12 de dezembro de 2007
PULHAS
"Conselho desinteressado de uma ruína quase cinquentenária (o locutor que vos fala): não levem a sério gente que, para parecer importante, vive arrotando suposta intimidade com personalidades importantes. São uns pulhas, na maioria dos casos. É melhor pedir a conta, dar uma gorjeta ao pianista, fechar a porta e ir embora em silêncio."
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A PROPÓSITO DE DUCHAMP
Então, estudantes de sociologia com suas bolsas de couro e sandálias de dedo entrariam numa galeria repleta de pedaços de lixo, garrafas, vibradores enfiados em torradeiras enferrujadas, anões mancos copulando com obesas paralíticas e outras atrações comumente expostas em bienais, mas em vez de porem caras de mais burros tentando parecerem eruditos, cairiam no chão, embolando de rir. E comentariam ao final: “Aquele acordeão furado sobre o banquinho com pintas roxas estava hilário".
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11 de dezembro de 2007
BEÓCIO DE PAI E MÃE
Ele cantou as origens e dinastias dos deuses; descreveu a criação do universo; honrou o esforço no trabalho. Mostrou isso e aquilo e mais aquilo outro: um catálogo de lições. Didáticos, seus poemas eram reverenciados como manuais de conduta e logo viraram uma espécie de suma do saber prático.
Versado em assuntos humanos e divinos, ele figura, ao lado de Homero, entre os educadores do povo grego. Fato raro, alcançou fama e respeito em vida.
Nada disso, porém, importava para Heráclito, para quem "o mestre da maioria" era... curto de inteligência. De que gigante estamos falando? Dele mesmo: Hesíodo, o beócio. As pessoas o tomavam como o grego que mais coisas sabia. "Ele que nem sabia distinguir o dia da noite", diz Heráclito.
O MUNDO É DOS IDIOTAS - 3
Não passou. Os ponteiros andaram em 2007 com a mesmíssima velocidade do ano passado e do ano que vem.
Mas eles insistem em dizer, em coro, que o ano passou depressa. Vão terminar nos convencendo.
O MUNDO É DOS IDIOTAS - 2
Vem sempre acompanhado de um idiota.
A MEDIDA DE DECADÊNCIA DE UM BLOG
que os textos do sr. Nicomar Lael iriam acrescentar brilho, vivacidade, humor e esperteza a este espaço. Não acrescentaram.
Como se fosse um jogador que tropeça espetacularmente assim que pisa no gramado, o sr. Nicomar escolheu ópera como assunto de suas primeiras investidas, porque queria parecer culto e ilustrado.
Capotou.
Por que ele não discorre, por exemplo, sobre os acordes primários do baião ou os versos toscos das emboladas, dois ritmos primitivos que ele se habituou a ouvir desde os tempos em que, bebê, comia macaxeira pensando que estava bebendo leite ?
O nome - Nicomar - denuncia a origem. Deve ser um daqueles híbridos que misturam nome do pai e nome da mãe, um tipo de "poesia concreta" que viceja nos bolsões mais pobres e mais áridos do Brasil nordestino.
Imagino que o nome do pai do sr. Nicomar seja o sr. Nico. E a mãe, a sra. Mar.
Peço, então, ao sr. Nico e à sra. Mar que impeçam o sr. Nicomar de cometer vexames como o que cometeu ao escrever estultices sobre ópera.
Declaro encerrada a polêmica. E repito que não há nomes intocáveis neste espaço. A cada ação deletéria do sr. Nicomar haverá uma reação à altura.
O Sopa de Tamanco não merece tal destino: o de ir para o brejo guiado pelo passo vacilante de um neologismo chamado Nicomar.
ATENÇÃO, SENHORES PAIS, PELO AMOR DE DEUS, TODO CUIDADO É POUCO,PROTEJAM AS CRIANÇAS: VEM AÍ UM FILME DA XUXA, CHEIO DE MENSAGENS "ECOLÓGICAS"!
Do blog de Walter Carrilho:
"Xuxa, mensagens ecológicas e atores mirins. Você consegue imaginar programa melhor para se fazer em um domingo? Eu pensei em velório, e você?"
(aqui: http://waltercarrilho.blogspot.com)
"MONSTRUOSA, INFINITA, ILÓGICA, ABRUPTA, LANCINANTE"
“A vida é monstruosa, infinita, ilógica, abrupta e lancinante. Uma obra de arte, em comparação, é uma coisa bem-feita, finita, contida em si própria, racional, fluida e transfigurada. A vida se impõe pela sua energia bruta, inarticulada como a de um trovão. A arte seduz o nosso ouvido, por entre os ruídos mais altos de nossa experiência diária, como os sons produzidos por um músico discreto"
(aqui: http://antoniofernandoborges.com/)
ZEUS E DEUS
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SILÊNCIO DA OVELHA
10 de dezembro de 2007
SÓCRATES, JESUS E O PREPÚCIO
— Por que vocês gregos têm essa mania de tirar a roupa o tempo todo, hein? Será possível que vou ser obrigado a ficar vendo o teu não-circuncidado aí?
