21 de janeiro de 2009

ANIMAR PASPALHOS NA DISNEY É SINAL DE INTELIGÊNCIA SUPERIOR OU DE ESTUPIDEZ INCURÁVEL ?

A sala de espera de um laboratório exibe, ad infinitum, um documentário sobre animais marinhos.

O locutor informa que os golfinhos são "muito inteligentes".

Imediatamente, uma dúvida devastadora sacode meus mares interiores:

quais são, afinal, os tão falados sinais de inteligência dos golfinhos ? Passar a vida se movimentando pra lá e pra cá no fundo do mar, sem destino certo, é sintoma de inteligência refinada ?

Pior: que tal ficar divertindo platéias de paspalhos na Disney ?

É o que os golfinhos fazem, há décadas, sem reclamar.

Cabe a pergunta: tais atitudes não seriam indícios claríssimos de estupidez ?

Eu cravaria, sem dúvida nenhuma: são, sim.

ATENDIMENTO TELEFÔNICO DO BANCO DO BRASIL BATE RECORDE MUNDIAL DE JUMENTALIDADE : "CLIENTE NASCEU NO RECIFE, NÃO EM PERNAMBUCO!"

O Sopa de Tamanco corre o risco de se transformar num grande muro das lamentações sobre a estupidez alheia.

(aliás, por que não ?)

O abaixo assinado acaba de ser vítima do mais espetacular caso de ignorância já registrado num atendimento telefônico de um banco.

A atendente do Banco Brasil faz as perguntas de praxe, em nome da "segurança" do cliente.

Lá pelas tantas, interrompe o atendimento. Diz que tenho de ir à agência. "Há um dado que não coincide com o cadastro".

Uma dúvida assola este pobre cliente: que erro tão absurdo eu terei cometido ? Terei me esquecido do meu nome ? Terei dado o número de telefone errado ? Terei confundido o nome da minha mãe ?

Peço que a atendente me informe qual foi o meu erro. Mas ela insiste: terei de "comparecer pessoalmente" a uma agência.

Compareço. Perco uma hora do meu tempo.

O gerente acessa o registro do atendimento feito por telefone.

E eis que se materializa diante de nossos olhos incrédulos um dos mais formidáveis casos de jumentalidade(*) já cometidos por uma atendente:

lá, ela informa que o atendimento tinha sido interrompido porque eu informei que tinha nascido "do Recife". Mas, no cadastro, consta que eu tinha nascido "em Pernambuco".

Ou seja: a distinta anta acha que existe uma cidade chamada Recife e outra chamada Pernambuco.

Nem desconfia de que quem nasce no Recife nasce, "automaticamente", em Pernambuco!

Célere, ela interrompeu o atendimento.

Não pude fazer a operação bancária por telefone simplesmente porque a cavalgadura acha que Recife é uma coisa; Pernambuco é outra, completamente diferente.

A bem da verdade, devo dizer que notei uma sombra de constrangimento no olhar do gerente que me atendeu pessoalmente: ele também ficou espantado ao descobrir que um atendimento telefônico fora interrompido porque uma funcionária achou que "Pernambuco" era o nome de uma cidade e "Recife" de outra.

Agora, quando precisar do atendimento telefônico, passarei a relinchar assim que ouvir o "alô" do outro lado.

Somente assim serei perfeitamente compreendido.

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(*) Aos não familiarizados com o reino animal: "jumentalidade" é uma gradação da "cavalice". A diferença é que a cavalice em geral vem acompanhada de maus modos.
Já a jumentalidade é uma demonstração escandalosa de ignorância: pode ser exercida da maneira mais suave possível, como é o caso da atendente que tomou providências urgentes porque achava que Recife não fica em Pernambuco.

