O crítico literário é o único bípede autotrófico de óculos de que se tem notícia: alimenta-se do próprio ego. Seu habitat artificial são as mesas de discussão, as noites de autógrafo e outros ambientes inóspitos. Tem o corpo dividido em língua, tronco e membros.
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16 de novembro de 2007
GALA RALA
A revista British Journal of Medicine divulgou que o estado dos espermatozóides dos europeus deixa muito a desejar. Um estudo feito com amostras de esperma de milhares de habitantes do Velho Continente revela que não só existem menos gâmetas masculinos - a redução é já de metade (de 113 milhões por litro passou-se para 66 milhões), como a sua qualidade tem vindo a piorar, com resultados visíveis nas taxas de infertilidade.
14 de novembro de 2007
DICA DE LEITURA: "AFINAL, O QUE VIEMOS FAZER EM PARIS ?" ACABA DE CHEGAR ÀS LIVRARIAS
Acaba de sair do forno uma delícia de livro. Título: "Afinal, o que Viemos Fazer em Paris ?". Autor: Alberto Villas. Editora: Globo. Para quem não ligou o autor à obra: Alberto Villas, jornalista, revelou-se um memorialista "de mão-cheia" em "O Mundo Acabou". Ali, ele mistura memória pessoal com memória social com talento, leveza, humor - e competência.
Agora, em "Afinal, o Que Viemos Fazer em Paris", ele parte para uma nova empreitada memorialística sobre um período riquíssimo que viveu: um exílio voluntário em Paris, a partir do início dos anos setenta, época em que os militares diziam para o Brasil o que o Rei da Espanha disse para o presidente da Venezuela outro dia: "Por que não te calas ?".
O projeto gráfico do livro é um show. Os textos, divididos em blocos, fluem sem atropelo. Bom livro, afinal de contas, é o que dá prazer de ler. "Afinal, o que Viemos Fazer em Paris? " dá. É o que basta. Comecei a ler. Não dá vontade de parar.
O livro funciona como uma "madeleine", aquele gatilho que desperta imediatamente uma fileira de lembranças. Em um minuto, volto no tempo para 1980, ano em que o locutor que vos fala embarcou, também em "exílio" voluntário, rumo a Paris.
Eu me lembro do primeiro choque térmico e cultural: um amigo - que morava com a namorada australiana no terceiro andar de um prédio em ruínas desprovido de chuveiro num ruela sem movimento - organizava, uma vez por semana, uma "expedição" rumo aos chuveiros públicos. Íamos a pé. Cada um levava uma toalha, o sabonete, o desodorante e uma muda de roupa embrulhados num saco plástico. Lá, em troca de um punhado de francos, o forasteiro podia tomar banho cronometrado: dez minutos depois de ligado o chuveiro, o fiscal batia na porta para avisar que chega, a fila estava grande, era preciso dar lugar ao africano que esperava a hora de mergulhar na ducha.
Eu me lembro de Manoel, um brasileiro que passava doze horas por dia trancado num quarto insalubre de hotel tocando num fagote as Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. Uma vez, ele bateu na porta do meu quarto de madrugada para avisar que conseguira o grande feito: tinha finalmente descoberto como fazer os telefones públicos da Place D´Italie ligarem de graça para o Brasil. Corremos para as cabines telefônicas na madrugada gelada. Passamos seis horas usando o orelhão. Só saímos quando o dia amanhecia. Merci bien, France Telecom! Deus te pague! Um brasileiro descarado ainda tentava teorizar sobre o absurdo que cometíamos nas cabines telefônicas : "Os países ricos vivem explorando o Terceiro Mundo. É hora de a gente receber alguma coisa de volta!".
Eu me lembro de ter visto Bob Dylan cantando "Like a Rolling Stone" num estádio enquanto um grupo de holandeses incendiava os pulmões de haxixe a um passo de onde eu estava, no meio do gramado, assustado com a desfaçatez. A polícia não notou a fumaça dos holandeses. Gravei imagens mudas e tremidas de Bob Dylan com uma câmera Super-8. Nunca as usei para nada.
Eu me lembro de ter visto Pelé dando a volta olímpica no estádio para agradecer o título de Atleta do Século, antes de um jogo da seleção brasileira contra a da França. O Brasil ganhou.
Eu me lembro de ter testemunhado a aparição de um Glauber Rocha com rosto inchado e cara de sono, numa sala de cinema perto da Gare de Lyon, para uma sessão privê de A Idade da Terra, numa manhã de sábado de inverno.
