6 de março de 2008

EXTRA! EXTRA! Novo romance de Paulo Francis!

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Quando li pela primeira vez os romances de Paulo Francis fiquei angustiado. Angústia provocada pelo turbilhão de salitre e breu (copyright William Blake) que jorrava do Cabeça de papel e Cabeça de negro. Os dois volumes foram todos rabiscados. Muitas vezes tinha que voltar páginas para entender personagens que entravam e saíam sem qualquer explicação, aceno, bye, bye, so long, farewell.

Deixei os livros dormindo alguns anos na estante. Ainda ficava incomodado por não ter conseguido entrar nos romances. E só se insiste dessa forma, antes de considerar o escritor uma besta sem talento, se se pensar que há algo de valor escondido pela linguagem alucinada e inside joke de uma época que não a sua. O que fiz? Abria os livros em qualquer página e lia o parágrafo no qual a vista primeiro focalizava. O parágrafo levava a outro e lá ia Garschagen atravessando mais páginas do que deveria. “Do que deveria” porque a idéia era ler os romances de forma fragmentada, como extratos do Diário da Corte. Deu certo, comigo.

Leio hoje na Folha (assinante) sobre o lançamento do romance que Francis deixou escrito. Se for como os outros, lerei o livro inteiro para depois aproveitá-lo em doses homeopáticas. Ter Francis, o precursor dos blogues de qualidade, em evidência é sempre bom, sempre civiliza.

O livro-confusão de Francis

Chega às livrarias “Carne Viva”, romance inédito de Paulo Francis que teve sua publicação adiada por mais de dez anos e sofreu modificações

Paulo Francis na redação da Folha, em 1982; livro inédito “Carne Viva’ chega às livrarias no próximo dia 15, com mudanças feitas nos originais deixados pelo autor

MARCOS STRECKER
DA REPORTAGEM LOCAL

Waaal… Demorou dez anos, mas finalmente ficou pronto. Chega às livrarias no próximo dia 15 o aguardado romance inédito de Paulo Francis (1930-1997), prometido há mais de uma década e que fecharia o ciclo iniciado com “Cabeça de Papel” e “Cabeça de Negro”. Antes mesmo da sua publicação, “Carne Viva” já tem uma longa história. A começar pelo título, que originalmente seria “Jogando Cantos Felizes”.

"Quem quer democracia? Na minha é R$ 20, só R$ 20!"

É assim que governos democráticos resolvem questões diplomáticas:

06/03/2008 - 08h28
da Folha Online

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou que a crise diplomática com a Colômbia pode afetar o comércio bilateral e insinuou que poderia nacionalizar empresas colombianas no país.

“Vamos fazer o mapa das empresas colombianas na Venezuela. Poderíamos nacionalizá-las (…) e as que temos lá na Colômbia teremos de vendê-las”, disse.

“Tudo o que pudemos alcançar, chegamos a US$ 6 bilhões de intercâmbio comercial, veio abaixo”, afirmou em entrevista coletiva após uma reunião com o presidente equatoriano, Rafael Correa.

Chávez disse que a Venezuela prepara medidas para evitar que a crise diplomática, provocada pela operação de tropas colombianas no Equador para atacar as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), afete as economias de Caracas e Quito.

“Façamos um convênio comercial porque não podemos depender nem de um grão de arroz da Colômbia”, propôs Chávez a Correa, que chegou a Caracas na noite desta quarta-feira, na terceira etapa de uma viagem por vários países latino-americanos para buscar apoio.

29 de fevereiro de 2008

Quando nos falta a piada falta tudo

A vida em Lisboa anda corrida Está cada dia mais difícil cuidar de tudo e garantir o uísque das crianças. Para não deixar o caro Marconi Leal falando sozinho vim aqui dar um alô.

Daí já era, digamos, difícil ler sobre a política de Terras de Vera Cruz. Do outro lado do Atlântico a coisa fica um tanto quanto nonsense, se é que vocês me entendem. E nem é a sensação que achei que fosse sentir: de que o país não existe. É de saber que existe e tem um presidente dessa envergadura e circunferência, se é que vocês me entendem.

Um dos graves sintomas de que algo não anda nada bem em Terras de Vera Cruz é que a política deixou de ser motivo para piada. Saímos da realidade eminentemente brasileira para adentrarmos numa desolação tão profunda quanto trágica.

A piada, mesmo nos piores momentos do país, nos serve como termômetro. Se falta a piada é porque está faltando algo maior e mais importante. O Brasil, também, pode acabar, não com uma explosão, mas com um lamento (copyright T. S. Eliot).

