1 de outubro de 2012

A MONA LISA DO CAVALIERI




Mais um Fla-Flu ganho. É normal. 

O extraordinário ocorreu foi depois da peleja. Ontem mesmo ouvi. Mas não acreditei. Pensei: deliro. E deixei pra lá. Hoje, no entanto, me falam da nota que o goleiro tricolor mereceu de parte da crônica esportiva. A notícia me espanta: não foi nota máxima.

Abro parêntese para quem chegou de Marte há dois minutos e ainda não teve tempo de se inteirar sobre o que acontece no centro do planeta. Diego Cavalieri, goleiro tricolor e novo herdeiro de Marcos Carneiro de Mendonça, garantiu a vitória do Fluminense ao defender um pênalti aos 42 minutos do segundo tempo. (Isso depois de já ter feito duas ou três defesas estupendas ao longo da partida, incluindo uma com o olhar.)

Repito. Repito para você, marciano ainda mareado pela viagem turbulenta pelo espaço: Cavalieri, a mais recente reencarnação de Marcos Carneiro de Mendonça, defendeu um pênalti aos 42 minutos do segundo tempo. 

Me corrijo. Dizer que defendeu é pouco. E falso até. Na verdade, o goleiro fez foi atacar. Atacou, num voo veloz e sereno, a bola chutada de 11 metros de distância.

Ok, marciano da objetividade, ele defendeu. Lembre-se, no entanto: defendeu não um tiro de meta cobrado pelo adversário perneta. Ou um balão de gás arremessado contra o vento por um gandula cego. 

Defendeu -- ó, povo recém-chegado do espaço ! -- uma penalidade máxima aos 42 do segundo tempo. (Para detalhes do feito, cartas à redação, por favor.)

O caríssimo e aflito leitor já pergunta: afinal, e a nota da crônica? Só vou dizer que não foi nota 10,5. Repito: dez e meio.

Também não foi nota zero. Claro. Do contrário, teria graça a piada. Espírito. E todos entenderiam o recado espirituoso nas entrelinhas, qualquer terráqueo haveria de concordar: ontem, o goleiro tricolor operou uma defesa perfeita.  Tal como sua atuação nos 90 minutos, uma obra de impossível retoque.

Mas há quem torça o nariz para a Mona Lisa do arqueiro tricolor. Maus piadistas. 

(Também, quem manda o Cavalieri ter deixado o Fred fazer aquele golzinho sem graça -- em vez de ele mesmo ter ido lá dar aquele voleio depois do passe de 100 anos do Deco?)

Registrado o fato extraordinário, o cumprimento -- e um pedido:
Boa, marcianos!
Agora, a do papagaio !

A gente promete que ri de novo.






10 de agosto de 2009

PROCURA-SE! QUEM FOI O GÊNIO QUE ESCREVEU O ANÚNCIO DE UMA LOJA CHAMADA "ÓTICAS CAROL" ?

Parece mentira, mas, horas depois de publicar o post anterior, sobre publicitários analfabetos, eis que o Sopa de Tamanco leva um tapa nos olhos e nos ouvidos: inadvertidamente, nosso olheiro testemunhou, na TV, a exibição de outro anúncio que fala em "o óculos" - assim,no singular. "O" óculos!

O anúncio é de uma ótica chamada Carol. "O" óculos é um soco nos ouvidos.

A velha pergunta volta a ser feita: quanto será que a agência de publicidade autora do anúncio ( qual será ?) cobrou do cliente para cometer erro tão primário de concordância ?

Não há meio termo: a palavra "óculos" exige artigo no plural.

Como já lembrou o Sopa de Tamanco, escrever "o óculos" é como escrever "a casas" e "o carros".

O inacreditável é que um anúncio assim é aprovado por alguém.

Pior: alguém pagou por ele!!

Conclusão definitiva: a cada minuto, nasce um otário na terra.

Assim é, assim foi - e assim será, por séculos e séculos.

8 de agosto de 2009

É SÉRIO: POR QUE O BRASIL TEM OS PUBLICITÁRIOS MAIS ANALFABETOS DO MUNDO

O Sopa de Tamanco já listou, aqui, casos de anúncios que dizem "um óculos". Já berrou contra o anúncio televisivo de um suco em que a atriz dizia "sombrancelha". Já vomitou contra um anúncio de um carro em que o texto falava em "encarar de frente".

Agora, para fechar a lista de horrores, a TV exibe a toda hora um anúncio de carro - pretensamente chique - em que o personagem pergunta a outro: o que você vai estar fazendo "daqui cinco anos" ? ( ou vinte anos, não me darei ao trabalho de me lembrar...)

O pior é que são anúncios caros, produzidos para produtos supostamente de qualidade. "Um óculos" é de um anúncio da Photoptica: uma promoção que prometia óculos de sol. "Sombrancelha" é de uma fábrica chamada Gula Fruts. "Encarar de frente" é de um anúncio da Toyota publicado nas revistas. "Daqui cinco anos" é da Ford.

É uma verdade límpida, pura, cristalina e incontestável: gente que diz ou escreve "um óculos", "sombrancelha", "encarar de frente" e "daqui cinco anos" é analfabeta. Ponto.

Conclusão: a publicidade brasileira pode ser não a pior, mas, com toda certeza, é a mais analfabeta do mundo.

Uma pergunta pende no ar: quantos mil dólares um publicitariozinho desses cobra para escrever tais aberrações ?

De repente, as coisas começam a fazer sentido. Era tão óbvio, mas só agora notei: um país que conta com publicitários desse tipo teria de ter, no senado, figuras como Renan Calheiros e, na TV,
débeis mentais se esgoelando em reality shows.

O círculo se fechou. Agora, finalmente, entendi tudo.

