13 de dezembro de 2008

DEVE FICAR ASSIM


Daqui a duas semanas completa-se um mês desde que a estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade inaugurada em outubro de 2002 no Calçadão de Copacabana teve os óculos arrancados. Pela sétima vez.

É de se lamentar. Mas não por muito tempo. Na semana em que se inaugurou a estátua de Dorival Caymmi no mesmo logradouro público, o comentário no Posto 6 é de que o problema com a estátua do poeta itabirano será finalmente resolvido pelas autoridades cariocas escoladas em... estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade no Calçadão de Copacabana. Sim, resolvido. E de uma vez por todas.

Como? Muito simples: lentes de contato.

TERÁ SIDO A MÃO ARMADA?



Flagrante de um Auto Union de corrida (16 cilindros, 550 cv) quando era descarregado no porto do Rio para correr o V Grande Prêmio da Cidade, no Circuito da Gávea, em 1937.

Reparem que, antes de baixar ao chão, os pneus já tinham sumido.

11 de dezembro de 2008

O GRANDE CAMPEONATO DA ESTUPIDEZ

Uma vez, numa entrevista, a entrevistadora obesa falava de uma tal de "Nanda".

Quem diabo é "Nanda", oh anta balofa ? Você quer que o pobre coitado do telespectador tenha a obrigação de saber de apelidozinhos de seus amiguinhos ?

Ah, adiante, o telespectador é informado de que se trata da atriz Fernanda Torres.

Em outro programa, a própria Fernanda Torres fala de uma tal de "Conspira".

Por intervenção do entrevistador, o telespectador consegue, afinal, descobrir que se trata de uma referência à Conspiração Filmes.

Em outro programa, a entrevistada fala de "Vlad".

Adiante, as vítimas (aliás, os telespectadores) são levados a supor que se trata do ator Vladimir Brichta.

E o que dizer de anúncios em que a atriz Juliana Paes é chamada de "Ju" ?

Não há qualquer resquício de dúvida: a televisão é, disparado, a maior fábrica de idiotices, estultices, antas, analfabetos e empulhações da história da Humanidade. Em matéria de indigência, não há nada comparável. Jamais haverá.

Que o digam os ouvidos dos telespectadores punidos por sons como "Nanda", "Vlad" e "Ju".

10 de dezembro de 2008

DE NOVO ELLA


Ella foi apresentada a Chick Webb por Charles Linton, que cantava na banda liderada pelo baterista, mas sem talento para o swing. Decidiu-se que uma cantora poderia resolver o problema, e o cantor foi incumbido de procurar uma vocalista que desse conta do recado.

Dias depois, o cantor conhece uma jovem cantora que ganhara o primeiro prêmio num concurso de calouros. Pede que cante algo. Achou a voz dela muito rouca. Mas boa. Perguntou se a jovem tinha outra canção para apresentar. Sim. Logo o cantor que fazia as vezes de caça-talentos interrompeu o número: "Venha, vou apresentá-la ao Chick."

Olha só o bonitão, de namorada nova, brincou Chick ao ver seu cantor com uma garota que estava longe, muito longe do padrão de beleza ou encanto tanto de um como do outro. "Quero que você a ouça cantando", diz Linton.

Chick Webb avança até o cantor, segura-o pela gola e lhe sussurra, como se gritasse: "Você não vai por isto sobre o tablado da minha banda. Não, não, não. Fora!"

O depoimento de Charles Linton está em Ella Fitzgerald: uma biografia da primeira-dama do jazz, de Stuart Nicholson. (Ed. José Olympio, 1997) Na foto, Chick Webb.

9 de dezembro de 2008


A reação do líder de banda Chick Webb quando lhe apresentaram Ella Fitzgerald?
Leiam amanhã aqui no Sopa de Tamanco.

7 de dezembro de 2008

TOMA !



Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, Oscar Niemeyer lembrou ao jornalista Jonathan Glancey o que ouviu de Walter Gropius, depois da visita do papa da Bauhaus à Casa das Canoas (ver post abaixo):

"Ele disse que era bonita, mas que não podia ser produzida em massa. Como se eu tivesse querido tal coisa! Que idiota."