— Grande coisa!
— Grande? É fácil dizer isso quando se tem prepúcio. Queria ver você diante de São Serapião.
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CAUSA MORTIS: PIOLHOS
O que é, o que é? Tudo o que vemos e pegamos nós deixamos para trás; tudo o que não vemos nem pegamos carregamos conosco.
Interpelado, o maior dos poetas, educador dos helenos, calou. E não porque quisesse, pode-se especular. Teria tentado, até não mais poder, decifrar o enigma. Mas, se quebrou a cabeça, a história não registrou que de sua cachola tenha saído qualquer deusa da sabedoria. Se ficou com uma pulga atrás da orelha, não se sabe. Mas dizem que a incapacidade de descobrir o que era claro para qualquer garoto desencadeou no Poeta uma angústia tão... homérica, que ele morreu.
Quase dá para ouvir o desdém de Heráclito: “Os homens se enganam no reconhecimento do que é óbvio, como Homero.”
SERIA MACHADO DE ASSIS INGLÊS?
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SÓCRATES E JESUS
Mas, experimentado em dialética desde os tempos de Ulisses, o mar o envolvia com líquidos argumentos por todos os lados e o fazia debater em vão. Ao final da peleja oratória, teria findado fatalmente por calar o filósofo. Isso, caso Jesus, que via a cena de longe, não tivesse falado:
— Levanta-te e anda!
— Ha! — respondeu o filósofo, ainda se afogando. — Pra você é fácil falar. Mas eu sou cético.
— Não, sua besta! Não se trata de milagre. É que a gente tá no raso. Já dá pé.
— Ah... — sorriu amarelo o zetético, cessando o desespero e fazendo em seguida o que o Mestre lhe havia dito.
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9 de dezembro de 2007
Rauschenberg: o picareta!
Numa das salas vi um objeto e pensei, uau!, pelo menos algo se salvou, está bem torneado e pintado. Chego perto. Era um extintor de incêndio. Perguntei à moça que lá trabalhava. Não, não fazia parte da exposição. Eu: ah, bem, está explicado.
Deve ter algo de muito errado numa exposição de arte cuja melhor obra é o extintor de incêndio do local.
Impressões de Lisboa
Estou em Lisboa desde 17 de outubro. Constato: há muitos brasileiros em Portugal. Não, mais: há brasileiros em excesso em Portugal. Vê-se o brasileiro imigrante há quilômetros de distância: é o que fala e ri mais alto; e o que cheira a Leite de Rosas. Conversei com alguns imigrantes que reclamaram de preconceito dos portugueses. O português médio e mais velho é tão preconceituoso e chato como o dos demais países. Ou você nunca teve um vizinho intolerável? De um sensanto imigrante brasileiro ouvi a seguinte sentença: “boa parte dos preconceitos contra os brasileiros foram provocados pelos próprios imigrantes brasileiros. Daí sofre todo mundo”.
Mas, divago. Voltando à vaca fria, o grande problema dos imigrantes brasileiros que vêm para cá ganhar a vida e mandar dinheiro para o Brasil é não estarem nem aí para a própria educação numa fase em que poderiam fazê-lo. Passam a ganhar melhor, trazem os filhos, compram carro novo e nada de se educarem. Nem digo educação formal. Falo de aprender sobre o país, provar novas comidas, bebidas, conhecer outros países, pessoas, culturas. Nadica de nada.
O que se faz, normalmente, é tentar criar um Brasil virtual em seus guetos, mesmo que os guetos sejam as próprias casas. Investem tempo e rendimentos nos famigerados churrascos de fim de semana em que o pagode é consumido em abundância com carne e cerveja. Falo dos imigrantes brasileiros em Portugal, mas lembro dos imigrantes brasileiros nos EUA, por exemplo, que sequer aprendem o inglês. E se você entra no perfil do Orkut estão todos lá exibindo seus carros novos e fotos de… churrascos com outros brasileiros. A Europa está muito preocupada com o avanço dos muçulmanos no Ocidente e se esquecem o grande perigo representado pelos imigrantes brasileiros que fazem churrasco com pagode no fim de semana. Imagine se esse negócio contamina toda a sociedade e, daqui a dois séculos, a Europa vire um grande pandeiro fedendo a carne queimada. Deus seja louvado.
Há imigrantes de outros países que se comportam de maneira bárbara? Sim, claro, já ouvi falar, mas não os conheço. E não os quero conhecer, ok?