9 de julho de 2009

MISTER TALESE, O SENHOR PODE ASSINAR MINHA BÍBLIA, POR FAVOR ? ( UM RELATO SOBRE O GURU DO NOVO JORNALISMO)


Do site http://www.geneton.com.br/ :


“A humanidade só será feliz no dia em que o último editor for enforcado nas tripas do penúltimo” foi a sentença que o meu demônio-da-guarda me soprou, nítida e clara, ao pé do meu ouvido esquerdo, no exato instante em que ouvi o cultuadíssimo jornalista Gay Talese fazer uma confissão sobre os bastidores do jornalismo.

A confissão: uma reportagem que ele fez, nos anos setenta, sobre o encontro de Fidel Castro com Cassius Clay, em Cuba, foi descartada por nada menos de dez publicações diferentes. Dez!

É possível imaginar a cena: uma dezena de editores entediados deve ter passado os olhos sobre o relato escrito por Talese antes de vomitar uma desculpa qualquer para justificar a recusa.
Editores açougueiros cometem atrocidades todos os dias em todas as redações do planeta. Mas o caso da reportagem escrita em Cuba é uma daquelas aberrações que fariam um recém-formado desistir imediatamente da profissão.

Não é para menos. Tratava-se de uma reportagem escrita por um dos maiores nomes do jornalismo do Século XX sobre duas figuras míticas: o boxeador que entrou para a história por ter nocauteado um punhado de adversários imbatíveis e o comandante de uma ilhota que cutucava com vara curta a superpotência americana. Gay Talese, Cassius Clay e Fidel Castro. A camarilha de editores deu o veredito: não.

Um dos argumentos que usaram: o texto estava grande. Precisava ser reduzido. Talese disse que não. Não poderia reduzir. Os burocratas da profissão são exatamente assim: passam a vida inteira querendo provar que o público leitor detesta ler. Assim, todo e qualquer texto deve ser imediatamente trucidado. Ah, como são pateticamente pretensiosos...

Depois de três décadas e meia de observação, posso declarar diante do tribunal a única certeza que adquiri nesta profissão: o maior inimigo do Jornalismo é o jornalista. Não existe outro. Ponto. Parágrafo.

O resultado da investida do exército de editores burocratas foi este: o relato da expedição cubana de Gay Talese só chegou às mãos do público quando foi incluída num livro, anos depois.
Talese – um jornalista quase sexagenário na época da recusa – confessou, candidamente, que sentiu uma lufada de humilhação agitar suas florestas interiores ao ser brindado pelos editores com dez pontapés no traseiro.

Pergunta-se: quem é capaz de recordar o nome de um desses texticidas (assassinos de textos) que jogaram a reportagem de Talese no lixo ? Ninguém. Foram engolidos, um por um, pelo esquecimento.

Já Gay Talese sobreviveu.

Ei-lo agora, tanto depois, narrando suas desventuras numa noite tecnicamente cálida deste inverno na Cidade do Rio de Janeiro.

A confissão de Talese sobre o pesadelo que sofreu na mão de editores foi feita diante de uma fauna de tietes, curiosos, estudantes, aspirantes e dinossauros do jornalismo, reunida numa sala de cinema que fazia as vezes de palco de conferência no Instituto Moreira Salles, na Gávea, Rio de Janeiro. O jornalista Arthur Dapieve cumpriu com garbo o papel de mestre de cerimônia.

Quem conseguiu uma vaga na platéia ouviu um dos pais do New Journalism dizer que, lá no início da carreira, nos anos cinqüenta e sessenta, dava predileção a personagens anônimos, ao invés de cortejar os famosos.

Não por acaso, uma das primeiras reportagens que escreveu tinha como personagem central o redator de obituários do New York Times, um jornalista que vivia esquecido, numa mesa no canto da redação, ocupado em ruminar seus mortos.

Talese não teve dúvida em transformar um jornalista em notícia, o que quebrava um dos mandamentos da profissão (“jornalista só é notícia quando morre”). Não é verdade. Ao retratar o redator de obituários, Talese mostrou que jornalista que escreve sobre morte pode ser notícia, sim. Basta que tenha a sorte de atrair a atenção de um repórter inspiradíssimo, como ele.

A reportagem de Talese sobre um redator de obituários chamado Alden Whitman é um clássico imbatível do jornalismo. Pode ser lida no livro “Fama e Anonimato”, relançado no Brasil pela Companhia das Letras.

Estudantes, amadores, profissionais, correi: o que estão esperando antes de devorar o texto de Talese sobre o “mister Bad News”?

Um repórter burocrata diria que não, um mero redator de obituários não “rende matéria”. Talese dá uma lição perene: personagens anônimos podem ser,sim, fascinantes, extraordinários, comoventes. É uma regra universal. Tudo depende – única e exclusivamente - da sensibilidade do repórter.

Ao falar sobre a gênese da célebre reportagem sobre Frank Sinatra, igualmente clássica, Talese fez outra confissão: disse que nunca se sentiu atraído a escrever sobre gente famosa. Preferia lançar seus faróis sobre gente anônima, o que parecia uma “contradição”. Afinal, o jornalismo se alimenta da fama.

Não por acaso, quando recebeu de um editor a tarefa de escrever sobre Frank Sinatra, Talese teve a tentação de recusar a encomenda. Imaginou: que pergunta Frank Sinatra já não tinha respondido um milhão de vezes?

(Neste exato momento da fala de Talese, meu demônio-da-guarda entra em cena novamente, para sussurrar uma confissão ao pé do meu ouvido direito. Diz que, se tivesse a chance de interpor uma ressalva às palavras de Talese, declararia, solenemente: “Ah, não,oh guru do Novo Jornalismo, permita-me um momento de petulância: ao contrário do que Vossa Excelência diz, haverá sempre uma maneira de perguntar o que não tinha sido perguntado. Não há celebridade que não possa ser confrontada. Mas... quem sou eu para discrepar?”. Feito este exercício de autocrítica, meu demônio-da-guarda recolhe-se a um silêncio reverente).