5 de dezembro de 2008

1 X 1 = 1

Casa das Canoas / Oscar Niemeyer

COMBINADO: DIVIDA-SE A BELEZA


Walter Gropius


Oscar Niemeyer conta qual foi a reação do colega Walter Gropius depois de conhecer a Casa das Canoas, que aparece no post acima. Está no livro de Marcos Sá Corrêa citado posts abaixo. Fala, Oscar.

Ele veio, olhou bem e me disse que era bonita, mas pecava por não ser um projeto "multiplicável". Eu faço uma casa para mim, do tamanho da minha família, moldada ao terreno de São Conrado, aberta para a mata da Floresta da Tijuca, filtrando o sol do Rio de Janeiro, e Gropius queria que fosse multiplicável. Só para não sair sem ter falado uma besteira.

DOIS, UM PERNAMBUCO






A LUZ EM JOAQUIM CARDOZO
João Cabral de Melo Neto


Escrever de Joaquim Cardozo
Só pode quem conhece
Aquela luz Velásquez
De onde nasceu e de que escreve.

A luz das várzeas da Várzea
Onde nasceu, redonda,
Vem até o ex-Cais de Santa Rita
Que viveu: luz redoma,

Luz espaço, luz que se veste,
Leve como uma rede,
E clara, até quando preside
O cemitério e a sede.
(Retrato de Joaquim Cardozo por Di Cavalcanti)

... SUPERFÍCIES, TÊNIS, UM COPO DE ÁGUA.





É Oscar Niemeyer quem conta, em página de memórias citada por Marcos Sá Corrêa no perfil que fez do arquiteto:


O estado de saúde se agravava, os doentes do quarto vizinho e até os que eventualmente o procuravam começaram a irritá-lo. E a volta para a Casa de Saúde se tornou cada vez mais difícil. Lembro-me da noite em que se deitou no chão, recusando-se a entrar. Vieram os médicos e Cardozo dizia:
– Vou me afogar.

Delicado, um dos médicos ponderou:

– Doutor Cardozo, aqui não tem água.

E Cardozo, que não perdia ocasião de esclarecer um problema técnico, esqueceu a briga, comentando:

– Cava que encontra.


(in Marcos Sá Corrêa. Oscar Niemeyer. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará / Prefeitura, 1996.)




4 de dezembro de 2008

O ENGENHEIRO SONHA COISAS CLARAS...


Encontraste algum dia
Sobre a terra
O fundo do mar
O tempo marinho e calmo?


Década de 7o. Muito, muito desgostoso, sozinho, muito só desde que, por incompetência alheia, um pavilhão de concreto calculado por ele desabara em Belo Horizonte, matando mais de 60 operários, Joaquim Cardozo embarcou no Recife para estar com Oscar Niemeyer no Rio.

O amigo arquiteto providenciou hotel para o amigo engenheiro, poeta responsável pelo cálculo estrutural da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, do Palácio da Alvorada e da Catedral de Brasília. Debruçado sobre o mar de Copacabana, Joaquim passava os dias no escritório do velho companheiro. À noite, Oscar o acompanhava até o hotel. Iam pela calçada. Jantavam. Trocavam impressões, idéias, recordações...

Não tocavam no assunto, mas, calados, lembravam "com íntima revolta" o acidente que desgraçara a vida do pernambucano e virara "objeto de exploração tão sórdida", como conta Niemeyer.

A rotina entre as pranchetas que os visionários diriam em balanço sobre as areias do Posto 6 e o quarto de hotel ali perto teve fim quando Joaquim precisou ser internado numa clínica do bairro de Botafogo. O engenheiro calculista que poetava em mandarim já não cabia na hospedaria. Mas tampouco haveria espaço dentro dele para um setor de psiquiatria.


Então, há 30 anos, um mês e um nascer do sol, morria no Recife o poeta nascido da "luz Velásquez", engenheiro que inspirou num conterrâneo inimigo da inspiração os versos em epígrafe.