Eu me lembro de ter olhado com algum deslumbramento para o festival de pichações políticas nas paredes da Universidade de Nanterre, no meu primeiro dia de aula de um curso de Cinema que jamais concluí. Uma das pichações mais visíveis convocava: "Aliste-se no Partido Comunista!". Naquela época, o Partido Comunista ainda era clandestino no Brasil. Eu nunca tinha visto algo assim numa universidade brasileira. Pensei: "Democracia!".
Eu me lembro de um brasileiro que não sabia quase nada de francês comentando, espantado, que nunca tinha visto tanta escola de garçom como em Paris. "Não é à toa que os restaurantes franceses são tão badalados. Com tanta escola de garçom desse jeito...". O brasileiro só não sabia que aquilo era Escola para Meninos ( "garçons", em francês). Nada a ver com garçom de restaurante.
Eu me lembro de ter arranjado dois empregos, ambos, claro, clandestinos: o primeiro como camareiro de um hotel numa rua chamada Champollion, ao lado da Sorbonne, no coração do Quartier Latin. Era duro fazer vinte e seis camas nos dias azuis de verão, em que o hotel ficava lotado de americanos e japoneses que comiam pão nos quartos e, para meu desespero, espalhavam farelo pelo carpete, o que exigia um trabalho extra com o aspirador de pé.Uma semana depois de me aceitar como camareiro, o dono de hotel, um homem chamado Ortega, fez uma confissão inconfessável: disse-me que, se o hóspede só passasse uma noite no hotel, eu não deveria trocar o lençol da cama. Bastava inverter o lado do lençol, esticá-lo ao máximo para dar ao próximo hóspede a impressão de limpeza e pronto. O dono queria economizar energia da máquina de lavar. O segundo emprego foi como motorista de uma família rica que tinha um filho "excepcional", Douglas. Já era um rapaz. Não falava nem andava. Meu trabalho era embrulhar Douglas num saco de dormir para protegê-lo do frio, carregá-lo nos braços dentro de um elevador minúsculo e levá-lo de carro até a um hospital que ficava a uns quarenta minutos de Paris. A rua em que a família morava se chamava Yvette. O metrô: Jasmin. Nem carteira de motorista internacional eu tinha. Só a brasileira - que não valia na França. Um dia, a polícia se aproximou do carro. Gelei até a alma. Mas, quando viram o menino, os guardas se retiraram, sem nos importunar. Intimamente, eu vibrava: "Deus é brasileiro!". Se um guarda cismasse de me pedir a carteira de motorista, era problema na certa.
Eu me lembro de ter visto um bêbado anunciando, sozinho, para os frequentadores de um café, perto do Boulevard Saint Michel : "O grande ator americano Steve McQueen morreu!". O bêbado tinha acabado de ler a notícia num jornal. Eram sete da manhã. Eu estava lá para tomar um café apressado, porque pouco depois teria de me apresentar à "Prefeitura de Polícia" para tentar renovar meu visto. Fiquei lembrando das velhas sessões no Cinema da Torre,no Recife: a platéia batia palmas a cada vez que Steve McQueen escapava de soldados nazistas.O filme se chamava "Fugindo do Inferno". Agora, um bêbado me dava a notícia de que o meu ídolo das matinês estava morto.
Agora, em "Afinal, o Que Viemos Fazer em Paris", ele parte para uma nova empreitada memorialística sobre um período riquíssimo que viveu: um exílio voluntário em Paris, a partir do início dos anos setenta, época em que os militares diziam para o Brasil o que o Rei da Espanha disse para o presidente da Venezuela outro dia: "Por que não te calas ?".
O projeto gráfico do livro é um show. Os textos, divididos em blocos, fluem sem atropelo. Bom livro, afinal de contas, é o que dá prazer de ler. "Afinal, o que Viemos Fazer em Paris? " dá. É o que basta. Comecei a ler. Não dá vontade de parar.
O livro funciona como uma "madeleine", aquele gatilho que desperta imediatamente uma fileira de lembranças. Em um minuto, volto no tempo para 1980, ano em que o locutor que vos fala embarcou, também em "exílio" voluntário, rumo a Paris.