Hoje, Talese pode dizer que, por sorte, Frank Sinatra não quis lhe dar uma entrevista. Assim, o caminho ficou livre para que o repórter transferisse todas suas atenções para o entourage de anônimos que cercavam o ídolo dos palcos.

O homem que fazia o papel de double de Frank Sinatra – um personagem chamado Johnny Delgado – parecia, aos olhos de Talese, tão fascinante quanto o original. Talese descreve a cena em que viu se aproximar um vulto que ele jurava ser Sinatra em pessoa. Não era. Quem se aproximada era o dublê.

É bola na rede, gol de Talese: sem que tenha sido a chance de interrogar o objeto principal da reportagem, Talese produziu uma reportagem definitiva sobre mister Sinatra. Bingo.

Talese faria outra confissão – que arrancaria suspiros de espanto da platéia: não usa a internet como instrumento de trabalho. Diz que a “tecnologia” da internet pode ser usada, por exemplo, para confirmar uma data. Mas não pode substituir, nunca, o contato “olho no olho” com a realidade.Repórter deve ir para a rua.Não pode passar o dia contemplando o retângulo luminoso de um monitor.

Neste instante, lembrei-me de uma máxima de Joel Silveira, grande repórter da linhagem de Talese: a “víbora” Joel dizia que não existe nada mais triste do que ver um repórter contemplando o teclado de uma máquina de escrever na redação, enquanto os assuntos, todos, estavam lá fora, na rua, à espera de quem pudesse descobrí-los.

Por princípio, Talese diz que, ao retratar seus personagens, não gravava nem fazia anotações : preferia observa-los com toda a atenção. De volta ao hotel, à noite, redigia o que tinha visto.

Ao fazer este relato, lanço da mão da “técnica Talese”: não estou recorrendo a gravações nem anotações. Tento reproduzir – de memória – o que acabei de ouvir. Já se disse que a memória guarda o que interessa. O resto some no abismo do esquecimento. Guardei – de memória - estas lições do guru do New Journalism.Há outras. Prometo: voltarei ao assunto, em breve ( Em nome de São Gutemberg: que outra coisa pode fazer um repórter, além de passar adiante o que viu e ouviu?).

Terminado o pronunciamento, mister Talese se dispôs a assinar autógrafos .
(Pausa para um registro bibliográfico: raríssimamente peço um livro emprestado. Dos pouquíssimos que pedi, o único que não tive a chance de devolver ao proprietário foi justamente um título de Talese: a primeira edição de “Fama e Anonimato”, lançada no Brasil nos anos setenta, pela editora Expressão e Cultura, com o título de “Aos olhos da Multidão”. Era a Bíblia de quem cultuava as pérolas de papel que Talese produziu, como o perfil do redator de obituários ou a reportagem sobre Frank Sinatra. Um colega jornalista, chamado Luiz Edmundo Monteiro, me emprestou o exemplar, no final dos anos oitenta. Depois, se mudou para o Paraguai. Jamais tive a chance de reencontrar o dono do exemplar – que ficou comigo esses anos todos. Hoje, ao me dirigir para o Instituto Moreira Salles, levei o livro que um dia, antes de ser relançado, era tratado como relíquia. A capa, frágil, ameaça se romper).

Sentado numa mesa, com os óculos na ponta do nariz, Talese veste-se como um dândi (sempre fez questão de cultuar paletós, jaquetas,sobretudos, sapatos, meias e lenços elegantes). Simpático, estende a mão para pegar o exemplar em ruínas.

Digo a ele:
- O senhor pode assinar a minha Bíblia?
Talese ri:
- É sua Bíblia ? Mas parece meio velha.... ( agora, ele manuseia capa puída).
- É velha, mas funciona...

O guru ri de novo, assina, agradece.

Termina o rapidíssimo diálogo sobre o meu devastado exemplar de "Aos Olhos da Multidão" , minha Bíblia jornalística, meu Evangelho Para Repórteres Segundo Gay Talese.

Eu poderia ter dito a ele que acendo uma vela para "Aos Olhos da Multidão" e outra para uma entidade inventada por Kurt Vonnegut : Nossa Senhora do Perpétuo Espanto.

Se tivesse tido tempo de se manifestar, meu anjo-da-guarda teria levantado a voz para finalmente interferir no diálogo, como se fosse um estudante ingênuo num comício de DCE: "Ah, com licença, oh guru do New Journalism, eu me arrisco a acrescentar que, se o Vaticano estivesse preocupado em combater as calamidades jornalísticas, deveria nomear Nossa Senhora do Perpétuo Espanto padroeira universal e plenipotenciária dos jornalistas. Porque só são dignos de povoar as redações os jornalistas que fazem da profissão um culto diário à Nossa Senhora do Perpétuo Espanto: são aqueles que tentam a todo custo não perder a capacidade de olhar a vida - e os personagens que a povoam - como se estivessem vendo tudo pela primeira vez. Em resumo: os que se recusam a perder a capacidade de se espantar. Somente assim, poderão narrar - da maneira mais atraente possível - a marcha dos fatos e dos personagens, anônimos ou famosos, que movem a máquina do mundo. Os que não são tocados por este espanto pertencem à triste linhagem dos que jogaram no lixo o que o senhor, Mister Talese, escreveu sobre Cassius Clay em Cuba. Já os que cultuam Nossa Senhora do Perpétuo Espanto serão sempre capazes de descobrir, em personagens como o redator de obituários, histórias que, claro, merecem ser contadas. Sempre mereceram !".

Mas não, não houve tempo de falar com Gay Talese sobre velas, redações, obituários e espantos nem de ouvir as perorações de anjos e demônios da guarda.

A fila dos que buscavam um autógrafo se estendia pelo pátio do Instituto. São dez e meia da noite. Hora de pegar a Bíblia e bater em retirada.


12 de junho de 2009

CHATONILDOS DA SILVA XAVIER: A PRIMEIRA LISTA

Se houvesse um torneio mundial da chatice, quem seriam os candidatos ao título máximo ?

