(Mais, aqui)
11 de setembro de 2008
MEDIOCRIDADE
(Mais, aqui)
10 de setembro de 2008
QUE LÍNGUA SERÁ AQUELA ?
Motivo: ainda não encontrei um veterinário que pudesse traduzir aqueles grunhidos. Ou seja: transformá-los em sentenças compreensíveis por gente alfabetizada.
Ah, um veterinário. Que falta faz essa criatura, a única capaz de entender a linguagem dos irracionais....Mas, cedo ou tarde, há de aparecer um, para matar nossa curiosidade.
De qualquer maneira, causa-me espécie o fato de o sr. Nicomar ter um ataque hidrófobo (ou será bibliófobo ?) apenas porque ousei corrigir um erro cometido com assustadora frequência por tanta gente,inclusive a que porta diplomas e certificados : dizem "o óculos" e "meu óculos".
A reação do sr. Nicomar nos deixa uma lição que faria Pavlov soltar coquetéis Molotov de contentamento: a gente aprende que, a cada vez que alguém tenta corrigir um parvo como o sr. Nicomar, as cordas vocais da besta emitem um relincho característico.
Como é sábia a natureza...
A PROPÓSITO DOS RELINCHOS DO SR. TOM CARNEIRO
Exemplo claro do que fica acima dito nos é dado pelo agreste Sr. Tom Carneiro, cujo deslutre é de prístino conhecimento dos leitores deste Sopa de Tamanco. Guiado por sua obtusidade verdadeiramente cavalar, eis que agora o papalvo pretende-se esteio de certa campanha contra a utilização da expressão “o óculos”, como se fora ela grave índice da mediocridade pátria.
Ante parvoíce de tal monta, é inevitável que acorram a alguém minimamente instruído os famosos versos medievais da Festa dos Asnos:
Orientis partibus
Adventavit Asinus
Pulcher et fortissimus
Sarcinis aptissimus.
Hez, Sire Asnes, car chantez,
Belle bouche rechignez
(Traduzo livremente para incultos, quadrúpedes e parentes afins do Sr. Carneiro em geral, que certamente desconhecem, além do português, o francês e o latim: “Do Oriente vem o asno, belo e bravíssimo, próprio para suportar cargas. Levantai, Sr. Asno, e cantai. Abri vossa bela boca!”)
Afinal, a preocupação estéril com expressões consagradas pela ignávia da plebe, de que o próprio Sr. Carneiro faz parte, denota, quando menos, ser o indivíduo que a expõe portador de uma profunda nostalgia de galhos de árvores e refeições replenas de raízes e folhas.
Que esperar, no entanto, de uma mente de operário, vil trabalhador manual da escrita, cuja capacidade imagética é a mesma alcançada por uma lesma vítima de trepanação?
Ora, faça-nos um favor, Sr. Asno: vá alfabetizar-se ou corra até a esquina, ver se lá estou, a ler o meu Nietzsche no original. Mas, show a little respect e nos desobrigue de vosso relinchar, sim?
"MEU ÓCULOS" NÃO!
Já que a guerra é inútil, ofereço minha porção de inutilidade: a partir de hoje, a cada vez que alguém disser "meu óculos", repetirei, com voz inaudível, o mantra sugerido por Tom Carneiro.Assim: "a casa caiu, a casa caiu, a casa caiu..."
Depois, sairei sem ser notado.
CAMPANHA NACIONAL CONTRA "O ÓCULOS". OU: A GRANDE MARCHA DA IGNORÂNCIA AVANÇA POR NOSSOS CANAIS AUDITIVOS!
Atenção, apresentadores de TV, repórteres, médicos: não custa nada aplicar o plural quando ele é necessário! Não dói, não custa caro, não dá trabalho! O certo é "os óculos" ! Jamais, "o óculos" ou "um óculos" ou "meu óculos". Simples assim. Dizer "o óculos" ou "um óculos" é como dizer "a casas", "o carros", "o jornais". Mas, pela frequência com que gente "ilustrada" comete o erro bárbaro, tudo indica que aplicar um recurso tão básico quanto o plural é dificílimo....