3 de dezembro de 2008

MARIO QUINTANA; "VINDE, CORVOS, CHACAIS, LADRÕES DA ESTRADA!"

DO SITE www.geneton.com.br:


"O PROLETÁRIO É UM SUJEITO EXPLORADO FINANCEIRAMENTE PELOS PATRÕES E LITERARIAMENTE PELOS POETAS ENGAJADOS"

CINCO VERSOS DE MARIO QUINTANA (Alegrete, RS, 1906):

1. “Ai de mim/Ai de ti, ó velho mar profundo/Eu venho sempre à tona de todos os naufrágios”.

2. “A vida é um incêndio/nela dançamos, salamandras mágicas/Que importa restarem cinzas/se a chama foi bela e alta?/Em meio aos torós que desabam/cantemos a canção das chamas!/Cantemos a canção da vida/na própria luz consumida...”

3. “Um poema como um gole d’água bebido no escuro/Como um pobre animal palpitando ferido/Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna/Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema/Triste/Solitário/Único/Ferido de mortal beleza”

4. “Da primeira vez em que me assassinaram/perdi um jeito de sorrir que eu tinha/Depois, de cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha...”

5. “Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!/Ah! Desta mão, avaramente adunca,/Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!”

E VINTE E TRÊS RESPOSTAS:

Qual deve ser o primeiro compromisso da agenda da vida de um poeta?

QUINTANA: "O primeiro compromisso deve ser: não parar de poetar. Não parar de viver intensamente"

O senhor diz que gosta de fazer projetos a longo prazo, para “desafiar o diabo”. Que último desafio o senhor lançou?

QUINTANA: "O último desafio foi uma viagem – gorada – a Paris. O próximo, já em execução, é aprender a falar inglês. Eu era apenas tradutor de francês da Editora Globo. Aprendi, sozinho, a língua inglesa numa gramática, para traduzir. Mas apenas lia o que estava escrito, sem saber a pronúncia. Agora, estou lidando com um curso de inglês da Inglaterra por meio de fitas cassete. O primeiro tradutor de Virginia Woolf no Brasil fui eu. A tradução foi bem recebida pela crítica".

O escritor Erico Verissimo dizia que “Quintana é um anjo que se disfarçou de homem”. O senhor tem algum reparo a fazer à observação?

QUINTANA: "Tenho. Sempre desejei ser exatamente o contrário: uma espécie de diabo"

Qual a grande compensação que a poesia dá a quem a escreve?

QUINTANA: "Minha grande compensação é ter, às vezes, conseguido pegar a poesia nuínha em flor. Mas é difícil! (ri)"

Críticos já notaram que o senhor tem uma preferência especial pelas reticências. É verdade que prefere as reticências aos pontos finais?

QUINTANA: "Considero que as reticências são a maior conquista do pensamento ocidental, porque evitam as afirmativas inapeláveis e sugerem o que os leitores devem pensar por conta própria, após a leitura do autor"

O senhor diz que, ao escrever, “pergunta mais do que responde”. Qual a grande pergunta que o senhor não conseguiu ver respondida até hoje, aos oitenta e dois anos?

QUINTANA: "O essencial é a gente fazer perguntas. As respostas pouco importam"

Se a poesia, segundo suas palavras, “é uma loucura lúcida”, todo bom poeta deve ser necessariamente louco, ainda que lúcido?

QUINTANA: "Creio que é na Bíblia que foi escrito que todos nós temos um grão de loucura. O poeta deve ter esse grão de loucura, mas não necessariamente estar num grau de loucura"

O senhor já se confessou simpático à restauração da monarquia no Brasil. A notícia de que será promovido no início dos anos noventa um plebiscito para decidir se o Brasil deve ser monárquico ou republicano anima-o? Que cargo gostaria de ocupar no Brasil governado por um Rei?

QUINTANA: "É claro que nenhum! Eu não desejaria ser o Poeta da Coroa. A melhor receita para fazer um mau poema é fazê-lo de encomenda"

Além de poeta, o senhor é tradutor de obras clássicas, como vários volumes de Marcel Proust. Que semelhança pode existir entre o trabalho de tradução e o ofício da criação poética?