Eis nossa lista de ouro:

a) aquelas exibições insuportáveis do Cirque do Soleil: um bando de idiotas multicoloridos escalando paredes e requebrando sobre plataformas voadoras, como se estas fossem habilidades dos deuses. Não são. Pior: há sempre uma velhinha ou velhinho que se integram à troupe para provar que ah, a vida é bela, a "terceira idade" não é limite para nada. Patéticos: o circo, os idiotas, os velhinhos e os que se dão ao trabalho de preencher a platéia.

b) aquelas notícias de tv que são dadas como se fossem conversa de comadre: "fulaninho, o que aconteceu aí ?"; "ah,fulaninha, uma coisa importante....". E assim por diante ( ver post anterior sobre o imenso, o incontrolável, o imbatível, o enorme, o avassalador tédio televisivo ). Quando os comadres e compadres terminam a notícia conversada, o pobre do telespectador já desabou, faz séculos, nos braços de Morfeu. Dormir, dormir, dormir: eis o resultado.

c) pseudo-estrelas falando dos filhinhos em revistas de celebridades. A partir de uma análise quadro a quadro do filme do assassinato do presidente Kennedy, especialistas fizeram a leitura labial da "primeira dama" Jaqueline Kennedy. O que ela disse naqueles segundos em que viu a cabeça do marido explodir ? "Oh,no!". Se os especialistas entrassem em campo para traduzir o que é que o leitor diz diante de uma anta célebre falando dos filhotes, chegariam à conclusão idêntica: "oh,no!", "oh,no!", "oh,no!". É o que faço diante das bancas e das telas.
"Oh,no!","oh,no!","oh,no!".

d) gente dançando forró ao som de sanfonas. o cúmulo dos cúmulos: uma viagem a bordo do tal do "trem do forró". Onde fica a saída, pelo amor de Deus ?

e) um grande show num "centro de tradições gaúchas". paspalhos de chimarrão lotam a platéia, enquanto um sanfoneiro canta músicas intoleráveis com um sotaque insuportável. "Oh, no".

f) professores de literatura, escritores, leitores e curiosos em geral relinchando em congressos literários."oh,no"


Novas informações a qualquer momento.

PERGUNTA FEITA AOS CÉUS

Uma dúvida: os senadores continuam soltos ?

31 de maio de 2009

UM ENCONTRO COM MILVINA DEAN, SOBREVIVENTE DO TITANIC

O Titanic virou, literalmente, história neste domingo.

Dos passageiros e tripulantes que conseguiram sair com vida do naufrágio em 1912, só uma estava viva em 2009: Milvina Dean, uma inglesa que, quando embarcou no transatlântico, era bebê.

A mulher que, nos últimos anos, carregou o título de "última sobrevivente do Titanic" morreu no início da manhã de hoje, aos noventa e sete anos de idade, em Southampton, Inglaterra.

Aqui, um relato sobre o dia em que o locutor-que-vos-fala teve um encontro com Milvina Dean, no exato local em que o Titanic iniciou a viagem que, como se sabe, terminou em tragédia:

http://www.geneton.com.br/archives/000116.html

29 de maio de 2009

CUIDADO COM A STT, A SÍNDROME DO TÉDIO TELEVISIVO: UMA DOENÇA QUE ATACA OS OLHOS E OUVIDOS!


Oh, tu, que navegas por blogs vagabundos e agonizantes como este, o que dizes da nova praga dos telejornais ? ( São aquelas conversas de comadre que ocupam um tempo que, na verdade, deveria ser preenchido por notícias - e enchem de tédio a alma dos pobres dos telespectadores... )

O Telejornalismo Conversado daria assim a notícia sobre o 11 de Setembro:

- Boa noite, Fulano, o que aconteceu hoje em Nova Iorque ?

- Boa noite, Beltrano.

- Boa noite.

- Beltrano, um avião foi visto nos céus de Manhattan...

- Ah,é, Fulano ? E o que aconteceu ?

- Ah, Beltrano, ele estava se dirigindo ao World Trade Center. Parecia desgovernado...
- Ok, Fulano ? E o que ocorreu, então ?

- Berltrano, o avião se chocou com uma das torres...

- Entendido, Fulano. E depois ?

- Beltrano, logo depois outro avião se chocou com outra torre. Nunca houve nada parecido na história...

- Ok, Fulano. Obrigado.

A essa altura, o telespectador dorme profundamente na poltrona. Um baba espessa escorre-lhe pelo canto da boca. As crianças da vizinhança apontam, sorrindo, para a cena patética: aquele feixe disforme de ossos e músculos dormitando diante de um aparelho de TV.

Ao fundo, ouve-se o som do aparelho.

A ladainha continua :

- Fulano, já se sabe o número de vítimas ?

- Não, Beltrano

- Ok, Fulano. Voltaremos já.

De imediato, as crianças que, inadvertidamente, olharam para a TV começam a cair no chão, uma por uma, adormecidas. Diagnóstico: foram fuminadas por uma praga chamada STT (Síndrome do Tédio Televisivo).

Surpreendentemente, as pestanas do cachorro da casa - que olhava, boquiaberto, para a TV - também desabam, indefesas diante do poder avassalador da STT.

O gato - que, estacionado em cima do muro, olhava de soslaio para a tela de TV - tomba no chão, igualmente adormecido.

Todos - o telespectador, o gato, as crianças, o cachorro - repousam no colo de Morfeu. A onda de tédio expelida pela tela de TV foi tão avassaladora que é impossível acordá-los.

Mas, a TV continua falando sozinha:

- Beltrano, você estava falando sobre o que aconteceu em Nova Iorque....

-Sim, Fulano, um porta-voz da Casa Branca informou que o número de mortos pode chegar a três mil...

-Ok, Beltrano. E, gente, adivinhe só o que vem aí: a previsão do tempo...Mariazinha, como estará o tempo em Rondônia ?