Eu me lembro do primeiro choque térmico e cultural: um amigo - que morava com a namorada australiana no terceiro andar de um prédio em ruínas desprovido de chuveiro num ruela sem movimento - organizava, uma vez por semana, uma "expedição" rumo aos chuveiros públicos. Íamos a pé. Cada um levava uma toalha, o sabonete, o desodorante e uma muda de roupa embrulhados num saco plástico. Lá, em troca de um punhado de francos, o forasteiro podia tomar banho cronometrado: dez minutos depois de ligado o chuveiro, o fiscal batia na porta para avisar que chega, a fila estava grande, era preciso dar lugar ao africano que esperava a hora de mergulhar na ducha.
Eu me lembro de Manoel, um brasileiro que passava doze horas por dia trancado num quarto insalubre de hotel tocando num fagote as Bachianas Brasileiras de Villa-Lobos. Uma vez, ele bateu na porta do meu quarto de madrugada para avisar que conseguira o grande feito: tinha finalmente descoberto como fazer os telefones públicos da Place D´Italie ligarem de graça para o Brasil. Corremos para as cabines telefônicas na madrugada gelada. Passamos seis horas usando o orelhão. Só saímos quando o dia amanhecia. Merci bien, France Telecom! Deus te pague! Um brasileiro descarado ainda tentava teorizar sobre o absurdo que cometíamos nas cabines telefônicas : "Os países ricos vivem explorando o Terceiro Mundo. É hora de a gente receber alguma coisa de volta!".
Eu me lembro de ter visto Bob Dylan cantando "Like a Rolling Stone" num estádio enquanto um grupo de holandeses incendiava os pulmões de haxixe a um passo de onde eu estava, no meio do gramado, assustado com a desfaçatez. A polícia não notou a fumaça dos holandeses. Gravei imagens mudas e tremidas de Bob Dylan com uma câmera Super-8. Nunca as usei para nada.
Eu me lembro de ter visto Pelé dando a volta olímpica no estádio para agradecer o título de Atleta do Século, antes de um jogo da seleção brasileira contra a da França. O Brasil ganhou.
Eu me lembro de ter testemunhado a aparição de um Glauber Rocha com rosto inchado e cara de sono, numa sala de cinema perto da Gare de Lyon, para uma sessão privê de A Idade da Terra, numa manhã de sábado de inverno.
Eu me lembro de ter olhado com algum deslumbramento para o festival de pichações políticas nas paredes da Universidade de Nanterre, no meu primeiro dia de aula de um curso de Cinema que jamais concluí. Uma das pichações mais visíveis convocava: "Aliste-se no Partido Comunista!". Naquela época, o Partido Comunista ainda era clandestino no Brasil. Eu nunca tinha visto algo assim numa universidade brasileira. Pensei: "Democracia!".
Eu me lembro de um brasileiro que não sabia quase nada de francês comentando, espantado, que nunca tinha visto tanta escola de garçom como em Paris. "Não é à toa que os restaurantes franceses são tão badalados. Com tanta escola de garçom desse jeito...". O brasileiro só não sabia que aquilo era Escola para Meninos ( "garçons", em francês). Nada a ver com garçom de restaurante.
Eu me lembro de ter arranjado dois empregos, ambos, claro, clandestinos: o primeiro como camareiro de um hotel numa rua chamada Champollion, ao lado da Sorbonne, no coração do Quartier Latin. Era duro fazer vinte e seis camas nos dias azuis de verão, em que o hotel ficava lotado de americanos e japoneses que comiam pão nos quartos e, para meu desespero, espalhavam farelo pelo carpete, o que exigia um trabalho extra com o aspirador de pé.Uma semana depois de me aceitar como camareiro, o dono de hotel, um homem chamado Ortega, fez uma confissão inconfessável: disse-me que, se o hóspede só passasse uma noite no hotel, eu não deveria trocar o lençol da cama. Bastava inverter o lado do lençol, esticá-lo ao máximo para dar ao próximo hóspede a impressão de limpeza e pronto. O dono queria economizar energia da máquina de lavar. O segundo emprego foi como motorista de uma família rica que tinha um filho "excepcional", Douglas. Já era um rapaz. Não falava nem andava. Meu trabalho era embrulhar Douglas num saco de dormir para protegê-lo do frio, carregá-lo nos braços dentro de um elevador minúsculo e levá-lo de carro até a um hospital que ficava a uns quarenta minutos de Paris. A rua em que a família morava se chamava Yvette. O metrô: Jasmin. Nem carteira de motorista internacional eu tinha. Só a brasileira - que não valia na França. Um dia, a polícia se aproximou do carro. Gelei até a alma. Mas, quando viram o menino, os guardas se retiraram, sem nos importunar. Intimamente, eu vibrava: "Deus é brasileiro!". Se um guarda cismasse de me pedir a carteira de motorista, era problema na certa.