20 de janeiro de 2009

JORNALISTA É AQUELE BICHO QUE ESCREVE (OU DIZ) "O ÓCULOS", FAZ TROCADILHOS INQUALIFICÁVEIS - E SE ACHA O MÁXIMO....A PLATÉIA PEDE LICENÇA PARA RIR

O abaixo assinado vem oferecer solidariedade irrestrita à campanha do Sopa de Tamanco contra a ignorância de jornalistas que escrevem "um óculos", "o óculos, "meu óculos" (e outros absurdos parecidos).

De tão repetido, o erro terminará entronizado, com toda justiça, no já lotadíssimo Grande Panteão da Ignorância.

Já vi repórter cobrindo evento internacional dizendo "o óculos" ao vivo.

Descobri faz séculos. Hoje, tenho certeza absoluta: não existe, na face da terra, profissão que reúna gente tão pretensiosa.

Se jornalistas pretensiosos oferecessem ao coitado do público um trabalho de alto nível, se fossem capazes de construir frases realmente legíveis, se tivessem o poder de exercer uma mínima originalidade, se conseguissem articular uma pergunta decente a um entrevistado, eu me calaria por todos os séculos & séculos.

Mas, não. Jornalismo é uma profissão habitada por gente que diz e escreve "o óculos" ou, em momentos de intensa inspiração, faz trocadilhos inqualificáveis. E se acha o máximo!

Em duas palavras: não dá.

Como diria o confrade Tom Carneiro, "quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá-quá".

Resta-nos rir desbragadamente.

Não há outra saída.

Faço uma confissão íntima e inútil: deixei de voltar a um oculista que disse "o óculos" durante uma consulta.

Pensei com meus esfarrapados botões: como confiar meus olhos a um médico que não sabe usar o plural ?

Não voltei.

Eu me lembrei de uma antiga entrevista que fiz com o escritor Autran Dourado. Lá pelas tantas, ele dizia que não confiava num médico ou num engenheiro que não
soubesse manusear a língua com um mínimo de habilidade.

O escritor argumentava : se um profissional supostamente qualificado - como um médico - não sabe como usar as palavras, não saberá manusear um bisturi, por exemplo.

A dúvida é legítima.

Uma vez, numa longa entrevista que me concedeu, o jornalista Evandro Carlos de Andrade fez uma confissão interessante: disse-me que parava imediatamente de ler uma notícia de jornal quando o redator (ou repórter) cometia algum absurdo.

O raciocínio do experientíssimo jornalista: se o autor daquele texto é incapaz de respeitar as regras básicas da escrita, não é confiável como fonte de informação. Ponto.

Corretíssimo.

19 de janeiro de 2009

A CAMPANHA NACIONAL DO SOPA DE TAMANCO CONTRA A IGNORÂNCIA DOS JORNALISTAS - LOGO ELES, QUE VIVEM RECLAMANDO DE LEITORES IGNORANTES....

A cena ocorreu sábado. Há testemunhas. Um grande site jornalístico publicou, com todo destaque, no alto da capa, uma manchete que trazia o erro infame: "um óculos".

( Abre parêntese. O Sopa de Tamanco vem, há tempos, fazendo uma inútil campanha contra a disseminação deste erro crasso: quem escreve "um óculos" simplesmente não sabe o que é plural ou singular. Porque escrever "um óculos" é a mesmíssima coisa de escrever "uma casas" ou "um carros".

Tais demonstrações de ignorância, típicas de quem habita o já superpovoado território da Burrolândia, soariam engraçadas se saídas da boca inocente de uma criança de dois anos e meio. Mas, cometidas por jornalistas, são de fazer chorar.

Como um profissional pago para zelar pela língua ( sim! é esta uma das funções de quem fala e escreve em público!) pode ignorar que uma das palavras mais usadas do idioma exige o artigo no plural ? Fecha parêntese).

Pois bem: a Patrulha da Sopa de Tamanco teve a imensa pachorra de telefonar para o plantão do site para dizer que o redator tinha cometido um erro colossal na manchete.

Uma voz de mulher atende. O patrulheiro do Sopa diz: pega mal, malíssimo um site tão visitado expor, na manchete, tal barbaridade: "um óculos!".