QUINTANA: "Há sempre uma diferença entre tradução literal e tradução literária. Creio que a tradução de um autor é, nada mais, nada menos, a estréia desse autor na literatura da língua para a qual ele foi traduzido. Daí, a responsabilidade enorme de traduzir um Proust, um Voltaire, gente assim"

O senhor já chegou a trabalhar simultaneamente na preparação de cinco livros. Em algum momento da vida se sentiu tentado a deixar de escrever?

QUINTANA: "Sempre estou escrevendo, em prosa e em verso.Venho trabalhando em quatro livros.Cinco é demais! Nunca pensei em deixar de escrever, porque é a única coisa que sei fazer na vida".

Qual o grande medo do poeta Mario Quintana hoje?

QUINTANA: "Tenho medo de dizer"

O senhor, segundo notou o autor de um artigo publicado pela revista ISTOÉ, "nada tem: nem casa, nem mulher, nem dinheiro, nem família". Tanto desapego foi escolha pessoal ou aconteceu à revelia do que o senhor desejou ?

QUINTANA: "Catastrófico o autor, para mim desconhecido, dessa coisa publicada na ISTOÉ. O certo é que elas não tiveram tempo...E agora,no fim da picada, acho preferível a solidão sozinho à solidão a dois. Quero a solidão sozinho!"
(Enclausurado num quarto de hotel em Porto Alegre, Mario Quintana tinha uma mania: escrever a mão textos que, só depois, eram datilografados pela secretária Mara Cilaine, guardiã do poeta)

O senhor já declarou que "o proletário é um sujeito explorado financeiramente pelos patrões e literariamente pelos poetas engajados". Em algum momento, o senhor acreditou que a poesia poderia mudar o mundo ?

QUINTANA: "Para mudar o mundo, caberia ao poeta candidatar-se a vereador,a deputado ou a outro cargo assim- e não fazer poemas que as classes necessitadas não têm tempo de ler. Ou não sabem ler.É verdade que Castro Alves influiu na abolição da escravatura. Mas acontece que Castro Alves era genial. Já nós temos apenas algum talento...."

O senhor é autor de uma sugestão original: a nação lucraria se pudesse escolher livremente os ministros - e não apenas o presidente. De onde nasceu essa constatação ?

QUINTANA: "Não me lembro de ter feito tal sugestão. Mas agora gostei! O povo poderia influir mais diretamente no Executivo - que não ficaria só com o presidente e seus amiguinhos..."

O senhor escreveu que a poesia é a "invenção da verdade". Conseguiu inventar todas as verdades que queria através da poesia ?

QUINTANA: O que meu cérebro lógico pensa não é exatamente o que pensa a parte não lógica do cérebro. Além da mera geometria euclidiana, existe a geometria não-euclidiana. Isso parece meio confuso, mas me faz lembrar uma verdade que escrevi um dia: a poesia não se entrega a quem sabe defini-la".

Aos oitenta e dois anos, o senhor é otimista ou pessimista diante do destino do homem neste fim de século?

QUINTANA: "Sou otimista. Há mais liberdade de expressão e mais comunicação. Não há, como nos meus tempos de menino, aquela proibitiva divisão entre as faixas etárias"

Num livro lançado há exatamente quarenta anos, Sapato Florido, o senhor escreveu que “os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas. Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios dos jornais”. Qual foi, então, o melhor anúncio que o senhor já leu?

QUITANA: "Não sei se foi o melhor, mas o mais divertido foi este: “Alugam-se duas salas para mulheres bem-arejadas”. Ler os pequenos anúncios, em todo caso, é pôr-se em contato com as necessidades do povo"

Saber que “o vôo do poema não pode parar”, como o senhor diz em “O Vento e a Canção”, é um consolo para quem escreve?