Eu me lembro de ter visto um bêbado anunciando, sozinho, para os frequentadores de um café, perto do Boulevard Saint Michel : "O grande ator americano Steve McQueen morreu!". O bêbado tinha acabado de ler a notícia num jornal. Eram sete da manhã. Eu estava lá para tomar um café apressado, porque pouco depois teria de me apresentar à "Prefeitura de Polícia" para tentar renovar meu visto. Fiquei lembrando das velhas sessões no Cinema da Torre,no Recife: a platéia batia palmas a cada vez que Steve McQueen escapava de soldados nazistas.O filme se chamava "Fugindo do Inferno". Agora, um bêbado me dava a notícia de que o meu ídolo das matinês estava morto.
O café estava mergulhado em fumaça. Lá fora, fazia um frio de rachar. Era novembro, se não engano.
Eu sabia o que estava fazendo em Paris: sem imaginar, tinha viajado doze horas de avião para, meses depois, ouvir um bêbado me dizer que Steven McQueen tinha morrido. C´est la vie.
O que é que o livro "Afinal,o que Viemos Fazer em Paris? " tem a ver com essas cenas todas ?
Tudo e nada. Livro bom é o que acende um rastilho de lembranças. É o que a nova investida memorialística de Villas acaba de fazer.
Bola na rede.
UM NOVO ESPORTE OLÍMPICO PODE ESTAR NASCENDO!
"Como qualquer head shrinker recomendaria, tenho resolvido de maneira criativa uma das minhas grandes pequenas irritações. Sabem aquelas gentes que, logo após descer pela escada rolante, ficam paradas na frente, ponderando o Grande Mistério da Existência, de costas para a legião de pessoas que vem descendo? Sim, vocês sabem -e certamente já se esgueiraram por aquela ínfima fresta entre o imbecil parado no final da escada (identificado, deste ponto em diante, pela sigla IPFE) e o corrimão rolante, para evitar um desastroso efeito dominó de grandes proporções.
Para evitar isso, concebi um novo esporte, saudável e divertido, que consiste em: a) aprender a identificar um IPFE em segundos, tão logo ele se poste à sua frente na escada rolante; b) descer a escada com a perna esquerda reta e a direita flexionada num ângulo de no mínimo 45 graus, de modo a aterrissar com o pé exatamente no meio das costas do IPFE. O efeito plástico é coisa linda de ver, digna de filme do Bruce Lee -e, modestamente, estou ficando tão bom nesse negócio que outro dia, num desses xópins, fiz strike numa família inteira de IPFEs. Em verdade vos digo: se em 2028 isso virar esporte olímpico, não terei vivido em vão"
(aqui: http://puragoiaba.apostos.com/)
Para evitar isso, concebi um novo esporte, saudável e divertido, que consiste em: a) aprender a identificar um IPFE em segundos, tão logo ele se poste à sua frente na escada rolante; b) descer a escada com a perna esquerda reta e a direita flexionada num ângulo de no mínimo 45 graus, de modo a aterrissar com o pé exatamente no meio das costas do IPFE. O efeito plástico é coisa linda de ver, digna de filme do Bruce Lee -e, modestamente, estou ficando tão bom nesse negócio que outro dia, num desses xópins, fiz strike numa família inteira de IPFEs. Em verdade vos digo: se em 2028 isso virar esporte olímpico, não terei vivido em vão"
(aqui: http://puragoiaba.apostos.com/)
13 de novembro de 2007
INFORMAÇÃO MÉDICA SOBRE MEIO SÉCULO DE CIGARRO NA BOCA
Ivan Lessa:
"Em novembro de 2001, parei de fumar, após uns bons (ou maus) 50 anos, de cigarrinho no canto da boca"
(aqui: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/11/071112_ivanlessa_tp.shtml)
"Em novembro de 2001, parei de fumar, após uns bons (ou maus) 50 anos, de cigarrinho no canto da boca"
(aqui: http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2007/11/071112_ivanlessa_tp.shtml)
"ERA FÁCIL E BOM SER MEDÍOCRE"
Do site de Paulo Polzonoff:
"Naquele tempo havia ídolos. Simplesmente porque os ídolos são peça fundamental do delicioso mundo medíocre. Em Pasárgada morarão Marisa Monte e Geraldo Vandré. Ao lado há a casinha dos poetas: Manuel Bandeira afaga um porquinho da índia; Drummond admira as pedras no meio do caminho; Vinícius tem seus versos declamados eternamente por Camila Morgado; Quintana passa o dia entre o passarão e o passarinho. Todos eles fazem parte de um bairro todo especial deste lugar onde moram todos os ídolos das multidões.