Enquanto o Sopa uiva para o vento contra a praga do "o óculos", a GMI ( Grande Marcha da Ignorância) avança, impávida, por nossos canais auditivos...
A CASA CAIU - II ( OU: CAMPANHA NACIONAL CONTRA UMA PRAGA CHAMADA "O ÓCULOS")
Um dos repórteres disse, com toda clareza, "o óculos".
De repente,como num espasmo involuntário, minhas cordas vocais começaram a sussurrar,para meus botões fatigados, o mantra maldito: a casa caiu, a casa caiu, a casa caiu.
GRAMPOS EM BRASÍLIA
Claro, as desvantagens envolvem pobreza, ignorância, insegurança e frases de Caetano Veloso. Porém, não se pode negar que a libente interação entre as gentes de nossa pátria torna suportáveis, por exemplo, as maiores tragédias do dia-a-dia, como acordar com o Bom Dia Brasil e comentários do Alexandre Garcia.
(Texto completo aqui)
ORGIAS FILOSÓFICAS
Boehm, não fique Mach assim, porque recentemente foi inaugurado o nosso Orgias Filosóficas, estabelecimento adulto que Croce incrivelmente, Dee a Dee, Zaehner parar. Conosco, você vai se sentir como um Benjamin, um verdadeiro Rée.
Nossa filosofia é: todo mundo nous, sem Hobbes ou qualquer tipo de Adorno. Engels são barrados na portaria. Só aceitamos Putnam. Trata-se de fator Sêneca non. Dewey a quem Dewey.
(Texto completo, aqui)
8 de setembro de 2008
CAIU A CASA
A casa caiu. O conceito do Manhattan Connection sofreu uma queda de cinquenta pontos na EPF. Aos não iniciados: EPF significa Escala Paulo Francis de estima televisiva.
Fui dormir sussurrando aos meus cinco botões um mantra de três palavras : a casa caiu, a casa caiu, a casa caiu.
1 de setembro de 2008
11 de agosto de 2008
Bandidos brasileiros, estudantes brasileiros e Oscar Wilde em Portugal (duvida?)
Quinta passada dois brasileiros tentaram assaltar uma agência do Banco Espírito Santo (BES) num lugar chamado Campolide, aqui em Portugal (veja as fotos aqui). Depois de algumas horas de negociação sem solução os snipers da polícia atiraram, mataram um e feriram o outro, que está internado o hospital. Por quê conto essa história? Porque as reações mais indignadas que ouvi não foram dos portugueses, mas de estudantes brasileiros de mestrado que moram aqui. Todos manifestavam a revolta dos justos: “malandro em vez de trabalhar (e trabalho há) inventa de roubar. Se o preconceito contra brasileiro aqui já é uma merda, imagine agora?” É claro que a indignação leva ao exagero retórico, mas é interessante notar como brasileiros, digamos, qualificados (na comparação com a maioria dos imigrantes das Terras de Vera Cruz que vem para cá ser trabalhadores braçais) reagem a esse tipo de situação e ao preconceito contra os imigrantes brasileiros, preconceito esse que quase todos eles nunca sofreram diretamente.
Mas daí me pergunto? Ouvir de um português um entusiasmado “você nem parece brasileiro!” (como ouvi algumas vezes) não é uma forma de discriminação positiva? Eu costumo reagir com um muxoxo esnobe porque a frase é, na aparência, um elogio, mas na essência, um insulto que não ousa dizer o nome (para usar o aforismo do senhor Wilde).
Os portugueses adoram os brasileiros, costumo ouvir por aqui (estou em Lisboa desde outubro do ano passado). Mas os portugueses estão cansados dos imigrantes brasileiros mal-educados que fingem esquecer que estão num país que não o deles. No Brasil, a má-educação desses brasileiros é discriminada e reprovada, como aqui. Mas lá eles podem agir impunemente porque representam a si próprios. Eles têm o direito de ser os idiotas que são. E se cometerem crimes serão julgados e punidos. Num país estrangeiro o brasileiro não é dono de si próprio. Mesmo que não queira, mesmo que rejeite com todas as forças, mesmo que renegue a pátria por três vezes, como Pedro a Cristo, ele também representa os vícios e virtudes de sua nação. Os bandidos que tentaram assaltar o BES não eram apenas o Wellington Nazaré e o Nilson Souza (morto na ação); eram, acima de tudo, brasileiros que moravam ilegalmente em Portugal.