Adormecidos, os telespectadores, gatos e cachorros atingidos pela STT emitem, a essa altura, um ronco que se espalha pela cidade: só perde, em intensidade, para o chatíssimo, o insuportável, o inaudível, o interminável blá-blá-blá do TC (Telejornalismo Conversado).

A STT é incurável. Mas, como há males que vêm para o bem, ela tem uma grande vantagem: acaba de uma vez por todas com toda e qualquer crise de insônia.

É GRAVE A CRISE

A literatura brasileira ficou irrelevante, com as exceções de praxe. Uma literatura que produz uma média de dois livros imperdíveis por ano caminha, célere, para conquistar um lugar de honra no Salão dos Vexames.

A música brasileira ficou irrelevante, com as exceções de praxe. Nem faz tanto tempo, os senhores ouvintes contavam os meses para degustar o novo disco (!) de um Caetano Veloso, um Paulinho da Viola, um Jorge Ben, um Gilberto Gil, um Chico Buarque & Cia.

Façam as contas: qual foi a última música "assoviável" que um desses rapazes produziu ?

Faz tempo, faz anos, faz décadas.

As musas entraram em greve por tempo indeterminado.

QUE FALTA FAZ UM CONSELHEIRO NA HORA CERTA....

Que falta imensa faz um conselheiro que fosse capaz de :

a)avisar a Roberto Carlos que, pelo amor de Deus, aquelas ombreiras são o artefato mais patético já exibido por um ser bípede num palco do planeta Terra;

b)dizer àquela atrizinha grosseiríssima chamada Suzana Vieira que ,para o bem de nossos olhos e ouvidos, ela deveria, urgentemente, alugar um bom canil no Retiro dos Artistas e ficar lá por todo o sempre,amém, ocupada em fazer tricô; não em nos chocar com demonstrações de estupidez,falta de educação e pretensão descabida;

e assim por diante.

15 de abril de 2009

"REPRESENTÁVAMOS EM CIDADES ONDE HOJE EU RECUSARIA SER ENTERRADO, MESMO QUE O FUNERAL FOSSE DE GRAÇA E ELES OFERECESSEM UMA LÁPIDE COMO BÔNUS"


FESTIVAL GROUCHO MARX - 5
"Bem, voltemos ao show business. Representávamos em cidades onde hoje eu recusaria ser enterrado, mesmo se o funeral fosse de graça e eles oferecessem uma lápide como bônus.Quase todos os atores do grupo eram relativamente amigos - a menos, claro, que um dos atos tivesse um sucesso muito grande. Depois das matinês, geralmente íamos jantar juntos. Todos, exceto Tiger Smith. Uma vez lhe perguntei por que não ia conosco:- Groucho, você acha que sou louco? Se você acha que vou pagar um dólar só para comer um jantar, está ruim da cabeça! Comida é comida - e certamente não vou desperdiçar eu dinheiro numa coisa tão idiota quanto essa.Como na lanchonete mais barata que posso encontrar e minha comida nunca custa mais do que alguns trocados.-Mas, Tiger, você não acha que pode adoecer com esse tipo grude ?-Nunca fiquei doente na vida !-E como você faz ? Você tem alguma fórmula secreta ?-Bom,assim que termino de comer - confidenciou - não importa se estou enjoado ou não, tomo duas colheres de bicarbonato de sódio. Depois disso, fico novinho em folha !Depois de nossa turnê, perdi contato com ele. Alguns anos mais tarde, li seu obituário no Variety. Dizia que Tiger Smith tinha morrido de pedras nos rins causadas por excesso de bicarbonato de sódio"


FESTIVAL GROUCHO MARX - 4
"Muitos médicos recomendam dormir no chão se você chega em casa tarde e meio pifado ou, em termos médicos, "com o fogo aceso". Eu,na verdade, aconselho você a se esquecer dos médicos e a dormir no chão quando estiver sóbrio. Muitas coisas recomendam isso. Para começar, você elimina o custo de uma cama. O dinheiro que você economiza assim pode ser usado para ficar bêbado outra vez. Além disso, se você dorme no chão, não há perigo de cair - a menos que você esteja dormindo perto de um buraco"


FESTIVAL GROUCHO MARX - 3
"O show business é a única profissão existente em que um homem pode ganhar uma razoável fortuna apenas por ficar dentro da pele de um gorila"


FESTIVAL GOUCHO MARX - 2
"Já tentei ser o alegre membro de algum bom clube, mas, depois de um mês e pouco, minha boca sempre começa a doer pela pressão dos meus dentes num sorriso falso. A pseudo-amizade, os apertos de mão moles e os extra-fortes ( ambos deveriam ser abolidos pelo Ministério da Saúde) não são para mim. Isso também é valido para o caloroso tapinha nas costas e a cascata generalizada à qual você é submetido por todos os chatos da América dos quais você fugiria imediatamente se não estivesse preso na sede do clube"(Idem)


FESTIVAL GROUCHO MARX - 1
"Acho que se os críticos de Nova York empacotassem suas máquinas de escrever e se mudassem para a Mongólia e lá ficassem por uns dez anos, o teatro floresceria outra vez, como floresceu no começo do século - apesar da concorrência da televisão,cinema,salões de boliche e sexo"("Groucho & Eu")


5 de abril de 2009

AVISO A LEITORES INOCENTES : NÃO CAIAM NO GOLPE DE UM PICARETA LITERÁRIO CHAMADO BERNARDO CARVALHO! O LIVRO "O FILHO DA MÃE" É UMA EMPULHAÇÃO!

A pedidos, o Sopa de Tamanco republica um post que serve como resenha coletiva de nove livros, todos de autoria daquele que,sem qualquer exagero, pode ser apontado como a maior fraude literária das últimas décadas no Brasil: o sub-escritor Bernardo Carvalho.

Agora que um novo título do sub-escritor chega às prateleiras das livrarias ( "Filho da Mãe"),
a resenha há de servir como aviso a leitores incautos: não gastem dinheiro com esta empulhação sem precedentes na história da literatura brasileira.