Não pense que os condeno. Sou sincero: sinto saudades. Era fácil e bom ser medíocre"
(aqui: http://www.polzonoff.com.br/simplicidade-mediocridade-felicidade.htm)
"Naquele tempo havia ídolos. Simplesmente porque os ídolos são peça fundamental do delicioso mundo medíocre. Em Pasárgada morarão Marisa Monte e Geraldo Vandré. Ao lado há a casinha dos poetas: Manuel Bandeira afaga um porquinho da índia; Drummond admira as pedras no meio do caminho; Vinícius tem seus versos declamados eternamente por Camila Morgado; Quintana passa o dia entre o passarão e o passarinho. Todos eles fazem parte de um bairro todo especial deste lugar onde moram todos os ídolos das multidões.
Não pense que os condeno. Sou sincero: sinto saudades. Era fácil e bom ser medíocre"
(aqui: http://www.polzonoff.com.br/simplicidade-mediocridade-felicidade.htm)
12 de novembro de 2007
ENGANAÇÃO
No último round, vimos Heráclito chamar o célebre Pitágoras de erudito sem inteligência. Aprender muitas coisas, advertiu, não dá inteligência a ninguém. Ocorre que nenhum grego praticara a investigação científica tanto quanto Pitágoras, que, tendo lido muito e de grandes sábios, reclamou para si mesmo sabedoria maior que a de qualquer um. Quem conta a história é o próprio Heráclito, para quem essa sabedoria não passava de... fraude.
PERGUNTA FEITA AO HADES
Quantos quilos de Will Self, Brad Buchanan, Don DeLillo, Pat Barker, Tim O’Brian, Kazuo Ishiguro, Philip Roth e congêneres valem um hexâmetro de Ovídio?
(Mais, aqui)
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REMUNERA-SE BEM
Sumiu desta redação há alguns dias o jornalista Tony Marques. Quem tiver alguma informação que ajude a encontrá-lo, por favor, pedimos que se cale. Remunera-se bem.
BOLSA-LIVRO
Segundo Polzonoff, o governo do Chile tem um programa de fornecimento gratuito de livros para seus cidadãos. Proponho medida semelhante aos comentaristas do SDT. Distribuiremos àqueles que vierem à redação, livros de autores anônimos ou sem sobrenome. Permitiremos o uso de máscaras.
NO ÔNIBUS
-- Expõe o analfabetismo funcional dele por aí.
-- Como assim?
-- Lê textos, não entende e comenta.
-- Uhm. E não tem vergonha?
-- Não, faz isso anonimamente.
-- Como assim?
-- Lê textos, não entende e comenta.
-- Uhm. E não tem vergonha?
-- Não, faz isso anonimamente.
DEMOCRACIA
Sexta-feira assisti à entrevista de Arnaldo Jabor no Jô Soares. Sim, às vezes também assisto ao Amaury Jr., caros leitores. E não perco o Roda Viva. Trata-se de um ato sagrado para mim: a autoflagelação.
Jabor comunga com Caetano Veloso de uma característica ímpar, que sempre me impressionou: ambos são capazes de dizer algo absolutamente genial num instante e, no seguinte, a maior idiotice jamais ouvida. Talvez o fato se relacione aos hemisférios cerebrais. No caso de Jabor, claro, pois, como se sabe, o baiano nasceu desprovido deles.
Na entrevista de que falo, Jabor estava muito agradável e teve um gesto dos mais dignos quando disse não ter opinião formada sobre a obrigatoriedade do imposto sindical. “Não sei”, falou, coisa que jamais escutei na televisão, lugar por excelência de gênios conhecedores de Tudo, a Enciclopédia do Conhecimento.