A indignação dos estudantes é uma reação demasiado humana: a agressividade é uma forma de estabelecer a diferença por causa do fator comum de ser brasileiro, que, em casos como esse, é uma espécie de marca da besta cravada na testa. Eu, pessoalmente, não me importo com a nacionalidade. Os idiotas são maioria em todos os lugares do mundo. Não tenho mais amigos no Brasil do que os que tenho aqui. Cinco amigos em cada lugar em que se mora é o máximo que uma existência civilizada suporta; é o máximo de gente que se pode reunir num restaurante e conversar sem que seja preciso berrar ou negligenciar qualquer um deles.
Os assaltantes eram brasileiros? Eram. É isso o que fica. Ser brasileiro é uma condição muito mais poderosa do que ser bandido.
7 de agosto de 2008
"PAULO FRANCIS FOI UM GÊNIO QUE VIVEU NA FAVELA DO JORNALISMO. QUIS ESCAPAR. MORREU ANTES"
"Jornalismo
Ouvi uma vez Fernando Morais dizer que quem não se interessa por Antônio Carlos Magalhães não devia ser jornalista, devia ir fazer outra coisa. Acho que esse é exatamente o problema com o jornalismo: um monte de gente que se interessa por Antônio Carlos Magalhães. Isso, e que são gentinha. Mesmo pessoas interessantes como Paulo Francis - cuja morte eu quase, quase chorei - quanto mais jornalista era, quanto mais da patota do Pasquim, mais acanalhado. Quem disse o que ele disse sobre Ruth Escobar (sim, ela mereceu) is no bloody gentleman. Vejo a vida de Paulo Francis como uma luta contra o jornalismo. Daí a sua depressão de dias, depois que seu romance não vendeu o quanto queria. Sentia a necessidade de escapar desse mundo acanalhado das redações, e suspeito que queria escapar até mesmo de alguns amigos, que entrarão para alguma espécie de história só porque tiveram a sorte de viver no mesmo bairro de um gênio. No final, se não me engano escrevendo sobre uma exposição de Matisse, Paulo Francis lamentou o tempo que tinha desperdiçado na vida, lendo e escrevendo sobre Kruschev, Jango, e outras bestas. Foi um gênio que viveu na favela do jornalismo. Quis escapar. Morreu antes. E até hoje os jornalistinhas brasileiros reclamam de seu pseudojornalismo - como se importasse se os seus textos seguiam ou não alguma espécie de cartilha infecta do que é jornalismo. Fico imaginando se um chefinho de redação o forçasse a escrever jornalismo de verdade; ah, as almas secas, cheirando a nicotina, que falam de jornalismo como se fosse uma ciência arcana. O que ele escreveu foi simplesmente as melhores linhas do jornalismo brasileiro, e se o jornalismo o renega, fica decapitado.
Mas enfim. De qualquer modo, juro que nunca fui tão feliz quanto depois que acabou a minha assinatura da Folha. Meu rosto ganhou uma distinção encantadora"
23 de julho de 2008
DE REPENTE, AS TRANCINHAS TOMAM O VÍDEO
Noticiário esportivo na TV. De repente, sem aviso prévio, uma figura se materizaliza.
Cabelo cheio de trancinhas. Brinco na orelha.
O que é aquilo ?
É Ronaldinho Gaúcho, crianças. Parem de chorar. Vão tomar um copo de água com açúcar.
O susto passa rápido.
ELES DEMORAM,MAS CHEGAM: OS TROCADILHOS NA TV!
Faça-se um bolão.
