4 de julho de 2008

PELO AMOR DE DEUS, "UM ÓCULOS" NÃO!

Lá vinha eu, entretido com o noticiário da rádio, quando, sem aviso prévio, a locutora ( ou "âncora") começa a falar sobre o roubo dos óculos da estátua de Carlos Drummond de Andrade.



Aos forasteiros, diga-se, aliás, que o Rio de Janeiro é a única cidade do mundo em que se roubam óculos de estátuas....



Quando começa a comentar o ocorrido, a âncora da emissora de rádio fala de "um óculos". Depois, repete a barbaridade duas, três, quatro vezes: "Um óculos....".



Deus do céu: fico pensando que profissão é esta, o Jornalismo, em que um ser humano passa quatro anos na faculdade e sai pelo planeta dizendo "um óculos".



Lástima: gente que não sabe diferenciar um plural de um singular acha-se perfeitamente preparada para transmitir a nós, ouvintes otários, as notícias do mundo.



Comigo não, violão.



Desligo o rádio.



Passo a relinchar alegremente. O ruído do relincho faz menos mal aos ouvidos do que alguém dizendo "um óculos".

Gente que não deve nada à língua, como cantores de pagode, zagueiros centrais,
celebridades que posam para a Caras, pode até dizer "um óculos" impunemente.
E certamente diz, satisfeita com a própria ignorância.

Mas jornalista que fala - e escreve - para o público não pode cometer tais barbaridades.

É simples assim: não pode. Porque a língua é o instrumento de trabalho de quem escreve. Não pode nem deve ser pisoteada publicamente por quem, em tese, teria a obrigação de zelar por ela.

O rádio continuará desligado.



13 de junho de 2008

QUANDO? ONTEM


“Tenho a forte sensação de estar condenado ao estágio subseqüente do inferno, pelo impedimento de retirar livros da biblioteca. Inimaginável: anteontem, no dia 10 de junho de 42, iniciou-se uma nova fase, ainda pior. Muita coisa ainda está obscura pela inquietação, pela preocupação com o andar de baixo, pelos montes de louça para lavar, o dia passa rápido. Porém, quando a rotina se normalizar, como preencher o vazio? Por enquanto, estamos sob constante tensão. Tudo é escondido o mais depressa possível, depois de ser usado – realmente tudo, baralho de paciência, canetas, envelopes, qualquer migalha de comida – e tudo é procurado arduamente em seguida. Antes de encher o cachimbo, olho pela janela se há algo suspeito. Nenhum animal pode ser tão ameaçado, estar tão apavorado.”

Victor Klemperer, Diários 1933-1945

12 de junho de 2008

DAS COISAS MENOS IMPORTANTES DA VIDA, O FUTEBOL É A MAIS IMPORTANTE. VIVA O SPORT CLUBE DO RECIFE !


Sou tentado a concordar com os que dizem que há qualquer coisa de infância-não-superada na paixão pelo futebol. Concordo. Idem com quem disse que, das coisas menos importantes da vida, o futebol é a mais importante.

Feitas estas declarações de princípios, lanço aos céus um pequeno apelo:
calai-vos, flamenguistas, corinthianos, vascaínos, palmeirenses, santistas, sampaulinos,botafoguenses, tricolores, atleticanos, cruzeirenses, colorados, gremistas e demais devotos de religiões nascidas fora dos limites da Ilha do Retiro. Nem que seja por um dia, calai-vos em silêncio reverente, porque o Sport Club do Recife será, para sempre, campeão do Brasil de 2008.