(Aliás, o próprio Jabor faz parte de um fenômeno cultural mais amplo e bastante disseminado atualmente na imprensa. Na Renascença e na Antiguidade, a polimatia era regra entre sábios. A modernidade trouxe a figura do cientista especializado no seu ramo científico. A pós-modernidade, por sua vez, estimula a polidoxia: o sujeito é especialista em tudo, ainda que não saiba de nada.)
A dada altura da entrevista, o comentarista político soltou uma daquelas inverdades que, de tão repetidas, acabam perdendo o prefixo: o governo FHC enfrentou ferrenha oposição do PT, enquanto a oposição ao atual governo é pífia.
Minha memória não é boa, caros... caros... Enfim, minha memória não é boa, mas eu me lembro, por acaso, de que foi no período FHC que se cunhou a expressão “rolo compressor do governo” para a aprovação pura e simples das matérias de interesse do Planalto no Congresso. Afinal, a base governista contava nada menos que com os três maiores partidos da Casa. Podia aprovar o que bem queria, inclusive enterrar uma série de CPIs.
Por outro lado, o PT não tinha o tamanho que tem hoje. Fazia barulho, mas o resultado prático de sua oposição era praticamente nulo. A não ser em matérias de interesse do governo que se encontravam mais à esquerda no espectro ideológico e não encontravam eco na base aliada, o governo não era forçado a conversar com a oposição.
No governo FHC se aprovou pelo menos uma aberração política e jurídica: a reeleição para beneficiar políticos no exercício do cargo, coisa que até o faxineiro do Congresso sabe inconstitucional. Isso, para não se falar na suposta compra de votos para aprová-la. Suposta, claro, pois não houve CPI. Tampouco o assunto foi aprofundado pela mídia.
A mídia, em tempos de democracia, talvez nunca tenha sido tão condescendente com um governante. FHC encantava os jornalistas. Um ou outro colunista, sim, descia a lenha no Príncipe. Nos artigos de opinião, permitia-se. Nas matérias, no entanto... Basta dizer que até hoje é tabu nas redações um simples caso extraconjugal que FHC teve com uma jornalista.
Ora, alguém é tão ingênuo a ponto de achar que mensalão ou coisa que o valha é obra deste governo? O que este governo tem de diferente do de FHC, além do pouco domínio do idioma, é justamente aquele que talvez seja seu único mérito: é investigado. Exaustivamente investigado. Pelo Congresso, pela mídia.
A partir de matérias aprofundadas, por exemplo, a imprensa transformou a denúncia inicial de Roberto Jefferson em um escândalo sem precedentes. Sem precedentes, porque jornais e revistas fizeram seu papel: investigaram, denunciaram, aproveitaram-se do operoso trabalho parlamentar, que conseguiu criar uma CPI.
Aliás, neste governo foram criadas várias. No governo FHC, a impressão é de que nada se investigava: nem o Congresso, nem a imprensa, nem o Ministério Público. O Procurador-Geral da República então tinha a alcunha de “engavetador-geral”. Ou a memória de vocês é pior do que a minha?
Paremos, portanto, de repetir tolices — não é preciso, o atual presidente já as diz em abundância — e sejamos honestos: apesar do PT e a despeito da inoperância, o governo petista é garantia, ao menos, de que nem toda a sujeira endêmica que atravanca o país há séculos será empurrada para debaixo do tapete. Ainda que isso independa de sua vontade, claro.
(Comentários sobre como esta postagem é petista ou direitista, por favor, encaminhem ao nosso editor.)
Jabor comunga com Caetano Veloso de uma característica ímpar, que sempre me impressionou: ambos são capazes de dizer algo absolutamente genial num instante e, no seguinte, a maior idiotice jamais ouvida. Talvez o fato se relacione aos hemisférios cerebrais. No caso de Jabor, claro, pois, como se sabe, o baiano nasceu desprovido deles.
Na entrevista de que falo, Jabor estava muito agradável e teve um gesto dos mais dignos quando disse não ter opinião formada sobre a obrigatoriedade do imposto sindical. “Não sei”, falou, coisa que jamais escutei na televisão, lugar por excelência de gênios conhecedores de Tudo, a Enciclopédia do Conhecimento.
(Aliás, o próprio Jabor faz parte de um fenômeno cultural mais amplo e bastante disseminado atualmente na imprensa. Na Renascença e na Antiguidade, a polimatia era regra entre sábios. A modernidade trouxe a figura do cientista especializado no seu ramo científico. A pós-modernidade, por sua vez, estimula a polidoxia: o sujeito é especialista em tudo, ainda que não saiba de nada.)