Quantas vezes a expressão "negócio da China" aparecerá em reportagens sobre aquele chatíssimo festival de disputas esportivas que assolarão os vídeos e as páginas dos jornais em agosto ?
a) 50 vezes
b) 75
c) 348
Uma cena típica: o atleta pobrinho ganha uma medalha. Uma voz melosa diz :
"trocar o chão de terra batida do interior do Nordeste pelo pódio de Pequim foi............um negócio da China"
As reticências indicam que haverá uma pausa irritante entre "foi" e "um negócio".
É assim. Sempre foi. E será.
POR QUE A HUMANIDADE É INVIÁVEL
estava zapeando quando vi, neste momento, meia-noite e meia, um cantor brega de cabelo pintado, brinco na orelha e um imenso rabo-de-cavalo cantando uma música cafoníssima em espanhol. Como se não bastasse o horror visual e auditivo, ele desabotou a camisa e exibiu o peito cabeludo, para parecer "sensual". Chama-se Elimar de Tal.
Nem faz vinte e quatro horas, eu já tinha visto Júnior, aquele irmão de Sandy, dando entrevista na platéia de um show da Família Lima. Um detalhe: ele exibia um corte de cabelo moicano.
Minhas retinas fatigadas jamais se recuperarão do duplo golpe: Elimar de Tal e Júnior de Tal. Dispenso-me de tecer maiores considerações sobre a Família Lima ( o que é aquilo, Deus do Céu ? Uma voz celestial me responde que "Família Lima" é a alcunha de um conglomerado de bípedes que guardam entre si três características básicas : são geneticamente interconectados pelos genes da chatice, usam - ou usavam - rabos-de-cavalo patéticos e vestem-se apropriadamente de luto para arrancar sons insuportáveis de violinos).
Ah, Nossa Senhora do Perpétuo Espanto: eu me penitencio. A culpa foi minha. Quem mandou ficar zapeando ? Por que não usar este tempo passeando os olhos por um bom livro ? Mas, não. Preferi o risco de usar o controle remoto.
Resultado: confirmei, pela enésima vez, que a Humanidade é inviável.
17 de julho de 2008
PAULO FRANCIS, O QUE SABIA COMO ESCREVER SEM CAIR JAMAIS NA CHATICE
Ok : desde já, quero confessar ao distinto júri que sei do risco que corro ao usar a expressão “humildemente” num parágrafo que trata de Paulo Francis. As duas entidades, graças a Deus, eram incompatíveis: Francis e a humildade. Uma não se misturava com a outra. Eram como água e óleo. A referência a um lampejo de humildade em Francis deve produzir frouxos de riso em quem teve o privilégio de conhecê-lo. Mas, em nome da verdade factual, devo dizer que, sim, ao visitar a redação do Fantástico Francis teve um gesto de humildade. Ou seria gentileza ? Cravo nas duas alternativas. A imagem pública de “lobo hidrófobo” não combinava com o Paulo Francis no trato pessoal: um gentleman.
Paulo Francis tinha acabado de lançar um excelente livro memorialístico sobre o golpe de 1964, “Trinta Anos Esta Noite”. Eu tinha gravado uma longa entrevista com ele numa praça escondida nas proximidades do Jardim Botânico. Procurávamos um lugar razoavelmente silencioso para a gravação. O sucesso da busca foi parcial: crianças brincavam nas redondezas. As babás ficaram indiferentes à presença de Francis, mas pelo menos trataram de vigiar os passos de fedelhos que brincavam na praça.
Três anos depois, um ataque cardíaco fulminante matou o mais polêmico,o mais lido e o mais provocativo jornalista brasileiro, na manhã do dia quatro de fevereiro de 1997, em Nova York. Dizer que “Paulo Francis faz falta” virou um enorme lugar-comum. Mas é uma verdade puríssima: o texto de Francis faz uma falta imensa ao jornalismo brasileiro. Uma vez, ele escreveu: “Nossa imprensa: previsível, empolada, chata: como é chata, meu Deus...”. Em cem por cento dos casos, o que Francis escrevia escapava da chatice generalizada. Francis vivia reclamando de que era preciso criar no Brasil uma tradição: a de uma “prosa clara e instruída”. É o que há em outras culturas: a tradição de uma prosa clara e instruída, uma atividade que, no Brasil, tinha poucos cultores. Aqui, pensam que escrever difícil é escrever bem. Ledíssimo engano.