QUINTANA: "Para quem escreve, saber que o vôo do poema não pode parar é sinal de que a vida continua deslizando, apesar dos solavancos"

O poema “No Meio do Caminho”, escrito por Carlos Drummond de Andrade no final dos anos vinte, foi ridicularizado e bastante criticado quando surgiu. O senhor, no entanto, incluiu o poema entre os que gostaria de ter escrito. De que maneira o senhor reagiria às críticas que foram feitas ao poema?

QUINTANA: "Quando alguém pergunta a um autor o que é que ele quis dizer, um dos dois é burro..."

Se "os caminhos estão cheios de tentações", qual a grande tentação do poeta Mario Quintana hoje ?

QUINTANA: "Os caminhos continuam cheios de tentações. Mas.....cabem,aqui, reticências"
Os jovens poetas sempre esperam ensinamentos dos mais experientes. Se um poeta de vinte anos pedisse um conselho a Mário Quintana, que resposta o senhor daria a ele ?

QUINTANA: "Que ele não exigisse conselho de ninguém - e seguisse o próprio nariz"Quem - ou o quê - atravanca o caminho do senhor hoje ?

QUINTANA :"Ah, a popularidade!"

E sobre a Academia Brasileira de Letras ?(N: Quintana foi derrotado nas três vezes em que tentou entrar para a Academia). O senhor não quer dizer nada ?
QUINTANA: "Não. Nem para dizer que não pretendo falar"

(1987)

2 de dezembro de 2008

O ENGENHEIRO SONHA COISAS CLARAS...



“O que mais me marcou na vida foi alcançar a compreensão de ter vindo de uma sombra, e de estar agora me dirigindo para uma outra sombra que suponho não ser a mesma de onde vim.”

Joaquim Cardozo, em entrevista ao Jornal do Commercio do Recife em julho de 1973

24 de novembro de 2008

ANÚNCIO FÚNEBRE : OS JORNALISTAS ESTÃO ENTERRANDO O JORNALISMO

Texto de Geneton Moraes Neto, no site http://www.geneton.com.br/ :


Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de "crise econômica", eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

O jornal é de São Paulo.Poderia - perfeitamente - ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro.Eu disse "notícias interessantes" ? Em nome da verdade,retiro o que disse.

Pelo seguinte: não sou nenhum fanático por informação, não passo quatorze horas por dia conectado, não sou desses jornalistas que, à falta do que fazer na vida, acham que não existe nada sob o sol além do jornalismo. Em suma: considero-me apenas um consumidor mediano de notícias. Ainda assim, eu já sabia de noventa e cinco por cento do que aquele jornal tentava me dizer na primeira página.

O que o jornal me dizia, nos títulos ? Que o São Paulo "abre cinco pontos sobre o Grêmio". Que novidade! Qualquer criança de dois anos que tivesse passado diante de um aparelho de TV na véspera já sabia. Nem preciso falar da Internet. "Chuvas em Santa Catarina matam 20". Que novidade! "Obama divulga nomes de cargos-chave". Que novidade! "EUA podem injetar até US$ 100 bi no Citigroup". Que novidade!

Não é exagero: eu já tinha recebido todas essas informações na véspera.

Tive a tentação de voltar à banca, para pedir meus dois reais e cinquenta de volta. Mas, não: resolvi dar um crédito de confiança ao jornal. Quem sabe, como guarda-chuva ele teria uma atuação melhor. Teve.

De tudo o que estava nos títulos da primeira página do jornal, só uma informação era "novidade" para mim: "Brasil será o único país do mundo que não eliminou hanseníase". Conclusão: o jornal estava me oferecendo pouco, muito pouco, pouquíssimo.

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pela mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo ? Em que planeta os editores de primeira página vivem ? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta ? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página ?

Os autores dessas obras-primas ( primeiras páginas que não trazem uma única novidade para o leitor médio!) são, com certeza, jornalistas que temem pelo futuro do jornal impresso.
É triste dizer, mas eles estão cobertos de razão: feitos desse jeito, os jornais impressos estão, sim, caminhando celeremente para o mausoléu. Não resistirão.

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

Em suma: os jornalistas estão matando o jornalismo.