A moça faz um silêncio do outro lado da linha. Devia estar pensando: "Que leitor ignorante!".

De repente, pronuncia a frase que pode ser tomada, desde já, como o epitáfio do jornalismo virtual do Cone Sul da América:

- Mas aqui a gente usa assim: é "o" óculos....

Fuzilado pela resposta, o patrulheiro do Sopa de Tamanco escapa por pouco de ter um enfarte fulminante mas ainda encontra, em suas florestas interiores, fôlego para argumentar com a moça: dizer coisas como "um óculos", "o óculos", "meu óculos" não é errado: é erradíssimo! Pegue um dicionário para ver!

A moça agradece. Desliga o telefone.

Com toda certeza, deve ter ido consultar o dicionário ou, quem sabe, teve a modéstia de perguntar a um vizinho de mesa.

Cinco minutos depois, o título foi consertado. O site baniu o "um óculos" da manchete. Um novo título, com o artigo no plural diante da palavra óculos, foi prontamente parido no plantão de sábado.

A guerra do Sopa de Tamanco contra a GMI, a Grande Marcha da Ignorância que avança, célere, pelas redações, é inglória.

Mas não custa nada soltar tiros - ainda que de festim - de vez em quando.

O locutor que vos fala já viu gente que ocupava cargos de chefia em redações dizer, com todas as letras, coisas como "traz aqui o texto pra mim ver".

Ah, jornalistas....Como já se disse em outro artigo: que gentinha pretensiosa....

Gente que diz "o óculos" e "pra mim ver" deveria,para o bem do Brasil, estar vendendo abacaxi na beira das rodovias.

Jamais, nunca, never, sob hipótese alguma, deveria estar falando ou escrevendo em público. Porque tudo o que estas cavalgaduras fazem é jogar estrume em quantidades industriais em nossas retinas ou canais auditivos jã tão fatigados.

15 de janeiro de 2009

PELO AMOR DE DEUS, QUEM É ISABELI FONTANA ? QUEM É MAURÍCIO PARANHOS ? O QUE FAZ UM SER HUMANO PISAR NUM EVENTO CHAMADO FASHION RIO ?

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

FAZ OITO HORAS QUE O LOCUTOR QUE VOS FALA RI DESCONTROLADAMENTE.

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

O MOTIVO : UMA CENA DESCRITA NO SEGUNDO CADERNO DA EDIÇÃO DE HOJE DE O GLOBO ( 15 DE JANEIRO DO ANO DA GRAÇA DE 2009).

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

UMA NOTA INFORMA QUE A SUMIDADE INTELECTUAL CHAMADA ISABELI FONTANA
(UM DAQUELES SERES BÍPEDES QUE DESFILAM DESENGOÇADOS EM PASSARELAS, SOB OLHARES DE GENTE DESOCUPADA) MANDOU AVISAR, ANTES DE UM DESFILE, QUE NÃO, NÃO FALARIA AOS JORNALISTAS.

OU MELHOR: SÓ RECEBERIA "TRÊS IMPRENSAS POR CINCO MINUTOS" NO CAMARIM.

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

"TRÊS IMPRENSAS" !

O JORNAL INFORMA QUE UM LEÃO DE CHÁCARA IDENTIFICADO COMO MAURÍCIO PARANHOS AVISOU QUE CADA JORNALISTA SÓ TERIA DIREITO A FICAR TRINTA SEGUNDOS DIANTE DA SUMIDADE.

"TRINTA SEGUNDOS, HEIN! NEM UM MILÉSIMO A MAIS!", É O QUE ELE DISSE, SEGUNDO REGISTRA A COLUNA "GENTE BOA".

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

NÃO TENHO A MENOR DÚVIDA: EIS UM INDÍCIO CLARÍSSIMO DO FIM DA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL, TAL COMO SE CONHECIA ATÉ HOJE.