O motivos são explicados abaixo.

Resenha dos livros Onze (romance); Os Bêbados e os Sonâmbulos (romance); Teatro (romance); As Iniciais (romance); Medo de Sade (romance); Nove Noites (romance); Mongólia (romance) ; O Sol se Põe em São Paulo (romance) e O Filho da Mãe (romance):

PROTESTO! DICIONÁRIO DO AURÉLIO COMETE FALHA NO VERBETE "LIXO". FALTOU UM NOME LÁ!

Atenção, editora do Dicionário do Aurélio, o Pai dos Burros ( ou seja :nosso pai) : há uma falha grave na edição de papel! Tomara que o deslize seja corrigido na próxima edição.O Dicionário dá como sinônimos de lixo "entulho ; tudo o que não presta e se joga fora; sujidade, sujeira, imundície; coisa ou coisas sem valor". Faltou concisão ao autor do verbete. Poderia ter resumido a palavra a lixo com uma apenas uma frase,claríssima : lixo = o mesmo que livro de Bernardo Carvalho.Todo mundo entenderia.

Porque lixo que é lixo fede de tão ruim. Livro de Bernardo Carvalho fede. Lixo que é lixo não pode ser manuseado, porque provoca náusea. Livro de Bernardo Carvalho provoca náusea. Lixo que é lixo dá vontade de vomitar. Livro de Bernardo Carvalho dá vontade de vomitar. Ninguém me contou: eu vi, porque manuseei um. Em resumo: livro de Bernardo Carvalho é o sinônimo perfeito para a palavra lixo, mas o dicionarista preferiu complicar a explicação.

Justiça se faça : não é que o tal livro seja podre. Papel não fede. A podridão é literária. Ou seja: o fedor de lixo emana do conteúdo. Livro de Bernardo Carvalho é - apenas - inapelavelmente ruim, pretensiosíssimo, entediante, chatíssimo, soporífero, estupefaciente, vomitivo, ilegível, horroroso.

O simples fato de livro tão ruim chegar à prateleira das livrarias, com a chancela de uma grande editora, é um atestado da indefensável mediocridade de nossa paisagem cultural. Há pecados que até se perdoam num candidato a escritor. Mas a pretensão descabida é pecado mortal.

Sério: um candidato a escritor precisa, obrigatoriamente, avaliar o próprio tamanho, antes de teclar a primeira frase. Se um jornalista tiver a plena consciência de que, em última instância, não passa de um aplicado coletor de declarações alheias, terá - por exemplo - grandes chances de produzir boas peças jornalísticas. Tudo se resume a não querer enganar a platéia dando um passo maior do que as pernas.

Já pensou se um desqualificado como Bernardo Carvalho tivesse a pretensão de escrever como, por exemplo, Camus? Mas ele tem. O desastre mora aí ( neste momento, a platéia solta, em uníssono, um suspiro de desalento: "Meu Deus, ele tem....").

Se um picareta literário, cego pela pretensão descabida, comete o gravíssimo pecado de se julgar um romancista de recursos, a estrada para o desastre estará aberta. É o que acontece com livro de Bernardo Carvalho, um picareta literário que se julga perfeitamente qualificado a cobrar dinheiro para ser lido...(afinal, o que faz um autor que publica livros? Cobra dinheiro para ser lido. O problema é de qualidade. Cassandra Rios, autora quinhentas vezes superior a Bernardo Carvalho, porque não cometia o pecado mortal da pretensão descabida, poderia perfeitamente cobrar para ser lida. José Mauro Vasconcelos, autor com zero grau de pretensão descabida, e, portanto, seiscentas vezes superior a Bernardo Carvalho, poderia cobrar para ser lido. Bernardo Carvalho não pode cobrar, porque os seus livros são empulhações indefensáveis para ludibriar leitores. Livro de Bernardo Carvalho deveria ser distribuído de graça para as empresas de lixo).

Imagine um débil mental habitante de um paiseco subdesenvolvido desfilando de cachecol por bares como se estivesse na Paris do século XVIII e arrotando draminhas existenciais ( a platéia se contorce de riso diante de tal cena: quá-quá-quá-quá) . Se uma criatura com este perfil se sentasse diante de um teclado para escrever, o que sairia ? Um livro de Bernardo Carvalho.

Nem quero teclar o nome do livro que inspirou estas reflexões sobre o sentido da palavra lixo. Quero evitar que outros incautos, movidos pela curiosidade, cometam a estupidez que cometi: joguei fora um dinheiro que poderia ter sido gasto com um bom sanduíche acompanhado de um milk-shake. Bem feito! Dinheiro jogado lixo! Quem mandou comprar lixo disfarçado de livro?


postado por Geneton Moraes Neto # 6/30/2007 12:07:00 PM

18 de março de 2009

ETA, ETA, ETA ! É SANGUE DE... IBOPE


Leio no Globo que tentam ressuscitar o América Futebol Clube. Acho que não vai dar em nada. Com otimismo, é possível que a iniciativa chegue a alguma praia...
O América deve ter começado a morrer quando inventaram que era a segunda equipe de todo carioca. Ora, desde Nelson se sabe: a única segunda que dá ibope é a amante.

17 de março de 2009

ANTRO


Fosse só o túnel... O problema são os fantasmas.

15 de março de 2009

UM INFORME SOBRE O LIVRO "ELZA, A GAROTA". OU : O DIA EM QUE O LOCUTOR-QUE-VOS-FALA FEZ UM FAVOR À LITERATURA BRASILEIRA

Aos fatos: o editor Alberto Schprejer me procurou no ano passado porque queria fazer um convite. Que tal escrever um livro-reportagem sobre um caso que sempre foi tabu na história do Partido Comunista Brasileiro - o "justiçamento" de uma menina de dezesseis anos de idade chamada Elza, no já remotíssimo ano de 1936 ? Suspeita de traição, ela foi executada num rito sumário, por ordens da direção do Partido. Método: estrangulamento.