QUANDO? ONTEM

“Delekat, o teólogo, foi suspenso do cargo. Mutschmann solicitou que ele viesse pessoalmente e exigiu que ministrasse suas aulas mais de acordo com o nacional-socialismo. Delekat objetou que não poderia consultar nenhum programa de partido e deveria ouvir sua consciência. Em vista disso, o interventor terminou a audiência com quatro palavras: ‘O senhor é atrevido!’ E isso resultou na suspensão. Agora, todo o departamento de ciências culturais será dissolvido; em seu lugar, mantém-se uma seção de ciências políticas e nela, destacado e seguro, Stepun. Contei o que me foi relatado a respeito de Stepun. Sim, a velha senhora Stepun, a mãe, é uma senhora muito intrigante e mantém sempre um círculo de jovens ao seu redor que, evidentemente, cumpre um serviço de delações, também no curso dos professores.”
Victor Klemperer, Diários 1933-1945 (anotação de 11 de junho de 1942)

5 de junho de 2008

DUAS SUPER-ENTREVISTAS : COM O HOMEM QUE SOLTOU A BOMBA ATÔMICA E COM O MÉDICO QUE MATA!

DEPOIS NÃO DIGAM QUE NÃO AVISEI.

O HOMEM QUE SOLTOU A BOMBA ATÔMICA EM HIROSHIMA:

http://www.geneton.com.br/archives/000277.html



O MÉDICO QUE AJUDA OS PACIENTES A MORRER:

http://www.geneton.com.br/archives/000278.html


NELSON RODRIGUES REVISITADO

Poucos se deram conta, mas o fato é que teve início há algumas semanas a era dos idiotas da subjetividade.

O Parmeira perdeu – não foi o Sport que ganhou.
O São Paulo Fashion Week (weak?) perdeu – não foi o Tricolor que venceu.

Fiquem, pois, à vontade: juntem-se aos cronistas do Clarín. (Ver post abaixo.)


Em tempo: a expressão "São Paulo Fashion Week" foi usada aqui com permissão. Seu criador é o jornalista Leandro Augusto Silveira.

... Y DEBIÓ GANAR




No título deste post, o que deu no site do Clarín.
Na foto acima, um argentino que entende de bola: Conca.

(Em tempo: 45 anos depois, um clube brasileiro volta a silenciar os bosteros.)

4 de junho de 2008

PERGUNTA FEITA AO VENTO ( PARA NÃO PERDER O COSTUME)

A MULHER MELANCIA CONTINUA SOLTA ?

IH, TÁ MÓ CRÁUDI !

Crowd at Coney Island, 1940



"Tenho horror à multidão. Chamo de multidão toda reunião de mais de seis pessoas. Quanto às imensas aglomerações humanas – lembro-me de uma fotografia de Weegee mostrando a praia de Coney Island num domingo – são para mim um verdadeiro mistério que me inspira terror."
(Luis Buñuel, Meu último suspiro)

3 de junho de 2008

UMA AULA DE JORNALISMO. O PROFESSOR É O REPÓRTER QUE DERRUBOU UM PRESIDENTE

Depois de um breve intervalo de seis meses, quero declarar o seguinte aos senhores jurados: boemia, aqui me tens de regresso. Mas não para sempre, é claro.

Passo por este endereço tamancal para recomendar a leitura de uma entrevista que este locutor fez com o super-repórter Carl Bernstein, aquele que investigou a fundo o Escândalo de Watergate. A investigação, como se sabe, resultou na renúncia do então presidente americano, Richard Nixon.

Aqui:

http://www.geneton.com.br/archives/000275.html

A íntegra da entrevista foi publicada no livro "Dossiê História", à venda nas melhores casas do ramo.

Boa noite.

LAMENTO



"Tenho horror aos fotógrafos de jornal. Dois deles literalmente me atacaram um dia em que eu passeava na estrada nas proximidades de El Paular. Saltitando em torno de mim, não paravam de me fotografar, apesar de meu desejo de ficar só. Já estava muito velho para corrigi-los. Lamentei não estar armado."
(Luis Buñuel, Meu último suspiro)

24 de maio de 2008

... AD LOCUM TUUM


“Uma confissão: apesar de meu ódio à informação, gostaria de poder erguer-me dentre os mortos, a cada dez anos, caminhar até uma banca de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranqüilizadora da sepultura.”
(Luis Buñuel, Meu último suspiro)

23 de maio de 2008

CONSIDERAÇÕES


Deus está morto.
Mas o Fluminense nasceu com a vocação da eternidade.