PERGUNTA-SE: EM NOME DE TODOS OS SANTOS, QUEM É ISABELI FONTANA ?

DUVIDO QUE EXISTA, EM TODA A FACE DA TERRA, UM MÍSERO HABITANTE QUE JÁ TENHA OUVIDO UMA DECLARAÇÃO INTERESSANTE OU UMA FRASE ORIGINAL PRONUNCIADA PELA MODELO ( POR UMA QUESTÃO DE JUSTIÇA, DIGA-SE QUE A INANIÇÃO INTELECTUAL É EXTENSIVA A SEUS PARES).

UM JORNALISTA NÃO PRECISARIA PASSAR TRINTA SEGUNDOS DIANTE DA INTELECTUAL FONTANI: AINDA QUE PASSASSE SESSENTA HORAS OUVINDO A ENTIDADE DISCURSAR SOBRE TUDO E SOBRE TODOS, DIFICILMENTE VOLTARIA PARA A REDAÇÃO COM UMA FRASE APROVEITÁVEL.

UM ASSESSOR INFORMAVA QUE A SRA. FONTANA ANDA ARREDIA DESDE QUE SE SEPAROU.

JURO POR SANTA BÁRBARA QUE EU JAMAIS SOUBE QUE ELA UM DIA ESTEVE CASADA - SEJA LÁ COM QUEM FOR.

A BEM DA VERDADE, DEVE-SE PERGUNTAR: QUEM VERDADEIRAMENTE ESTARIA INTERESSADO EM SABER DO ESTADO CIVIL DA SENHORA MODELO ?

MAS, COMO NEM TUDO SE PERDE NESTE CIRCO DE HORRORES, RESTA O HUMOR INVOLUNTÁRIO PRODUZIDO PELOS PERSONAGENS: AS CENAS PROTAGONIZADAS PELA MODELO E PELO LEÃO-DE-CHÁCARA SÃO IMPAGÁVEIS.

"TRINTA SEGUNDOS! NEM UM MILÉSIMO A MAIS!".

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

SE A PERSONALIDADE A SER OUVIDA SE CHAMASSE ALBERT ENSTEIN, OS REPÓRTERES PODERIAM, ATÉ, SE SUJEITAR AO DESCALABRO.

MAS.....FICAR DIANTE DE UMA MODELO POR TRINTA SEGUNDOS NA ESPERANÇA DE OUVIR ALGO DE INTERESSANTE (OU DE ORIGINAL OU DE MEMORÁVEL) É TÃO INÚTIL, TÃO RIDÍCULO E TÃO PATÉTICO QUANTO ENXUGAR GELO.

É UMA CURIOSIDADE QUE CULTIVO HÁ DÉCADAS: QUE TIPO DE GENTE SERÁ ESSA ? DE QUE MATERIAL É FEITO O CÉREBRO DESSAS SUB-CELEBRIDADES E SEUS LEÕES-DE-CHÁCARA ?

UM DIA, DESCOBRIREI.

ENQUANTO O MISTÉRIO NÃO SE RESOLVE, RESTA RIR A BANDEIRAS DESPREGADAS.

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

"TRÊS IMPRENSAS!"

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

"TRINTA SEGUNDOS! NEM UM MILÉSIMO A MAIS!"

QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ-QUÁ.

IN MEMORIAM

Planta baixa do Estádio do Maracanã, com todos os caminhos – invisíveis alguns –que levavam ao gol de Barbosa.


Horas depois do jogo, Obdulio Varela correu a noite carioca. Envergando um terno sóbrio (na época não existia o verbo "vestir"), tropeçava aqui e acolá num bêbedo (ainda não tinham inventado o bêbado) que lambia o meio-fio. Parou no Bar Brasil. O bar estava cheio. O bar estava vazio. Mas havia quem vagasse entre as cadeiras como quem procurasse um relógio ainda não inventado. E sem atinar o porquê da busca.

