: “Patético !”. Dias depois, Joel devolveu o gesto. Diante da mesa de Nélson Rodrigues, bradou : “Dramático !”.
O humor afiado transformou-o em personagem de incontáveis histórias dos bastidores do jornalismo. Sempre que tinha chance,encaixava em seus artigos uma observação contra dois tipos que detestava gratuitamente : os tocadores de cavaquinho e os alpinistas. “O cúmulo do ridículo,beirando o grotesco,é um marmanjo,gordo e barrigudo,tocando cavaquinho”- escreveu,num dos seus livros.Em outro texto,perguntou : “Pode haver algo mais idiota do que um alpinista ? “.
Depois de consumir quantidades oceânicas de uísque,passou os últimos anos da vida abstêmio.”Já não tenho com quem beber.Meus amigos se foram.Nada é tão triste do que beber sozinho”.Passou os últimos anos declarando :“Sou a maior solidão do Brasil”.
Repórter a vida inteira,dizia que,se houvesse justiça na hierarquia das redações, os donos dos jornais seriam subordinados aos repórteres. Só teve uma experiência como dono de jornal. Publicou,no início dos anos cinqüenta,um jornal,Comício,que reunia um time de primeira : Clarice Lispector,Rubem Braga,Fernando Sabino,Carlos Castelo Branco.
Dizia que tinha perdido a conta de quantos livros publicara.Entre os títulos mais conhecidos,estão “A Guerra dos Pracinhas”, “Tempo de Contar” e o autobiográfico “Na Fogueira”. Em entrevista gravada no ano passado, resumiu assim uma trajetória iniciada num jornalzinho de escola em Sergipe,em 1935 : “Passei a vida vendo a banda passar.É o que todo repórter deve fazer”.
Conheceu pessoalmente dois cardeais que, depois, seriam indicados Papas : João XXIII e Paulo VI. Teve um encontro com Pio XII.Os encontros com os Papas não foram suficientes para transformá-lo em homem religioso . Cético, gostava de repetir o poeta Murilo Mendes : “Deus existe.Mas não funciona”.
Atento aos fatos até o último momento, disse-me, por telefone, na semana passada :"Estou morrendo. É o fim".
Ontem, dia quinze, às duas da tarde, pontualmente, a kombi placa LFR 1236, a serviço da Santa Casa de Misericórdia, estacionou em frente ao prédio onde Joel morava, na rua Francisco Sá, em Copacabana. Joel tinha morrido às oito da manhã.
(ver, abaixo, texto A VIDA IMITA O POETA NA MORTE DE JOEL SILVEIRA: O AGENTE FUNERÁRIO CHEGOU NA HORA. E A PLACA DO CARRO ERA LFR 1236).
Hoje, às três da tarde, o corpo de Joel Silveira será cremado no Cemitério do Caju.
( duas entrevistas e um perfil de Joel aqui : http://www.geneton.com.br/)
POLÍCIA GRAMATICAL
— Vocês serão acusados de associação para o crime semântico, formação de tabuísmo e tráfico de redundâncias. Podem pegar de cinco a dez anos de escola.
— Mas a gente é apenas namorados, seu guarda! Não fizemos nada!
— Namorados?
— É!
— Não, sua burra, “namorada”. “A gente é namorada”. “Gente” é substantivo feminino e concorda no singular! Passa já pro camburão!
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/08/polcia-gramatical-numa-confeitaria.html)
TORTURA
Estava disposto a esperar tranqüilamente que passasse o tempo de vida de uma tartaruga ou de um integrante da ABL antes de executar a árdua tarefa, mas por pressão da minha mulher, que estava cansada de me fazer respiração boca a boca toda vez que eu tentava amarrar os sapatos, decidi me matricular numa dessas academias [de ginástica]. Quanto a mim, teria preferido formas mais práticas de tortura, como assistir a filmes iranianos ou ler um livro do José Sarney.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/bravo-forte-filho-do-norte-1.html)
15 de agosto de 2007
Grandes frases avacalhadas
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA - 5
Desprendo os dedos do teclado. É imperativo. Sinto que vacila a velha máquina, antes tão fiel, tão submissa, tão ingenuamente certa do que fazia. Vacilam os tipos, vacilam as palavras que não querem ser mais usadas, porque aprenderam que nunca foram ou serão ouvidas. Esmaecidas e exaustas, as teclas parecem implorar:
-Deixa-nos em paz. Não vês que perdemos a voz ?
Joel Silveira, datilografado por GMN
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA - 4
Ir aos poucos, com lucidez e cálculo, e sem qualquer arroubo, cortando as pontes atrás de si : um prazeroso, estimulante exercício.
Joel Silveira, datilografado por GMN
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA - 3
Tudo - pessoas, acontecidos e lembranças - vai se tornando cada vez mais remoto. Eu próprio : pode haver coisa mais remota ?
Joel Silveira, datilografado por GMN
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA - 2
Velho desejo meu: evitar o futuro. Estou quase conseguindo.
Joel Silveira, datilografado por GMN
PÍLULAS DE VIDA DO DOUTOR SILVEIRA
Como me alegra apito de navio se despedindo ! É como se eu estivesse dentro dele.
Joel Silveira, datilografado por GMN
Reencarnação
Doutor Silveira no inferno
- Inclusive patenteado.
- Perdeu o poder amedrontador. O aquecimento global, meu filho, fez um... como dizem os banqueiros, fez um downgrade nos títulos de longo prazo da traquitana. A piada mais fácil seria o caldeirão de um certo Hulk, mas televisão é covardia.
- Que diabos...?!
