2 de dezembro de 2008

O ENGENHEIRO SONHA COISAS CLARAS...



“O que mais me marcou na vida foi alcançar a compreensão de ter vindo de uma sombra, e de estar agora me dirigindo para uma outra sombra que suponho não ser a mesma de onde vim.”

Joaquim Cardozo, em entrevista ao Jornal do Commercio do Recife em julho de 1973

24 de novembro de 2008

ANÚNCIO FÚNEBRE : OS JORNALISTAS ESTÃO ENTERRANDO O JORNALISMO

Texto de Geneton Moraes Neto, no site http://www.geneton.com.br/ :


Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de "crise econômica", eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

O jornal é de São Paulo.Poderia - perfeitamente - ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro.Eu disse "notícias interessantes" ? Em nome da verdade,retiro o que disse.

Pelo seguinte: não sou nenhum fanático por informação, não passo quatorze horas por dia conectado, não sou desses jornalistas que, à falta do que fazer na vida, acham que não existe nada sob o sol além do jornalismo. Em suma: considero-me apenas um consumidor mediano de notícias. Ainda assim, eu já sabia de noventa e cinco por cento do que aquele jornal tentava me dizer na primeira página.

O que o jornal me dizia, nos títulos ? Que o São Paulo "abre cinco pontos sobre o Grêmio". Que novidade! Qualquer criança de dois anos que tivesse passado diante de um aparelho de TV na véspera já sabia. Nem preciso falar da Internet. "Chuvas em Santa Catarina matam 20". Que novidade! "Obama divulga nomes de cargos-chave". Que novidade! "EUA podem injetar até US$ 100 bi no Citigroup". Que novidade!

Não é exagero: eu já tinha recebido todas essas informações na véspera.

Tive a tentação de voltar à banca, para pedir meus dois reais e cinquenta de volta. Mas, não: resolvi dar um crédito de confiança ao jornal. Quem sabe, como guarda-chuva ele teria uma atuação melhor. Teve.

De tudo o que estava nos títulos da primeira página do jornal, só uma informação era "novidade" para mim: "Brasil será o único país do mundo que não eliminou hanseníase". Conclusão: o jornal estava me oferecendo pouco, muito pouco, pouquíssimo.

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pela mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo ? Em que planeta os editores de primeira página vivem ? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta ? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página ?

Os autores dessas obras-primas ( primeiras páginas que não trazem uma única novidade para o leitor médio!) são, com certeza, jornalistas que temem pelo futuro do jornal impresso.
É triste dizer, mas eles estão cobertos de razão: feitos desse jeito, os jornais impressos estão, sim, caminhando celeremente para o mausoléu. Não resistirão.

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

Em suma: os jornalistas estão matando o jornalismo.

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.


Qualquer criança desdentada sabe que não existe nada tão fácil na profissão quanto "derrubar" uma matéria. Há sempre um idiota de plantão para dizer : "ah, não, o jornal X já deu uma nota sobre esse assunto"; "ah, não, o jornal Y publicou há trinta anos algo parecido" e assim por diante. O resultado desse exercício de trucidamento jornalístico é o que se vê: uma imprensa chata, chata, chata, chata. É raríssimo aparecer um salvador de pátria que pergunte: por que jogar notícias no lixo, oh paspalhos ? Por que é que vocês não procuram uma maneira interessante e original de contar - e oferecer ao publico - uma história ? Haverá sempre uma saída!

A regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

Mas, não. Contam-se nos dedos da mão de um mutilado de guerra os jornalistas que devotam o melhor de suas energias para fazer um jornalismo vívido e interessante. Já os burocratas e assassinos, numerosíssimos, continuam golpeando o Jornalismo aos poucos. Vão matá-lo, cedo ou tarde, é claro.

Não há organismo que resista à repetição dos botes dos abutres ( um dia, quando estiver prostrado à beira de um pedaço de mar verde da porção nordeste do Brasil, farei - de memória - uma lista dos crimes que já vi serem cometidos, impunemente, nas redações. Se tiver paciência para juntar sujeito e predicado, prometo que farei um post. Almas ingênuas podem acreditar que absurdos não acontecem com frequência nas redações. Mas, em verdade, vos digo: acontecem, diariamente. O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco....Quá-quá-quá).


Um detalhe inacreditável: em qualquer roda de conversa numa redação, em qualquer congresso ( zzzzzzzzzzz) de Jornalismo, é possível ouvir que há saídas simplíssimas. Bastaria tomar - por exemplo - providências estritamente "técnicas": em vez de repetir papagaiamente(*) nos títulos aquilo que a TV e a internet já cansaram de divulgar, por que é que os jornais não destacam na primeira página a informação inédita, o ângulo pouco explorado, o detalhe capaz de prender a atenção do coitado do leitor na banca ? Pode parecer o óbvio dos óbvios, mas nenhum jornal faz. Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente. Coitado. Não encontrará. É mais fácil encontrar um neurônio em atividade no cérebro de Gretchen.