Como recebera o bicho adiantado, el gran capitán pagou uma rodada para todos. Não sem antes pedir licença – para evitar qualquer mal-entendido. Não houve brinde, não houve briga, não houve... O que houve? Não se sabe. Mas consta um garçom, patrício del negro jefe, ter ouvido o que Obdulio balbuciou ao deixar a casa: "Mundo perro." Teria derramado uma lágrima que lhe correu o peito por dentro. Mas sorriu. E um céu cor de tecido se abriu para ele na noite da Lapa.




14 de janeiro de 2009

O ACORDO

Quem conta é o livreiro e editor Alberto Abreu.

O linguista, filólogo e historiador da "inculta e bela" Serafim da Silva Neto tinha uma opinião que gostava de repetir quando o assunto era uniformização ortográfica:

– Não me importa se 'gato' se escreve com x ou com n.
– Mas Serafim, 'gato' é com g!
– Ah é?

POR QUE O BIG BROTHER NÃO OFERECE UM PRÊMIO DE UM MILHÃO DE NEURÔNIOS PARA AQUELES CÉREBROS DESABITADOS ?

Aviso à praça que entrarei em período de hibernação.

Credores, saiam do caminho. Terráqueos, respeitem meu silêncio.

Daqui a quatro meses, quando o Big Brother Brasil tiver terminado, me acordem, por favor.

Por ora, desacordado, estarei livre de ter os tímpanos maltratados pelos gritos de "uh! uh!", pronunciados por aquele aglomerado de sumidades que buscam o prêmio de um milhão de reais.

Uma dúvida embalará meu sono, durante o período de devoção absoluta ao Deus Ócio : um prêmio de um milhão de neurônios não seria mais útil para aqueles cérebros desabitados ?

Com um milhão de neurônios injetados em seus cérebros, os Big Brotheres poderiam, aí sim, fazer alguma coisa de útil à humanidade, aqui fora. Quem sabe, um dia amealhariam um milhão de reais.

Mas rendo-me à força avassaladora dos fatos. O mundo não é assim, oh boy.

Apago a luz, desligo a TV para sempre, desconecto-me.
É hora de recolhimento.

Caminho, cabisbaixo, em direção aos meus aposentos.
Enquanto movo meu aglomerado disforme de ossos,músculos e tédios em direção à cama, pronuncio grunhidos ininteligíveis. Nem eu consigo decifrá-los.

Jogar ao ar imprecações balbuciadas em tom de voz inaudível faz parte do show que há décadas enceno para um único e lastimável espectador : eu mesmo.

Nesta caminhada de vinte e cinco passos, minha única companhia é minha ingenuidade, que há séculos puxo por uma coleira imaginária.

Os dois - eu e minha triste ingenuidade - dormiremos, a partir de agora, um sono profundo, intocado pelos bigs, pelos brothers e pelo Brasil.

Não há felicidade maior.

A PARTE MAIS BELA E COMOVENTE DO LIVRO "O JOGO DA AMARELINHA" É A FRASE FINAL: "COMPOSTO E IMPRESSO NAS OFICINAS DA NOVA FRONTEIRA S/A"

Do blog de Marconi Leal ( http://marconileal.opensadorselvagem.org/ ):