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.


Qualquer criança desdentada sabe que não existe nada tão fácil na profissão quanto "derrubar" uma matéria. Há sempre um idiota de plantão para dizer : "ah, não, o jornal X já deu uma nota sobre esse assunto"; "ah, não, o jornal Y publicou há trinta anos algo parecido" e assim por diante. O resultado desse exercício de trucidamento jornalístico é o que se vê: uma imprensa chata, chata, chata, chata. É raríssimo aparecer um salvador de pátria que pergunte: por que jogar notícias no lixo, oh paspalhos ? Por que é que vocês não procuram uma maneira interessante e original de contar - e oferecer ao publico - uma história ? Haverá sempre uma saída!

A regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

Mas, não. Contam-se nos dedos da mão de um mutilado de guerra os jornalistas que devotam o melhor de suas energias para fazer um jornalismo vívido e interessante. Já os burocratas e assassinos, numerosíssimos, continuam golpeando o Jornalismo aos poucos. Vão matá-lo, cedo ou tarde, é claro.

Não há organismo que resista à repetição dos botes dos abutres ( um dia, quando estiver prostrado à beira de um pedaço de mar verde da porção nordeste do Brasil, farei - de memória - uma lista dos crimes que já vi serem cometidos, impunemente, nas redações. Se tiver paciência para juntar sujeito e predicado, prometo que farei um post. Almas ingênuas podem acreditar que absurdos não acontecem com frequência nas redações. Mas, em verdade, vos digo: acontecem, diariamente. O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco....Quá-quá-quá).


Um detalhe inacreditável: em qualquer roda de conversa numa redação, em qualquer congresso ( zzzzzzzzzzz) de Jornalismo, é possível ouvir que há saídas simplíssimas. Bastaria tomar - por exemplo - providências estritamente "técnicas": em vez de repetir papagaiamente(*) nos títulos aquilo que a TV e a internet já cansaram de divulgar, por que é que os jornais não destacam na primeira página a informação inédita, o ângulo pouco explorado, o detalhe capaz de prender a atenção do coitado do leitor na banca ? Pode parecer o óbvio dos óbvios, mas nenhum jornal faz. Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente. Coitado. Não encontrará. É mais fácil encontrar um neurônio em atividade no cérebro de Gretchen.

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia,sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia "São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio". Por que não algo como "TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO" ou "JOGADORES DO SÃO PAULO PROBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV"? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável - um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas.....o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Quanto ao futebol: com toda certeza, as informações que ficaram escondidas no texto eram mais atraentes do que a mera contagem de pontos que o jornal estampou no título da primeira página! Afinal, cem por cento dos torcedores do São Paulo já sabiam, desde a véspera, que o time disparara na liderança. Não é exagero dizer: cem por cento sabiam. Mas, a não ser os fanáticos por resenhas esportivas, poucos sabiam que o treinador tinha proibido os jogadores de participarem de programas de TV, para evitar comemorações antecipadas. Por que, então, esconder o detalhe mais interessante ? É o que os editores fazem: tratam de sepultar a informação mais atraente em algum parágrafo remoto, lá dentro do jornal. Depois, querem que o leitor saia da banca satisfeito por ter pago para ler o que já sabia....

Estão loucos.

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Mas nem tudo há de se perder. Os jornais podem, perfeitamente, ser usados como guarda-chuva. Fiz o teste. O resultado foi bom: cheguei tecnicamente enxuto ao destino.

(*)Papagaiamente: neologismo que acabo de criar, iluminado por uma inspiração animalesca.

31 de outubro de 2008

O PIT BULL É DÓCIL!!!!!!!!!!

O Sopa de Tamanco pede licença aos caríssimos (e escassos ) leitores para reproduzir, aqui, aquela que é, disparado, a declaração do ano.

Quem frequentou sites jornalísticos nos últimos dias deve ter tomado conhecimento de um escândalo de décima quinta categoria, ocorrido numa boate da zona sul do Rio :

um sub-ator de décima oitava categoria, conhecido dos leitores de revistas de fofoca por se meter em brigas e barracarias várias, tentou agredir a noiva, uma modelo antipaticíssima e arrogante. Uma camareira se meteu entre os dois. O valentão jogou longe a pobre coitada.