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia,sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia "São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio". Por que não algo como "TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO" ou "JOGADORES DO SÃO PAULO PROBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV"? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável - um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas.....o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Quanto ao futebol: com toda certeza, as informações que ficaram escondidas no texto eram mais atraentes do que a mera contagem de pontos que o jornal estampou no título da primeira página! Afinal, cem por cento dos torcedores do São Paulo já sabiam, desde a véspera, que o time disparara na liderança. Não é exagero dizer: cem por cento sabiam. Mas, a não ser os fanáticos por resenhas esportivas, poucos sabiam que o treinador tinha proibido os jogadores de participarem de programas de TV, para evitar comemorações antecipadas. Por que, então, esconder o detalhe mais interessante ? É o que os editores fazem: tratam de sepultar a informação mais atraente em algum parágrafo remoto, lá dentro do jornal. Depois, querem que o leitor saia da banca satisfeito por ter pago para ler o que já sabia....

Estão loucos.

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Mas nem tudo há de se perder. Os jornais podem, perfeitamente, ser usados como guarda-chuva. Fiz o teste. O resultado foi bom: cheguei tecnicamente enxuto ao destino.

(*)Papagaiamente: neologismo que acabo de criar, iluminado por uma inspiração animalesca.

31 de outubro de 2008

O PIT BULL É DÓCIL!!!!!!!!!!

O Sopa de Tamanco pede licença aos caríssimos (e escassos ) leitores para reproduzir, aqui, aquela que é, disparado, a declaração do ano.

Quem frequentou sites jornalísticos nos últimos dias deve ter tomado conhecimento de um escândalo de décima quinta categoria, ocorrido numa boate da zona sul do Rio :

um sub-ator de décima oitava categoria, conhecido dos leitores de revistas de fofoca por se meter em brigas e barracarias várias, tentou agredir a noiva, uma modelo antipaticíssima e arrogante. Uma camareira se meteu entre os dois. O valentão jogou longe a pobre coitada.

O barraqueiro já tinha ameaçado agredir o apresentador um programa de entrevistas da MTV, mas foi devidamente enxotado do estúdio, numa cena que virou sucesso no You Tube.

Pois bem: o jornal "O Dia" desta sexta-feira traz uma declaração do mãe do Pit Bull.

O que disse ela ?

"Meu filho é dócil".

Mãe, como se sabe, diz qualquer absurdo em defesa do filho.

Mas esta declaração merece entrar numa antologia.

O menininho, aquele anjinho chamado Dado Dolabella, é uma doçura. Palavra da mãe!

Quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá.

Termina aqui a incursão do Sopa de Tamanco no submundo das pseudo-celebridades.

A partir de agora, os refletores do site voltam-se para os assuntos realmente importantes, como, por exemplo, o sorriso enigmático de Scarlet Johansson.

MAS... TEM MARCA DE BATOM?

Na semana em que editorias de esporte desperdiçam horas preciosas com uma cueca, vale a pena lembrar uma época em que o negócio dos pilotos era ganhar tempo, ainda que para isso precisassem correr riscos. Destemidos, eles tinham, no entanto, um grande medo, hoje meio sumido: o do ridículo.
Abaixo, um retrato dessa época.




Noite de sábado. À mesa de um restaurante carioca na Avenida Atlântica, com as mãos espalmadas para baixo, ele desenha no ar, com um movimento ondulado e firme, o relevo de uma região paulistana que marcou sua vida. E explica como, toda madrugada, baixava sobre essa região localizada entre duas represas uma neblina densa, muito densa. Ele então fala da pista de corrida que deu fama ao lugar. Quem o ouve viaja no tempo e no espaço: autódromo de Interlagos, final da década de 50. E presta atenção ao que ele vai começar a contar. Trata-se de saber como ele conseguia abrir caminhos tão velozes através da cerração que tapava a vista de todos os pilotos, menos a dele. Bird Clemente: eis o nome do comandante daqueles vôos noturnos e quase cegos.

Ídolo de campeões como Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, Bird marcou época no automobilismo brasileiro. Veloz, arrojado, habilidoso, dedicado, talentoso, audaz... A crônica esportiva enfileirava adjetivos para fazer jus ao volante campeão, enquanto ele deixava atrás de si filas de carros, alguns até mais potentes do que seu DKW ou sua berlineta Interlagos. “Berlinette”, como Bird prefere chamar.