A contribuição que Paulo Francis deu para a criação de uma prosa jornalística “clara e instruída” ainda não foi devidamente avaliada. Onde é que estão os acadêmicos – que não tratam de demonstrar “cientificamente” esta herança ? É uma tarefa facílima. Ninguém precisava concordar com uma vírgula do que ele dizia. O importante é como ele dizia.
Livros como “O Afeto Que se Encerra” e “Trinta Anos Esta Noite” deveriam ser leitura obrigatória nas escolas de jornalismo – pela clareza cristalina, pela fluência absoluta, pelo ritmo agradabilíssimo do texto. É o que vale.
O nome de Francis voltou às páginas neste ano da graça de 2008 com o lançamento de um romance inédito que ele deixou, “Carne Viva”. É um presente para os fãs do auto-declarado “lobo hidrófobo” ( Uma vez, perguntei a ele como é que ele – que, quando criança, alegadamente exibia um ar de cão hidrófobo – se definiria na maturidade. Francis respondeu: “Que tal lobo hidrófobo” ? )
Publicado pelo selo Francis da Editora Landscape, este bem-vindo sinal de vida de Paulo Francis acaba de chegar às boas casas do ramo. Resenhistas já notaram que, quando personagens do romance abrem a boca para falar do estado geral das coisas, parece que é o próprio Francis quem fala. A “confusão” poderia parecer um defeito do romance. Mas eu diria que é uma virtude. Ainda bem que é possível ler de novo o que parece ser a voz de Francis. Há trechos do livro que – felizmente – parecem tirados da coluna fantástica que Francis publicou durante anos e anos na imprensa.
Trechos de “Carne Viva” :
“Em que mundo vive essa gente ? Numa fantasia de fraternidade, que se fosse levada a sério voltaríamos todos à lavoura, ao arado, à carroça de bois. Cobiça é o que faz o mundo girar. Quando a cobiça é saciada, e nunca o é completamente, pessoas como Sua Exa. E your obedient servant investem em empregos, filantropia e arte”
“Tinha ido a algumas noites de autógrafos de personalidades que Temístocles queria agradar,como políticos, autores de memórias, e ficava na fila conversando e, discretamente, namorando, se valesse a pena. Perguntou a um diplomata e escritor, Gilberto Amado, se um livro, pelo qual estavam esperando o jamegão do autor, iria vender. Ele sorriu e disse que “venderia o que vender aqui”, uns quase duzentos exemplares. O resto seria dado”.
“Chega de falar mal do Brasil. Não há países, nações. Há ambientes, pessoas, a maneira que nos conduzimos com nossos amigos, parentes e relações. Se formos uma pessoa de bem, e só o bem é radical, como escreveu Hannah Arendt, não há por que não levar uma vida boa, enquanto tivermos saúde e não deixarmos que nossa vontade seja violada ou espatifada”.
16 de julho de 2008
JOVEM, ALISTE-SE NA GRANDE GUERRA CONTRA O NADO SINCRONIZADO!
Devo dizer que discordo.
O ataque não esteve à altura da enormidade do horror que é o nado sincronizado, uma modalidade esportiva incrivelmente admitida nos jogos olímpicos.
Se houvesse justiça no planeta, não apenas os praticantes mas, especialmente, os espectadores do nado sincronizado deveriam ser objeto de asco, pena e desprezo perpétuos por parte de todos os viventes.
O aviso fica dado: todos alertas! As Olimpíadas vêm aí! Protejam as crianças! Cuidado com o nado sincronizado : não deixem que elas sejam surpreendidas pelo espetáculo dantesco daqueles pezinhos se movendo ridiculamente na superfície da água!
12 de julho de 2008
SOCORRO ! OS PEZINHOS DO NADO SINCRONIZADO VÊM AÍ!