25 de fevereiro de 2008

ENFIM

"A VIDA, NO FIM DAS CONTAS, NÃO PASSA DE UMA GLORIOSA COLEÇÃO DE INUTILIDADES".

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CONGRESSO INTERGALÁCTICO

Ali, o nobre deputado Pacóvio dos Santos, de Cudomundópolis do Sul, após receber dinheiro de um lobista, apresentaria uma emenda, defendendo que o planeta não perdesse seu status. A bancada do cometa Harley, sustentada por grandes empreiteiros, logo se inflamaria, exigindo o mesmo tipo de tratamento para o corpo celeste de sua predileção.

Então, pensando na futura instalação de uma Assembléia Legislativa em Urano, um grupo de congressistas apoiaria todas as iniciativas acima, contanto que Júpiter passasse imediatamente à categoria de sol.

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NOJO

"Uma geração de cínicos. É isto que somos. Sentado na cama, assistindo a Juno, eu tive um pouco de nojo de mim. Minto. Não era exatamente um auto-nojo. Digamos que meu estômago estava embrulhado por causa de uma pizza e também por perceber que eu e minha geração havíamos sido talhados na profunda descrença no ser humano. Há quem se orgulhe disso. Algo humanamente compreensível, como se verá".

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14 de fevereiro de 2008

CONFISSÕES DE UM REPÓRTER BARBUDO

"Sou um projeto de ruína . Meu velocímetro profissional já registra três décadas de rodagem por redações. É um bocado. Quem mandou não estudar Medicina ? A hora de dizer “chega” vai se aproximando. Todo jornalista deveria mudar radicalmente de atividade depois de dez anos de exercício profissional. Somente assim não correria o risco de se habituar ao papel de figurante do espetáculo patético encenado em redações por gente que se considera cem vezes mais importante do que realmente é".

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CONFISSÕES DE UM DESOCUPADO GLABRO

Meu pacifismo tem um limite: a leitura de algumas páginas de Heródoto ou Plutarco. Bom, confesso que este último também me dá uma vontade irresistível de enrolar um lençol ao redor do corpo, colocar algumas folhas de louro no cabelo e descair a mão com um gritinho, dizendo:

— Afe, César! Que aqueduto grande você tem!

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13 de fevereiro de 2008

ALPINISTAS

“Não quero parecer ranzinza,mas alguém pode me dizer para que servem os alpinistas ? Por que aqueles idiotas não pegam um avião para olhar as montanhas do alto,em vez de tentar a subida ridiculamente amarrados em cordas ? . Eu jamais compraria um carro de um alpinista.Não se pode confiar em seres que não têm senso de ridículo”.

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TELEVISÃO

— Sr. Onofre, eu sou o agente Jonas e esse aqui o agente Nunes. Nós estamos entrevistando os moradores das redondezas, porque houve uma ironia hedionda no bairro ontem à noite e procuramos o culpado. O senhor reconhece esse homem aqui no retrato?
— Voltaire? Digo, vou teire que pensar um pouco... Essa peruca, esse bastão, esse nariz... Não, não, nunca vi mais nobre.
— O senhor pensava ontem à noite, entre as 20 e 22 horas?
— Ih, nada. Tenho evitado. A última vez que eu pensei deu uma dor de cabeça dos diabos. Troquei pela televisão.

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PROBLEMA DE CLASSE

"De onde vem este ódio à classe-média? Lembro-me agora daqueles burgueses da Semana de 22 escrevendo poemas de ódio à pequena-burguesia. Ou ainda de Luis Fernando Veríssimo, o escritor preferido da classe-média, espinafrando a dita-cuja. Isto sem falar nos autores jovens, que já nasceram com esta raiva entranhada.

"Uma boa amiga me diz que classe-média nada tem a ver com dinheiro ou falta dele. É um estado de espírito. É aquela coisa de comprar o mesmo carro, de ter o mesmo cachorro, de comer nos mesmos restaurantes e de ver os mesmos filmes e sobre eles falar a mesma coisa. Não discordo. É uma das facetas, sim. Mas, ainda, vale a pergunta: por que tanto ódio à classe-média?"

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12 de fevereiro de 2008

MÁRIO DE ANDRADE

"Era insuportável,um viadão, vivia cercado de garotos, todo pachola.Uma vez,escreveu uma crítica sobre um livro.Disse : “Este realmente é um bom contista,não é um Joel Silveira qualquer”.Aliás,devo ser a única pessoal do Brasil que nunca recebeu uma carta de Mário de Andrade.Todo mundo recebeu.Não me empolga.A poesia de Mário de Andrade é muito ruim, os contos são uma coisa tradicional, aquele negócio de folclore.Detesto folclore !"