- E o enxofre? Tem enxofre? Não pode ser mais fétido que um lixão. Que o Senado Federal.
- ...Você é insolente, hein?
- Para meditar ainda mais: o Cérbero aquele é páreo para os pitbulls devoradores de bebês.?
- Basta! Cala e não bufa!
- No Brasil dizem que Deus é brasileiro. Eu digo que no Brasil o Diabo ainda está tentando juntar a papelada para pedir asilo.
TEORIA ANTROPOLÓGICA SOBRE O COMPORTAMENTO DOS POLÍTICOS
A evolução humana pode ser dividida em dois grandes períodos históricos, a saber: ADS e DDS. Ou seja, Antes da Ducha de Sanitário e Depois da Ducha de Sanitário. No princípio, nossos ancestrais faziam suas necessidades por toda parte, sem preocupação com o asseio e, muitas vezes, melando outros indivíduos. O que leva a crer que o comportamento dos políticos é atávico e se origina naquele ponto de nossa história.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/breve-histria-da-humanidade-uma.html)
DPJN
— Ando pensando muito sobre eles...
— Eles quem?
— Nossos filhos...
— Ué? Mas se a gente nem tem filhos!
— Mas vai ter. Ou não vai ter? E por acaso o fato de a gente não ter filhos impede que se pense sobre eles? É cada uma...
— Ai, já sei! Tu tá com DPJN de novo, né?
— DPJN?
— Depressão Pós-Jornal Nacional. Todo dia é isso agora. Tu não pode mais ver o Jornal Nacional que fica aí, pensativo, mais imprestável que cinco congressistas.
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(Mais, aqui: http://marconileal.blogspot.com/2007/05/filhos.html)
DO SUBDESENVOLVIMENTO
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Para mim, a maior prova de que o Brasil é o país do futebol não é a grande difusão que o esporte tem por aqui e sim o fato de que, por estas terras ingratas, se o indivíduo ironiza Mainardi ou Olavo de Carvalho, é imediatamente considerado petista e se, pelo contrário, mete o pau no PT ou critica o governo, faz parte do complô da grande mídia para derrubar o Lula. Ou seja, o brasileiro é um ser politicamente tão maduro quanto um integrante da Gaviões da Fiel.
A VIDA IMITA O POETA NA MORTE DE JOEL SILVEIRA: O AGENTE FUNERÁRIO CHEGOU NA HORA. E A PLACA DO CARRO ERA LFR 1236
Faz pouco tempo, o Sopa de Tamanco publicou um belo poema de Lawrence Ferlinghetti. O poeta diz, com outras palavras, que o mundo é um belo lugar, mas um dia, cedo ou tarde, ele virá : o agente funerário sorridente.
E o agente veio. Acabo de sair da casa de Joel Silveira. Não quis ver a saída do corpo. A Santa Casa de Misericórdia avisou que o agente chegaria às duas horas. Pensei comigo: "Com a pontualidade brasileira, ele vai chegar lá para as quatro da tarde".
Engano. Nem uma hora e cinquenta e nove minutos nem duas horas e um : eram duas em ponto quando o agente apertou a campainha, no apartamento de Joel Silveira, no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana.
O agente encenava, sem suspeitar, o poema de Lawrence Ferlinghetti.
Era como se dissesse: tudo pode atrasar no Brasil, mas a morte, quando vem, chega exatamente na hora, sem tolerância. Nem um segundo de atraso.
Desci do sexto andar. Lá embaixo, tive o gesto inútil de observar a placa da Kombi branca da Santa Casa de Misericórdia: LFR 1236. A Kombi trazia, nas laterais, o nome da Santa Casa e o telefone: 0800 257 007.
Joel tinha inveja de um personagem de Victor Hugo que, minutos antes de ser guilhotinado, dizia, resignado, que estava pronto para a execução,mas "gostaria de ver o resto". Ou seja: o personagem gostaria de descrever a própria morte.
Que palavras Joel usaria ?
Quanto a nós, discípulos e aprendizes, já não há o que fazer, além de anotar a placa da Kombi : LFR 1236, três letras e quatro números amargamente inúteis.
É assim que uma vida se acaba, exatamente no meio de agosto.
O poema de Ferlinghetti:
''The World is a beautiful place to be born into
If you don't mind happiness not always being so very much fun
If you don't mind a touch of hell now and then just when everything is fine
because even in heaven they don't sing all the time
(...) Yes, the world is the best place of all
for a lot of such things as making the fun scene
and making the love scene
and making the sad scene
and singing low songs and having inspirations
and walking around
looking at everything
and smelling flowers
and goosing statues
and even thinking and kissing people and
making babies and wearing pants
and waving hats and
dancing and going swimming in rivers
on picnics in the middle of the summer as just generally ''living it up''
Yes, but then right in the middle of itcomes the smiling mortician''
Joel Silveira: frases que ficam (VIII)
(Especial sobre Joel Silveira em Bruno Garschagen)
Joel Silveira: frases que ficam (VII)
(Especial sobre Joel Silveira em Bruno Garschagen)
Joel Silveira: frases que ficam (VI)
(Especial sobre Joel Silveira em Bruno Garschagen)
Joel Silveira: frases que ficam (V)
(Especial sobre Joel Silveira em Bruno Garschagen)
Joel Silveira: frases que ficam (IV)
(Especial sobre Joel Silveira em Bruno Garschagen)
Joel Silveira: frases que ficam (III)
(Especial sobre Joel Silveira em Bruno Garschagen)
Joel Silveira: frases que ficam (II)
(Especial sobre Joel Silveira em Bruno Garschagen)