Não é um tema fácil, porque pode se prestar a todo tipo de manipulação ideológica. Elza é, literalmente, um esqueleto no armário da esquerda brasileira.

Diante do convite, o meu detector de matérias emitiu, na hora, um ruído característico que, discretamente, invade os meus tímpanos em situações semelhantes : um clique inconfundível, exatamente igual ao disparado por aqueles equipamentos que os técnicos usam para detectar sinais de radiação. Habemus matéria!

A pauta renderia, claro, uma bela reportagem, estritamente factual, sem qualquer contaminação ideológica.

(Sou repórter, não sou militante. Como personagem jornalístico, George Walker Bush me interessa tanto quanto - por exemplo - Vladimir Ílitch Uliánov, o popular Lênin. Eu daria tudo pela chance de entrevistar um ou outro, desde que Lênin fosse capaz de se levantar do velório que já dura oitenta e tantos anos no mausoléu da Praça Vermelha - e George Bush tivesse a idéia luminosa de me convidar para uma rodada de gravações exclusivas no rancho onde se enclausurou, no Texas. Os dois dariam excelente matéria-prima jornalística. Quem quiser fazer militância política que se inscreva num partido. Ponto. Parágrafo).

Ocupado com outros projetos, agradeci ao editor a lembrança do meu nome como possível autor do livro-reportagem. Entre uma e outra garfada num prato modernoso que, a bem da verdade, não deixou sinais de saudade no meu paladar, indiquei, informalmente, os nomes de dois jornalistas que poderiam dar conta da tarefa: Sérgio Rodrigues e Fernando Molica.

Não estou cometendo qualquer indiscrição ao citar esta cena (banal) dos bastidores da nossa paisagem editorial.

Sérgio Rodrigues levou adiante a empreitada.

É aí que a porca torce o rabo. Porque quero fazer uma confissão: ao recusar, por absoluta falta de tempo, o convite para fazer o livro-reportagem, terminei prestando, sem saber, um grande favor à literatura brasileira.

Neste momento, uma mão se ergue lá no fundo da sala: "Desembucha! O que foi que houve? Quer contar logo o que foi que aconteceu ?".

Quero: se eu tivesse feito o livro sobre Elza, teria produzido, apenas e tão somente, uma reportagem - ou uma série de entrevistas. É a única coisa que sei fazer. Um livro estritamente jornalístico sobre a garota Elza poderia, por sinal, ficar bom. Por que não ?

Mas Sérgio Rodrigues deu um passo adiante.

Diante da escassez de material jornalístico sobre o assunto, partiu para uma empreitada ousada: resolveu escrever um livro em que intercala o estritamente factual com páginas de ficção descarada.

Fez um golaço, porque a mistura entre fato e ficção foi felicíssima. Declaro, portanto, diante deste tribunal, que prestei um grande favor à literatura brasileira : ao recusar o convite para tocar o projeto, deixei, casualmente, o caminho "livre" para que um autor inspirado entrasse em cena e produzisse, a partir da história da garota Elza, uma mistura empolgante de ficção com verdade histórica, algo que eu jamais faria, por incapacidade técnica.

Dizei-nos, Paulo Coelho: a vida pode ou não pode ser uma miríade de acasos ?

O que interessa é que o livro "ELZA, A GAROTA", recém-lançado pela Editora Nova Fronteira, é arrebatador. Sérgio Rodrigues criou dois belos e apaixonantes personagens: Molina - um jornalista de quarenta e seis anos que já se deixara envenenar por uma mistura de "tédio e cansaço" - bate na porta de um apartamento de dois quartos, no bairro do Flamengo, à procura de um tal de Xerxes, um nonagenário que publicara um anúncio esquisito nas páginas de classificados de um jornal. Queria alguém que pudesse ajudá-lo a escrever suas memórias.

Um trecho:

"A primeira coisa que lhe chamou a atenção foi que o velho falava como se escrevesse, vírgulas e tudo. Tamanho poder de articulação era coisa de um outro tempo, e foi só então que a idade quase impossível do homem - noventa e quatro, estava no jornal - desabou na sala diante dele como um rochedo, um totem, uma pirâmide".

A partir daí, as 236 páginas passam voando.

Em uma frase: "ELZA, A GAROTA" é um dos melhores livros brasileiros lançados nos últimos tempos.

Feita esta declaração, o autor-que-foi-sem-nunca-ter-sido desliga o terminal de computador, apaga a luz, fecha a porta e, como na letra daquela música antiga de Paulinho da Viola, desaparece na "poeira das ruas", não sem antes recomendar aos navegantes : correi para as livrarias.

13 de março de 2009

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO



9 de março de 2009

ANTES DO FIM

Antonio Canova, Eros et Psyché, 1792

O MUSEU DE ARTE MODERNA DO RIO DECIDIU PRORROGAR ATÉ 22 DE MARÇO A EXPOSIÇÃO DO ARTISTA PLÁSTICO VIK MUNIZ. DIANTE DISSO, O SOPA DE TAMANCO RESOLVE PUBLICAR PÁGINA DO DIÁRIO DE VIAGEM DO PINTOR RONALDO DO REGO MACEDO. A IMAGEM QUE ILUSTRA O POST É SUGESTÃO DO PINTOR.



O que é o poder da mídia, a força do mercado nesses tempos de descaminho!

Estive no MAM, onde fui ver a exposição de Vik Muniz. O museu estava cheio como poucas vezes acontece; o público, encantado, excitado por identificar os detalhes das obras. Mas a exposição é tremendamente monótona, enfadonha mesmo. Uma grande hipérbole fotográfica, uma piada que se repete, que se repete, se repete.