A dada altura da entrevista, o comentarista político soltou uma daquelas inverdades que, de tão repetidas, acabam perdendo o prefixo: o governo FHC enfrentou ferrenha oposição do PT, enquanto a oposição ao atual governo é pífia.
Minha memória não é boa, caros... caros... Enfim, minha memória não é boa, mas eu me lembro, por acaso, de que foi no período FHC que se cunhou a expressão “rolo compressor do governo” para a aprovação pura e simples das matérias de interesse do Planalto no Congresso. Afinal, a base governista contava nada menos que com os três maiores partidos da Casa. Podia aprovar o que bem queria, inclusive enterrar uma série de CPIs.
Por outro lado, o PT não tinha o tamanho que tem hoje. Fazia barulho, mas o resultado prático de sua oposição era praticamente nulo. A não ser em matérias de interesse do governo que se encontravam mais à esquerda no espectro ideológico e não encontravam eco na base aliada, o governo não era forçado a conversar com a oposição.
No governo FHC se aprovou pelo menos uma aberração política e jurídica: a reeleição para beneficiar políticos no exercício do cargo, coisa que até o faxineiro do Congresso sabe inconstitucional. Isso, para não se falar na suposta compra de votos para aprová-la. Suposta, claro, pois não houve CPI. Tampouco o assunto foi aprofundado pela mídia.
A mídia, em tempos de democracia, talvez nunca tenha sido tão condescendente com um governante. FHC encantava os jornalistas. Um ou outro colunista, sim, descia a lenha no Príncipe. Nos artigos de opinião, permitia-se. Nas matérias, no entanto... Basta dizer que até hoje é tabu nas redações um simples caso extraconjugal que FHC teve com uma jornalista.
Ora, alguém é tão ingênuo a ponto de achar que mensalão ou coisa que o valha é obra deste governo? O que este governo tem de diferente do de FHC, além do pouco domínio do idioma, é justamente aquele que talvez seja seu único mérito: é investigado. Exaustivamente investigado. Pelo Congresso, pela mídia.
A partir de matérias aprofundadas, por exemplo, a imprensa transformou a denúncia inicial de Roberto Jefferson em um escândalo sem precedentes. Sem precedentes, porque jornais e revistas fizeram seu papel: investigaram, denunciaram, aproveitaram-se do operoso trabalho parlamentar, que conseguiu criar uma CPI.
Aliás, neste governo foram criadas várias. No governo FHC, a impressão é de que nada se investigava: nem o Congresso, nem a imprensa, nem o Ministério Público. O Procurador-Geral da República então tinha a alcunha de “engavetador-geral”. Ou a memória de vocês é pior do que a minha?
Paremos, portanto, de repetir tolices — não é preciso, o atual presidente já as diz em abundância — e sejamos honestos: apesar do PT e a despeito da inoperância, o governo petista é garantia, ao menos, de que nem toda a sujeira endêmica que atravanca o país há séculos será empurrada para debaixo do tapete. Ainda que isso independa de sua vontade, claro.
(Comentários sobre como esta postagem é petista ou direitista, por favor, encaminhem ao nosso editor.)
LITERATURA NOVA
Para agradar a amigos que reclamam da minha neofobia literária, resolvi comprar os últimos romances publicados. E confesso que gostei. Aliás, não foi surpresa. Sempre fui fã da literatura do século XIX.
(Mais, aqui)
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10 de novembro de 2007
CRISE SEM PRECEDENTES NA PUBLICIDADE BRASILEIRA
O Sopa de Tamanco já escreveu que a publicidade brasileira enfrenta uma crise sem precedentes - que se arrasta por anos e anos. Parece exagero. Não é não.
É só ligar a TV, abrir os jornais ou passar os olhos nos anúncios das revistas.
Um anúncio do jornal o Estado de S.Paulo, publicado faz anos, trazia uma vírgula entre sujeito e verbo, erro inadmissível em redatores que, com certeza, se julgam gênios. O texto dizia algo como "e o Estadão, continua....".
Tempos depois, a agência que atende ao mesmíssimo Estado de S.Paulo lança um dos slogans mais idiotas de todos os tempos - aquele que elogia quem "pensa Ão". É o tipo da tentativa fracassadíssima e pouco inspirada de criar um bordão. Mas somente idiotas seriam capazes de dizer coisas como :"Vou ler um livro de fulano. Deve ser bom, porque ele pensa Ão".