Motivo: as Olimpíadas vêm aí. Com elas, duas desgraças que assolam nossos olhos e ouvidos de quatro em quatro anos: o festival de subliteratura que jorra dos vídeos e dos páginas em reportagens sobre "superação". Haja textinho pauperriminho descrevendo a saguinha de menininho pobrinho que andava cinquentinha quilômetros para treinar para a maratona. Como diria Jaqueline Kennedy ao recolher os miolos do marido estilhaçados pelas balas de Lee Oswald em Dallas: "Oh, no!".
O mais assustador : o espetáculo do nado sincronizado. Ah, Nossa Senhora do Espanho: o que é que faz seres bípedes, mamíferos, supostamente cerebrados, ficarem de cabeça para baixo dentro de uma piscina enquanto movem os pés sincronicamente diante dos olhos atônitos do planeta ?
Se crianças inocentes e desprevenidas pousarem os olhos na TV justamente neste momento, o que é que pensarão sobre a espécie humana ? Por que fazê-las carregar , pelo resto de seus dias, traumas de que jamais se livrarão ? Quantos mil reais os pais terão de gastar, depois, com psicólogos que serão convocados para a vã tarefa de trazê-las de volta à sanidade ? O prejuízo, para os cofres privados e também para os públicos, é "inestimável".
Os riscos a que se expõem os espectadores das competições de nado sincronizado são,portanto, gravíssimos.
Prefiro um bom filme do velho e infalível Fred Kruger.
É mais divertido.
E menos assustador.
Pior do que assistir a um espetáculo de nado sincronizado, só há uma cena : ver um jornalista pontificando sobre o que é que interessa e o que é que não interessa ao distinto público.
É triste mas é de matar de rir.
Eu mesmo dou dez voltas na tumba, a cada vez que testemunho uma cena dessas.
A vida pode ser engraçada. Quem disse que não ?
10 de julho de 2008
PERGUNTAS, CONSIDERAÇÕES E APELOS NUM DIA DE SOL MORNO
2. Pode existir, sob o sol do Brasil, assunto mais chato do que essas discussões infindáveis sobre se Capitu traiu ou não traiu Bentinho ? Não pode. "Se vivo estivesse", Machado de Assis certamente exalaria um suspiro de tédio diante dessas contendas inúteis. Aliás, por que diabos chamam Machado de Assis de "Bruxo" ? Isso é coisa de jornalista desocupado ( ou um deslize de Carlos Drummond, autor de um poema em que recorre ao título maldito ao falar de Machado de Assis)
A esse respeito, louve-se a atitude de Augusto Nunes: não faz tempo, ele notou, no Jornal do Brasil, que jamais, em tempo algum, os moradores dos estados banhados pelo São Francisco chamaram o rio de "Velho Chico". Mas é inevitável: o rio será sempre chamado de "Velho Chico" naquelas reportagens em geral publicadas nas chatíssimas edições dominicais dos nossos jornalões. Alguém já imaginou um morador "ribeirinho" dizendo: "Vou ali tomar um banho no Velho Chico. Volto já! ". Não. É inimaginável.
"Velho Chico" ? "Bruxo do Cosme Velho" ? Trocadilhinhos na TV ? Ah, não.
Rendo-me de uma vez por todas à crença de que não há remédio para a humanidade.
Primeiro, eu desconfiava. Olhava de soslaio para a espécie humana e ruminava: "São todos patéticos - inclusive eu, é claro".
Hoje, a desconfiança evoluiu para uma certeza pétrea, irremovível, irrevogável: tudo não passa de um circo sem sentido, somos todos ridiculamente patéticos, chamamos Machado de Assis de "Bruxo do Cosme Velho" e o Rio São Francisco de "Velho Chico" - e fica o dito pelo não dito. Nenhum raio cai sobre nossa cabeça, nenhuma bomba de hidrogêneo desaba sobre nossas carcaças para animar a festa.
É assim. Sempre foi. Mas, como contrapeso a esse infindável somatório de equívocos, fica o registro de que Luiza Brunet, com todo respeito, continua bonita. E gostosa.