A construção das imagens, a produção das cenas são explicadas em detalhes: aqui, um desenho do Drácula de chocolate serve de modelo; ao lado, uma Marilyn de diamantes é o modelo da foto. Tudo é simulacro: o real esvaziou-se de realidade, passou a ser editado fotograficamente. Hipereditado, no Cybachrome da Kodak. O real foi completamente excluído. Ao mesmo tempo, todas as imagens fotográficas são facilmente reconhecidas: uma catedral de Monet, sua Japonesa, a Medusa de Caravaggio, uma paisagem de Nova Iorque, outra do Rio, trabalhadores num lixão para dar o tom social, retratos de Liz Taylor, Frankenstein, Santo Antônio, essas coisas.

É uma exposição espetacular. E fácil. Rasa. Lisa como uma folha de plástico, onde o artista passa ao lugar de diretor de arte competentíssimo e estratégico. O público, que inclui escolares, adora. Senhoras distintas que conhecem Louvres, MOMAs e Beaubourgs deliram com fina discrição. Tudo é facilmente reconhecido, perversamente vazio, sem alma, perfeitamente pós-moderno.

Vale a pena. Se você, prezado leitor, ainda não viu, não perca. Corra; a exposição está nos últimos dias. Depois, você nunca mais vai precisar ver de novo. Nunca mais.

11 de fevereiro de 2009

O DRAMA DE MORAR DIANTE DE UMA IGREJA: "O VERSO MAIS INTELIGÍVEL QUE ESCUTEI ATÉ AGORA FOI CANTADO EM ZÉ-RAMALHÊS ARCAICO"

Do blog de Marconi Leal (http://www.marconileal.com) :


Senhor meu Deus e meu Pai, Espírito Santo, Jesus, Criador Onipotente, Divino, Altíssimo, Maior de Todos, Fura-Bolo e Cata-Piolho, digo logo todas as vossas patentes, ó Deus, que é pra prece não ter erro e não vir ‘message delivery failure’, Senhor, que eu tampouco entenderia, ó Eterno, pois não domino o latim. Até bem pouco tempo atrás, meu Jesus, o mais próximo que chegava da eternidade era tentando acessar o site do Banco do Brasil, ó Deus. É bem verdade que passaria por experiência metafísica mais profunda, Criador, se depois de acessada a página do banco, esperasse ali até que surgisse algum dinheiro na minha conta, ó Senhor Meu Deus e Teu Pai, digo, ó Seu Deus e Meu Senhor, bem, ó Meu Seu Deus Senhor, ah, ó Uma Das Duas Coisas. Mas peço que desconsidere esta última carência de esperança, meu Batman Divino, porque para explicá-la teria de usar conceitos quânticos, Grande Luz, e meus conhecimentos na área só vão até a lei da gravidade, e mesmo assim quando estou deitado, ó Holy Cow. Fora isso, chegava muito perto da transcendência mística quando provava um pastel de Santa Clara, Cristo-Jesus, e já tive epifania uma vez com alho-poró frito ao molho de alcaparras, Santo Deus. Em suma, meu Delfim Netto do Ar, ainda que desconheça testemunho de fé maior que torcer pelo Sport, Jesus, a verdade é que nunca fora um homem religioso, Maomé. Analogia que nem bem se sustenta, porque todos sabem que o Sport disputa a Primeira Divisão há alguns anos e o Senhor, perdoando a franqueza e pedindo que não jogue um raio na minha cabeça como é de vosso santo costume, ó Generosíssimo, há pelo menos dois séculos que está na Segundona, Criador dos Céus, da Terra e da Julianne Moore. Admiro a fé do brasileiro e até acho, ao contrário de muitos, que faremos um papa um dia, Stephen King do Bem. Basta para isso que a estupidez ou a idiotia virem religião, Onisciente meu. Mas a verdade é que, em matéria de pátria espiritual, bem sabeis, Segunda do Plural, nasci dentro de um filme sueco, ó Bob Pai. Porém, há alguns meses moro diante de uma igreja neopentecostal, meu Pastor E Nada Me Faltará. E devo dizer que é inacreditável o poder que essas instituições têm de converter infiéis a Ti, ó Glória Aleluia Eparrê Três Toques Na Madeira. Fui convertido pela música, ó Abstração Antropomórfica. Imagine Vossa Transcendentíssima que a instituição, caridosa que é, conta com um coro de Gagos Traqueostômicos com Parkinson que é das coisas mais belas que apareceram no Hemisfério desde a gripe espanhola, ó Cristo. Faz lembrar Beethoven, ó Zana. Sobretudo pela vontade de ficar surdo que a gente tem ao ouvi-lo, ó meu Niemeyer Mais Novo. Se alguém duvida do Pentecostes, precisa vir aqui aos domingos, Pai. O verso mais inteligível que escutei até agora foi cantado em zé-ramalhês arcaico, ó meu Platão Para as Massas. E posso até estar enganado, mas acho que os cânticos deles, dada a clareza, são traduzidos pela ferramenta de idiomas do Google, Criador Meu. Em suma, ó Deus, quero dizer que me converti a Vossa Humilde Pessoa Infinita e Onipotente graças a esses abnegados cristãos, e agora me ajoelho aqui humildemente, ó Salgador da Mulher de Lott, pedindo que volteis, meu Cristinho Querido. Ó Nazareno, vós que morrestes na cruz, bem sabeis o que é a tortura, e olha que naquela época nem existia o horário nobre da TV. Senhor meu Deus e meu Pai, volta logo, meu Deus, para que não tenha que ouvir ganidos às dez da noite, e possa ter paz, ó Antonomásia Maior. Que venha o Vosso Reino, Jesus, e a gente aqui em casa não caia em tentação e acabe arrancando os tímpanos com um alicate de unha. Que seja feita minha vontade, aqui na sala como no quarto, e prometo até parar de ler Voltaire e escutar um disco inteiro de Frejat, ó Pai. Aleluia Deus, Amém, Para Sempre Seja Louvado, Te Deum Laudamus, De Rerum Natura, Santo, Santo, Santo, o Jipe do Padre Fez um Furo no Pneu, sem mais subscrevemo-nos etc., ect.