Ah, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, rogai por nós todos.
O que dizer dos anúncios dessas campanhas de cervejas ? O que é o "Bar da Boa"? Que coisa estúpida, falsa e artificialíssima! E o "Zeca-Feira" ? Eis outra tentativa de criar um bordão que nem o mais rematado dos idiotas seria capaz de repetir.
Agora, as revistas semanais expõem um anúncio de página dupla da fábrica de automóveis Toyota.
O texto do anúncio, publicado em espaço nobilíssimo da revista Veja dessa semana :"Determinação é encarar os obstáculos de frente"
Encarar de frente!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Há alguma outra maneira de encarar qualquer coisa - que não seja de frente ?
O Dicionário Aurélio informa : "encarar: olhar de frente".
Custava tanto o redator dar uma checada no Nosso Pai, o dicionário?
Qualquer aluno de primeiro grau que escrevesse algo como "encarar de frente" seria repreendido pela professorinha.
Quantos mil dólares a agência terá cobrado para conceber frase tão brilhante ?
O princípio se aplica aos anúncios de cerveja, à campanha do jornal etc.etc.
O pior é que há quem pague por estes anúncios.
Quem disse que nasce um otário a cada minuto no planeta nunca teve tanta razão.
É só ligar a TV, abrir os jornais ou passar os olhos nos anúncios das revistas.
Um anúncio do jornal o Estado de S.Paulo, publicado faz anos, trazia uma vírgula entre sujeito e verbo, erro inadmissível em redatores que, com certeza, se julgam gênios. O texto dizia algo como "e o Estadão, continua....".
Tempos depois, a agência que atende ao mesmíssimo Estado de S.Paulo lança um dos slogans mais idiotas de todos os tempos - aquele que elogia quem "pensa Ão". É o tipo da tentativa fracassadíssima e pouco inspirada de criar um bordão. Mas somente idiotas seriam capazes de dizer coisas como :"Vou ler um livro de fulano. Deve ser bom, porque ele pensa Ão".
Ah, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, rogai por nós todos.
O que dizer dos anúncios dessas campanhas de cervejas ? O que é o "Bar da Boa"? Que coisa estúpida, falsa e artificialíssima! E o "Zeca-Feira" ? Eis outra tentativa de criar um bordão que nem o mais rematado dos idiotas seria capaz de repetir.
Agora, as revistas semanais expõem um anúncio de página dupla da fábrica de automóveis Toyota.
O texto do anúncio, publicado em espaço nobilíssimo da revista Veja dessa semana :"Determinação é encarar os obstáculos de frente"
Encarar de frente!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Há alguma outra maneira de encarar qualquer coisa - que não seja de frente ?
O Dicionário Aurélio informa : "encarar: olhar de frente".
Custava tanto o redator dar uma checada no Nosso Pai, o dicionário?
Qualquer aluno de primeiro grau que escrevesse algo como "encarar de frente" seria repreendido pela professorinha.
Quantos mil dólares a agência terá cobrado para conceber frase tão brilhante ?
O princípio se aplica aos anúncios de cerveja, à campanha do jornal etc.etc.
O pior é que há quem pague por estes anúncios.
Quem disse que nasce um otário a cada minuto no planeta nunca teve tanta razão.
O MAL QUE O ALCOOLISMO CAUSA AO JORNALISMO AMERICANO
O alcoolismo continua fazendo mal ao jornalismo.
Exemplo: o crítico da revista Time que elogiou um disco do cantor Max de Castro com toda certeza estava sob influência de doses maciças de álcool.
Só pode ter sido.
Exemplo: o crítico da revista Time que elogiou um disco do cantor Max de Castro com toda certeza estava sob influência de doses maciças de álcool.
Só pode ter sido.
A NOITE EM QUE NORMAN MAILER CONSTATOU A VITÓRIA DA IMAGEM SOBRE A PALAVRA. E FEZ UMA CONFISSÃO: ACREDITAVA EM REENCARNAÇÃO!
Aqui, o locutor-que-vos-fala descreve aquela que foi uma das últimas aparições públicas de Norman Mailer- que morreu,hoje, em Nova York. A notícia da morte,por insuficiência renal, foi divulgada faz poucos minutos:
http://www.geneton.com.br/archives/000174.html
http://www.geneton.com.br/archives/000174.html
9 de novembro de 2007
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