Bird Clemente prepara para 2008 um livro. É garantia de boas e bem contadas histórias, por quem as viveu e construiu. Mas nosso piloto não é só passado. Ainda ligado ao automobilismo e atento, ele acompanha, por exemplo, o desenvolvimento tecnológico na Fórmula 1. Mas lamenta o fato de muitos dos pilotos dessa categoria terem se transformado em meros “operadores de instrumentos”. “Hoje, muitos se escondem atrás do equipamento”, diz. E critica a ausência de risco nos autódromos muito travados, a falta de emoção. “Ninguém vai a uma tourada para ver o toureiro enfrentar um touro sem chifre”, conclui.

De volta à beira-mar. Muitos causos, dois chopes e um espaguete à bolonhesa depois, Bird deixa o restaurante Fiorentina. Já passa da meia-noite; logo mais, ele será homenageado no Alto da Boa Vista pelos 70 anos de idade que completa em 23 de dezembro. Precisa descansar: menos de 12 horas atrás, encarou a Via Dutra em direção ao Rio. Mas o papo ainda continua, enquanto Bird caminha pelas calçadas do Leme até o carro estacionado junto à praia. Ele fala de motores e saudades, camaradagem e truques, pilotos e pistas.

Bird Clemente entra no carro, mas é de carona que ele vai até o hotel, no Posto 6. Nada de punta-taccos ou derrapagens controladas – os power slides em que era mestre. Segue na frente. E, na madrugada que avança, Copacabana parece cobrir-se de uma neblina densa, muito densa. Como naquele autódromo paulistano.

(Na foto, o volante Bird Clemente toca um Bino Mark I no autódromo de Jacarepaguá no final da década de 60.)

27 de outubro de 2008

SHIRLE, A DONA DA VOZ

Depois não digam que não avisei: há uma grande voz na praça, pronta a explodir. Nome: Shirle de Moraes. É gaúcha. Canta belíssimamente bem.

"San Vicente" é um "clássico" da dupla Milton Nascimento-Fernando Brandt. Quando já se achava que, tanto tempo depois, ninguém seria capaz de cantar "San Vicente" com tanta beleza, tanta força e tanto talento, eis que Shirle aparece para dizer que não é bem assim. É possível, sim, recriar "San Vicente" com uma interpretação arrebatadora.

Como se fosse pouco, a dona da voz é linda.

Que os locutores de todos os estádios tratem de gritar: é gol de Shirle !

Acorda, torcida brasileira: um novo, grande e belo nome acaba de entrar em campo!





PS: A voz de Shirle pôde ser ouvida na reportagem sobre os médicos que fizeram, quase quarenta anos depois,a festa de formatura que tinha sido proibida pelo regime militar:


http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL837728-15605,00-FORMATURA+DEMOROU+ANOS+PARA+ACONTECER.html

26 de setembro de 2008

EMBATE CLÁSSICO NA TV

— Nesse momento, os dois contendores adentram a arena. À direita de sua tela, Aristófanes, vestindo sua habitual pele branca com pêlos claros. E, à esquerda, Virgílio, com sua pele mais escura, de pêlos negros. Alguma informação, Tucídides?
— Bom dia, Tito Lívio, eu estou aqui com o veterano Aristófanes, que tenta manter a coroa de louros. Ari, o que você espera da luta de hoje?
— Só digo o seguinte: vou bater tanto que nem com toda a maiêutica Sócrates vai conseguir tirar os dentes de dentro dos pulmões.
— Bom, bem… Mas… Seu contendor é Virgílio…
— Tanto faz. Adversário é que nem discurso de Cléon: tudo igual.
— Virgílio se diz bem preparado e garante que entrará em Roma em triunfo.
— Retórica barata. Vou fazê-lo cair das nuvens. De tanto apanhar, vai sair daqui se sentindo uma rã. Vou esmagá-lo como uma vespa. Nunca mais vai encontrar a paz. Quando vir seu estado, sua mulher vai fazer uma greve de sexo. Em suma, vão acabar dizendo que ele é mais efeminado que Eurípides.

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Julian Gough

Novelists need a range of modern, enlightened patrons. A bunch of Borgias. We need a system (online, worldwide) to match patrons and artists, setting out mutual obligations, allowing different models to be tried. The university system is doing her best, trying to be a nourishing mother (the original meaning of alma mater), but she's smothering her most beloved children.