22 de maio de 2008

TNC, SPFC !


Tricolor só existe um. O resto é time de três cores.

21 de maio de 2008

“O BEHAVIORISMO FUNCIONA -- A TORTURA TAMBÉM.”

O pequeno Wystan
“Se me dessem o professor B. F. Skinner e drogas e apetrechos necessários, eu poderia fazer com que, em uma semana, ele recitasse o Código de Atanásio – em público. O problema com os behavioristas é que eles sempre conseguem excluir-se de suas teorias. Se todos os nossos atos são comportamento condicionado, certamente nossas teorias também o são.”
(W. H. Auden, em entrevista a Michael Newman. In: Os Escritores 2: as entrevistas históricas da Paris Review. Companhia das Letras, 1989)

WYSTAN H.

Wystan Hugh Auden


- O senhor conheceu algum louco?

- Claro. Conheci pessoas que perderam o juízo. Todos nós conhecemos. Pessoas que vão para o hospício e saem. Conheci várias pessoas maníaco-depressivas. Muitas vezes pensei no bem que poderia ser feito a elas se organizassem uma sociedade de maníaco-depressivos anônimos. Eles poderiam se reunir e fazer algum bem uns aos outros.

- Não acho que iria funcionar.

- Bem, todos têm seus altos e baixos!

(W. H. Auden, em entrevista a Michael Newman. In: Os Escritores 2: as entrevistas históricas da Paris Review. Companhia das Letras, 1989)

13 de maio de 2008

ENGAJADO



Que mais chocou o senhor? A revolta dos estudantes, a atitude dos professores, as greves e a crise social ou o desequilíbrio e a deliqüescência do Estado?

Raymond Aron:
“A deliqüescência do Estado me impressionou, talvez exageradamente. Era um pouco desencorajador ver que um Estado que se apresentava sob uma forma decente, respeitável, dava a sensação de desmoronar sob golpes tão fracos. A França estava tão centralizada, e no regime gaullista tudo se concentrava de tal forma na pessoa do general De Gaulle que se, por razões acidentais, a autoridade do general fosse atingida, era como se o conjunto fosse posto em questão. Era ridículo que as algazarras dos estudantes na primeira semana fossem abordadas por De Gaulle no Conselho de Ministros.”

10 de maio de 2008

QUARENTA ANOS ESTA NOITE



“Não é uma revolução, isto não pode ser uma revolução. Ninguém foi morto. Para que haja revolução, alguém tem de morrer. Ora, o que acontece é que os estudantes foram para a rua. Eles chamam os policiais de SS, mas esses SS não matam ninguém. Não há seriedade nisso, não se trata de uma revolução.” (Alexandre Kojève; Paris, maio de 1968)

O ABENÇOADO


“O que pode ser pior que o fato de que seres humanos sejam declarados inimigos e condenados à morte, não por más ações ou delitos, mas porque são espíritos livres e que o patíbulo, espantalho para os maus, se converta no mais formoso teatro para dar o exemplo mais sublime de estoicismo e virtude?”

***

“Deixo que cada um viva de acordo com sua natureza e, quem deseje, possa morrer por sua salvação, com a condição de que eu possa viver para a verdade.”

(Baruch Spinoza)

ROSÁRIO DE... CITAÇÕES



Traste filosófico,
escritor obscurantista,
diabo néscio, monstro atroz,
idiota obcecado, fedelho miserável,
animal alienígena, homem louco e bêbado,
demente que merece ser internado em um manicômio,
salteador de estrada e assassino do bom senso e da ciência.

(De injúrias também se faz a glória de quem vive para a verdade.)