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UMA THURMAN

Não sei vocês, rapazes. Quanto a mim, se o Senhor me propusesse que minha salvação dependeria de uma circuncisão com uma pedra afiada, ligaria para o diabo na mesma hora, oferecendo minha alma:

— Uma noite de sexo selvagem com a Uma Thurman e duas caixas de bourbon. E não se fala mais nisso.

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11 de fevereiro de 2008

CONTÍCULO RUSSO

"Ele era um respeitável militar de patente graduada e descendente de uma família nobre. Ela uma camponesa simplória e lindíssima! Ivanovitch, apesar de ter idade suficiente para as núpcias já algum tempo, era solteiro. A moça viçava em sua juventude e nas palavras do próprio Ivanovitch, 'Era uma flor do campo!'.

O interesse por Katuska, este era o apelido dela, causou escândalo. Mas como pode? Um nobre?! Katuska era filha de Vanka e Vania, antigos moradores na propriedade de Ivanovitch. Os pais, naturalmente, temeram as intenções do senhor. A mãe iniciou rezas por Santa Anastácia. Mas o senhor Ivanovitch, de fato tomado pela alma de um sátiro, quisera revestir sua licenciosidade das mais puras e castas formalidades, ocultando com palavras e ações suas reais pretensões."

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CPI

— Eu não fiz nada não, eu juro!
— Ah, não? Toma de novo! E essa, e mais essa. E então, refrescou a memória agora?
— Ai! Mas o que você tá fazendo? Quem são vocês, afinal?
— CPI.
— Ué? Mas eu nem sou filiado ao PT!
— CPI. Central de Patrulhamento Ideológico, canalha! Toma, toma!
— Ai! Isso dói. Cadê os meus direitos?
— Os seus direitos tão por aqui. Mas se continuar negando, vai perder os dois: o pé e a mão. Vai falar ou não vai, engraçadinho?
— Tudo bem, eu confesso: eu queria comprar aquela calcinha de renda.

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CLARICE LISPECTOR

"As the translator Gregory Rabassa famously put it: 'I was flabbergasted to meet that rare person who looked like Marlene Dietrich and wrote like Virginia Woolf'.”

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VARGAS

“Notei que as mãos do presidente eram macias,fofas.Getúlio só me cumprimentou na entrada.Terminou me dando as costas na saída.Simplesmente foi embora.Quando eu lhe passei um questionário - e ele viu que o que eu queria era uma entrevista - Getúlio se transfigurou.Aquela cara risonha despareceu.O homem virou uma fera.Jogou o papel assim,na mesa : “O senhor entrega isso ao doutor Lourival”. Em seguida,levantou-se daquela cadeirona pesada - e sumiu”.

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8 de fevereiro de 2008

O FUTURO DO BRASIL EM NOSSAS PATAS

Acabei por descobrir um artifício engenhoso para detonar a revolução educacional de que tanto o país necessita: o desmatamento de crianças e o aquecimento de analfabetos. Pensem bem: se brasileiros abnegados iniciassem a invadir escolas caindo aos pedaços para dar machadadas em crianças ou a entrar clandestinamente em asilos de velhinhos analfabetos para tocar fogo em suas dependências, dentro em pouco, no máximo cinco anos, o governo afinal perceberia a existência de um problema na Educação e, quiçá, na Previdência brasileiras.

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SPOILERS

"Pois aqui vale a pergunta: uma crítica pode conter spoilers? Ela tem permissão para estragar, no leitor, o prazer da descoberta?
Minha resposta é: sim."

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MORAES NETO, FRANCIS E A SOCIAL-DEMOCRACIA

"Você confessa hoje que tem simpatias pela social-democracia.O caminho para o Brasil pode ser esse ?

Francis - Certamente. A social-democracia é imperfeita - sem dúvida- mas é a coisa mais justa que há.Porque garante o mínimo necessário a quem não pode lutar pela sobrevivência e, ao mesmo tempo, permite que quem pode se expanda sem ditadura sem nada.Veja os países mais avançados do mundo : são os escandinavos. A própria Alemanha é uma social-democracia,a França ... E os Estados Unidos são uma social democracia - desorganizada,mas,se você falar assim nos Estados Unidos,eles acham que você é comunista.O que tem de auxílio às pessoas necessitadas é igual a qualquer social-democracia européia."

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