(Mais, aqui)

DOIS PERSONAGENS EM BUSCA DE SE LIVRAR DE UM AUTOR

Muito se glosa (com “l”, que é quando se glosa mais glostoso) a questão…
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Muito se glosa — dizia eu, antes de ser interrompido pelo idiota que escreve os parênteses deste blog e que, tão-logo o encontre na região de minha psique onde se oculta há mais de trinta anos, extirpá-lo-ei com mesóclise, Id e tudo — a questão do…

Perdão. Exaltei-me. Muito se glosa, repito (se repetir mais uma vez, eu volto), deixando no parágrafo anterior o segundo imbecil da variada fauna de pascácios que em minh’alma habita, adepto do travessão, e que igualmente me impede de prosseguir com o texto, o que me…
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Bom, esqueçam. Dizia que muito se glosa (eu avisei! O sujeito usa um recurso literário pobre como esse do monólogo interior, que impregna horrivelmente nossa baixa modernidade e ainda tem coragem de chamar alguém de idiota! E outra: fique sabendo que a azêmola, no caso, inserida em minha mente, é você, e não o contrário)…

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23 de setembro de 2008

A ESTUPIDEZ TAMBÉM É UMA FORMA DE ARTE

Nos momentos em que, saindo de seu natural, um espírito superior é obrigado a deparar com a canalha humana e ouvir suas singelas parvoíces — por exemplo, em filas de cinema —, razões fisiológicas ou psíquicas de momento podem determinar três reações, basicamente: enfado, compaixão ou asco.

Quando, porém, a alma refinada caça um pascácio em púlpito iluminado, a relinchar como potro recém-amansado, já de óculos e diploma da USP sob um dos cascos, evento inteiramente diverso ocorre: o júbilo mais perfeito, o ápice da ventura moral — em suma, uma profunda e, como tal, gratificante experiência estética.

Gozo esplendoroso do tipo me ocorreu ao ler recentemente, naquele panfleto socialista americano, The New York Times, um artigo sobre a redescoberta e imediato reenterro de Machado de Assis, que terá lixo em película exposto em sua homenagem na maior metrópole chicana do mundo.

Apesar de escrevinhado em proto-inglês de estivador jamaicano, o artigo tem a qualidade de alinhar elogios de Harold Bloom, Susan Sontag (mulher, mas lia), Philip Roth e algumas outras figuras, maiores, menores e até ínfimas, como o pseudopoeta Allen Ginsberg, ao escritor brasileiro. Opinião consensual: trata-se de um gênio. Para alguns, o maior da América Latina, para outros comparável a Kafka etc. Enfim, o óbvio para qualquer um que não seja brasileiro.

Já um pouco enojado, meditava sobre as diferenças entre seres culturais e amebas: a Espanha envencilhou Cervantes e iniciou uma tradição literária, a Alemanha fez o mesmo com Goethe, Portugal com Camões, Inglaterra com Shakespeare. O Brasil aferrou-se a Joaquim Maria e também encetou uma tradição literária: com José de Alencar.

Pensando nisso, enfim, preparava-me para cerrar a página quando, bocejando, encontro a pérola, o velocino de ouro, a cabeça de Medusa, o parágrafo que desencadeou em mim as infindáveis sensações de arroubo descritas no primeiro parágrafo deste texto, como se estivera diante dos vitrais de Chartres, pouco antes do crepúsculo, degustando um bom Chablis:

Enthusiasts in the United States and Britain “are making Machado appear less and less like Machado,” the critic and author Antônio Gonçalves Filho argued last month at a symposium in São Paulo. “Actually, they are making the writer white, like Michael Jackson. All of a sudden, he’s become ‘universal.’ ”

Que argumentar? Há dessas estultices tão bem-acabadas, tão compactas, incisivas e poderosas, tão reveladoras do imperfeito maquinismo intelectual de quem a emitiu e do baixo estrato mental a que se filia seu autor, que nos provocam uma exultação sublime, um prolongado prazer, uma inextinguível alegria, como se tivéssemos acabado de ler um punhado de versos de Aristófanes ou Shakespeare, e nos tornam durante alguns minutos absolutamente incapazes de nos mover ou falar.

Salvei o artigo no computador e desde então o tenho relido, sempre desfrutando do mesmo regalo, com aquele sorriso de quem, ao levar o filho ao zoológico, de repente, num insight, ao olhar para a jaula dos macacos e vê-los atirando fezes nos passantes, ergue a coluna e caminha mais firme, sentindo-se feliz por, apesar de tudo, ser humano.

22 de setembro de 2008

SOGRA

A Igreja precisa manter a coerência. Ora, se o ato de falar ininterruptamente, aos berros, uma série de frases sem sentido a levou a adotar o Pentecostes como dia santo, nada mais justo que minha sogra seja canonizada.