O barraqueiro já tinha ameaçado agredir o apresentador um programa de entrevistas da MTV, mas foi devidamente enxotado do estúdio, numa cena que virou sucesso no You Tube.

Pois bem: o jornal "O Dia" desta sexta-feira traz uma declaração do mãe do Pit Bull.

O que disse ela ?

"Meu filho é dócil".

Mãe, como se sabe, diz qualquer absurdo em defesa do filho.

Mas esta declaração merece entrar numa antologia.

O menininho, aquele anjinho chamado Dado Dolabella, é uma doçura. Palavra da mãe!

Quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá.

Termina aqui a incursão do Sopa de Tamanco no submundo das pseudo-celebridades.

A partir de agora, os refletores do site voltam-se para os assuntos realmente importantes, como, por exemplo, o sorriso enigmático de Scarlet Johansson.

MAS... TEM MARCA DE BATOM?

Na semana em que editorias de esporte desperdiçam horas preciosas com uma cueca, vale a pena lembrar uma época em que o negócio dos pilotos era ganhar tempo, ainda que para isso precisassem correr riscos. Destemidos, eles tinham, no entanto, um grande medo, hoje meio sumido: o do ridículo.
Abaixo, um retrato dessa época.




Noite de sábado. À mesa de um restaurante carioca na Avenida Atlântica, com as mãos espalmadas para baixo, ele desenha no ar, com um movimento ondulado e firme, o relevo de uma região paulistana que marcou sua vida. E explica como, toda madrugada, baixava sobre essa região localizada entre duas represas uma neblina densa, muito densa. Ele então fala da pista de corrida que deu fama ao lugar. Quem o ouve viaja no tempo e no espaço: autódromo de Interlagos, final da década de 50. E presta atenção ao que ele vai começar a contar. Trata-se de saber como ele conseguia abrir caminhos tão velozes através da cerração que tapava a vista de todos os pilotos, menos a dele. Bird Clemente: eis o nome do comandante daqueles vôos noturnos e quase cegos.

Ídolo de campeões como Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, Bird marcou época no automobilismo brasileiro. Veloz, arrojado, habilidoso, dedicado, talentoso, audaz... A crônica esportiva enfileirava adjetivos para fazer jus ao volante campeão, enquanto ele deixava atrás de si filas de carros, alguns até mais potentes do que seu DKW ou sua berlineta Interlagos. “Berlinette”, como Bird prefere chamar.

Bird Clemente prepara para 2008 um livro. É garantia de boas e bem contadas histórias, por quem as viveu e construiu. Mas nosso piloto não é só passado. Ainda ligado ao automobilismo e atento, ele acompanha, por exemplo, o desenvolvimento tecnológico na Fórmula 1. Mas lamenta o fato de muitos dos pilotos dessa categoria terem se transformado em meros “operadores de instrumentos”. “Hoje, muitos se escondem atrás do equipamento”, diz. E critica a ausência de risco nos autódromos muito travados, a falta de emoção. “Ninguém vai a uma tourada para ver o toureiro enfrentar um touro sem chifre”, conclui.

De volta à beira-mar. Muitos causos, dois chopes e um espaguete à bolonhesa depois, Bird deixa o restaurante Fiorentina. Já passa da meia-noite; logo mais, ele será homenageado no Alto da Boa Vista pelos 70 anos de idade que completa em 23 de dezembro. Precisa descansar: menos de 12 horas atrás, encarou a Via Dutra em direção ao Rio. Mas o papo ainda continua, enquanto Bird caminha pelas calçadas do Leme até o carro estacionado junto à praia. Ele fala de motores e saudades, camaradagem e truques, pilotos e pistas.

Bird Clemente entra no carro, mas é de carona que ele vai até o hotel, no Posto 6. Nada de punta-taccos ou derrapagens controladas – os power slides em que era mestre. Segue na frente. E, na madrugada que avança, Copacabana parece cobrir-se de uma neblina densa, muito densa. Como naquele autódromo paulistano.