Minha sogra fala tanto que quando vai a reuniões com as amigas carrega um Aurélio consigo, para o caso de faltarem palavras.
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(Mais, aqui)

DIFICULDADES DA VIDA MODERNA

— Nessas horas é que era bom ser Jesus.
— Que foi que cê disse?
— Jesus ou o Gorpo, do He-Man. Qualquer criatura dessas que têm o poder de fazer as coisas levitarem.
— Até onde sei, a única coisa que Jesus tem o poder de fazer levitar é o volume do som da igreja aí da frente. Você tá dizendo isso porque tá com preguiça de trocar o galão de água, né?
— Galão? Sei muito bem o que é um galão. Minha tataravó era inglesa, pro seu governo. Aí deve ter no mínimo cem litros. E o pior é que toda vez que olho pra ele, aumenta mais um.
— O que quer dizer que a gente vai ter que construir uma arca já, já, porque você tá a tarde toda olhando pra esse galão de água. Mais um pouco e ele ruboriza.

(Mais, aqui)

20 de setembro de 2008

ADMITO: TOM CARNEIRO É UM GÊNIO

Devo admitir, a muito custo, dada nossa consabida alfétena, que o Sr. Tom Carneiro vem desencerrando, com suas notícias acerca de artistas pop e comentários sobre TV, genialidade típica de um Samuel Johnson.
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Bem, é verdade que ele não tem a intelecção de Johnson. Tampouco apresenta a sagácia refinada do pensador. Eu sei, muitas vezes nem mesmo apresenta veios de raciocínio. E, bom, há rizópodes com capacidade analítica maior que a sua, claro. Sem falar que seu estilo é praticamente ilegível e sua originalidade, infinitesimal.
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No entanto, apesar disso tudo, conta com algo importante e distintivo a seu favor: a erudição. Certo, não tem uma erudição suxa ou vasta. Talvez não se possa mesmo classificar o que tem como erudição. Mas, pelo menos, e isso é o que interessa, pelo menos ele... ele... pelo menos...
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É, pensando bem, ao colacionar os dois, concluo que o Sr. Tom Carneiro não tem nada de Samuel Johnson mesmo.

A VOLTA DO BOÊMIO - V



"O escândalo começa quando a polícia lhe prepara um fim."
Karl Kraus


(Tradução deste escrevinhador)

19 de setembro de 2008

CAMPANHA CONTRA O ASSALTO: O PREÇO DOS SHOWS DE MADONNA

Bem que o Sopa de Tamanco tinha prevenido: um bando de otários reunidos em um só lugar forma o quê? A platéia de um show de Madonna!

Hoje, os jornais trazem a informação de que os ingressos para o show da mala aqui no Brasil custam muitíssimo mais do que para as apresentações no Chile e na Argentina.

Ou seja: além de tudo, é um assalto a mão desarmada.

O inacreditável é ver que tantos, por livre e espontânea vontade, estão prontos para fazer o papel de otários.

Ainda dá tempo: se não comprou, não compre ingresso para esta farsa.

Os preços estão, obviamente, superfaturados ( basta ler a coluna de Arthur Dapieve na última página do Segundo Caderno da edição do Globo desta sexta-feira).

A VOLTA DO BARÃO



“Quando vires um gigante, verifica a posição do sol e presta atenção se não é a sombra de um anão.”
Novalis



(Tradução deste escrevinhador)

A VOLTA DO BOÊMIO - IV



"Quando o sol da cultura está no ponto mais baixo, até anões lançam sombras grandes."
Karl Kraus


(Tradução deste escrevinhador.)

17 de setembro de 2008

A VOLTA DO BOÊMIO - III



"Um pára-raios numa torre de igreja é o mais veemente voto de desconfiança que se possa imaginar contra o bom Deus."
Karl Kraus

(Tradução deste escrevinhador)

O ARTISTA E SEU MODELO


Pensativo, Tom Carneiro descansa junto a seu modelo, em retrato feito por Auguste Rodin.

O MURO FALA



E pensar que a foto da intelectual acima é de Tom Carneiro...

O QUE O VETERINÁRIO ESTARIA FAZENDO COM UMA CARGA DE PROPOFOL NAS IMEDIAÇÕES DA CASA DO SR. NICOMAR LAEL ?

O propofol (ah, nome feio desgraçado) é um sedativo também usado para acalmar cães histéricos.

Um veterinário especializado em administrar propofol foi visto esta semana nas proximidades da residência do sr. Nicomar Lael.

Por uma extraordinária coincidência, desde então o sr. Nicomar desapareceu das páginas do Sopa de Tamanco.

Deveras curioso.