(Na foto, o volante Bird Clemente toca um Bino Mark I no autódromo de Jacarepaguá no final da década de 60.)

27 de outubro de 2008

SHIRLE, A DONA DA VOZ

Depois não digam que não avisei: há uma grande voz na praça, pronta a explodir. Nome: Shirle de Moraes. É gaúcha. Canta belíssimamente bem.

"San Vicente" é um "clássico" da dupla Milton Nascimento-Fernando Brandt. Quando já se achava que, tanto tempo depois, ninguém seria capaz de cantar "San Vicente" com tanta beleza, tanta força e tanto talento, eis que Shirle aparece para dizer que não é bem assim. É possível, sim, recriar "San Vicente" com uma interpretação arrebatadora.

Como se fosse pouco, a dona da voz é linda.

Que os locutores de todos os estádios tratem de gritar: é gol de Shirle !

Acorda, torcida brasileira: um novo, grande e belo nome acaba de entrar em campo!





PS: A voz de Shirle pôde ser ouvida na reportagem sobre os médicos que fizeram, quase quarenta anos depois,a festa de formatura que tinha sido proibida pelo regime militar:


http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL837728-15605,00-FORMATURA+DEMOROU+ANOS+PARA+ACONTECER.html

26 de setembro de 2008

EMBATE CLÁSSICO NA TV

— Nesse momento, os dois contendores adentram a arena. À direita de sua tela, Aristófanes, vestindo sua habitual pele branca com pêlos claros. E, à esquerda, Virgílio, com sua pele mais escura, de pêlos negros. Alguma informação, Tucídides?
— Bom dia, Tito Lívio, eu estou aqui com o veterano Aristófanes, que tenta manter a coroa de louros. Ari, o que você espera da luta de hoje?
— Só digo o seguinte: vou bater tanto que nem com toda a maiêutica Sócrates vai conseguir tirar os dentes de dentro dos pulmões.
— Bom, bem… Mas… Seu contendor é Virgílio…
— Tanto faz. Adversário é que nem discurso de Cléon: tudo igual.
— Virgílio se diz bem preparado e garante que entrará em Roma em triunfo.
— Retórica barata. Vou fazê-lo cair das nuvens. De tanto apanhar, vai sair daqui se sentindo uma rã. Vou esmagá-lo como uma vespa. Nunca mais vai encontrar a paz. Quando vir seu estado, sua mulher vai fazer uma greve de sexo. Em suma, vão acabar dizendo que ele é mais efeminado que Eurípides.

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Julian Gough

Novelists need a range of modern, enlightened patrons. A bunch of Borgias. We need a system (online, worldwide) to match patrons and artists, setting out mutual obligations, allowing different models to be tried. The university system is doing her best, trying to be a nourishing mother (the original meaning of alma mater), but she's smothering her most beloved children.

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DOIS PERSONAGENS EM BUSCA DE SE LIVRAR DE UM AUTOR

Muito se glosa (com “l”, que é quando se glosa mais glostoso) a questão…
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Muito se glosa — dizia eu, antes de ser interrompido pelo idiota que escreve os parênteses deste blog e que, tão-logo o encontre na região de minha psique onde se oculta há mais de trinta anos, extirpá-lo-ei com mesóclise, Id e tudo — a questão do…

Perdão. Exaltei-me. Muito se glosa, repito (se repetir mais uma vez, eu volto), deixando no parágrafo anterior o segundo imbecil da variada fauna de pascácios que em minh’alma habita, adepto do travessão, e que igualmente me impede de prosseguir com o texto, o que me…
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Bom, esqueçam. Dizia que muito se glosa (eu avisei! O sujeito usa um recurso literário pobre como esse do monólogo interior, que impregna horrivelmente nossa baixa modernidade e ainda tem coragem de chamar alguém de idiota! E outra: fique sabendo que a azêmola, no caso, inserida em minha mente, é você, e não o contrário)…

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