Lucano foi a primeira personalidade propriamente literária de que se tem notícia e o precursor do que conhecemos hoje como mundo artístico. Prova disso é que foi capaz de vender a própria mãe.
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Tenho um amigo que começa O Jogo da Amarelinha na página três, pula para o prefácio, lê as orelhas, vai à quarta capa e daí por diante. Segundo ele, a parte mais bela e comovente da obra é a frase ao final: “Composto e impresso nas oficinas da Nova Fronteira S/A”
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O problema da edição de bolso de Guerra e Paz é que para carregá-la você precisa colocar o bolso dentro de um carrinho de mão.
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Tentaram fazer uma edição de bolso de A Montanha Mágica, mas o máximo que conseguiram foi uma edição de alforje.
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O livro mais complexo que li até hoje foi o manual do motorista do meu carro.
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O que mais admiro em Machado é o domínio da língua. Coisa tanto mais admirável quando se sabe que tinha epilepsia.
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No que dependesse do meu amor a Joyce, o Bloomsday seria comemorado no mesmo dia do Halloween.
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Dizem que as edições dos livros de Paulo Coelho em búlgaro e esloveno são perfeitas: não se entende nada do que está escrito.
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O título de obra literária mais descritivo que conheço é Em Busca do Tempo Perdido. Há anos, pelo menos, tento recuperar o tempo que perdi ao lê-la.
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Meus livros de cabeceira são o Houaiss, o Aurélio e o Vocabulário Ortográfico. Sobre eles coloco o abajur, um copo d’água e os livros que leio antes de dormir.

13 de janeiro de 2009

MUNDO PERRO



Jogávamos pelo empate. Saímos na frente. Veio o segundo tempo; veio o que veio. Mundo cão.

O complexo de vira-latas (Nelson Rodrigues dixit) seria superado oito anos depois. Mas para alguns ainda é impossível falar daquele 16 de julho no Maracanã. Pouco importa se nem viviam à época.

(Na imagem, Friaça abre o score na final da Copa do Mundo de 50.)

12 de janeiro de 2009

FRIAÇA : A PALAVRA DO ÚNICO BRASILEIRO QUE CONSEGUIU MARCAR UM GOL PELO BRASIL NUMA FINAL DE COPA DO MUNDO NO MARACANÃ ! UM SONHO !

O site www.geneton.com.br traz a íntegra do depoimento de Friaça ao repórter Geneton Moraes Neto:

O DEPOIMENTO COMPLETO DO ÚNICO BRASILEIRO QUE REALIZOU O SONHO DE MARCAR UM GOL NUMA FINAL DE COPA DO MUNDO NO MARACANÃ. A INCRÍVEL HISTÓRIA DO ARTILHEIRO QUE TEVE UMA CRISE DE AMNÉSIA DEPOIS DE PERDER UM TÍTULO QUE PARECIA CERTO. QUANDO ELE "VOLTO A SI", ESTAVA EMBAIXO DE UMA ÁRVORE, NUMA CIDADE DO INTERIOR"

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Friaça podia bater no peito: era o único brasileiro que realizou o sonho de todo jogador de futebol: marcar um gol pelo Brasil, numa final de Copa do Mundo, no Maracanã.
O autor da façanha morreu hoje, doze de janeiro de 2009, aos 84 anos.
Tive a chance de entrevistá-lo duas vezes.
Eis o que ouvi do jogador que entrou para a história do futebol graças a um gol inesquecível.

O depoimento completo de Friaça foi publicado no nosso livro "DOSSIÊ 50', lançado em 2000 pela Editora Objetiva. É a única reportagem que traz a palavra de todos os jogadores que entraram em campo para enfrentar o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950. Esgotado, o livro virou "raridade". Mas pode ser encontrado em sebos.

Aqui, o capítulo dedicado a Friaça:


“FIZ UM A ZERO NA FINAL DA COPA.ALI NÓS JÁ ÉRAMOS DEUSES”

Albino Friaça Cardoso tinha vinte e cinco anos, oito meses e vinte e seis dias quando realizou o sonho máximo de todos os jogadores brasileiros de todas as épocas: fazer um gol numa final de Copa do Mundo dentro do Maracanã superlotado. O gol sai logo no primeiro minuto do segundo tempo. O Maracanã enlouquece. Friaça também. “A emoção foi tão grande que só me lembro de uma pessoa que veio me abraçar: César de Alencar, o locutor. Quando a bola estava lá dentro, ele gritou: “Friaça, você fez o gol!”. Naquela confusão, ele entrou em campo e me abraçou. Nós dois caímos dentro da grande área”. Louco de alegria, Friaça só se lembra com clareza do rosto de César de Alencar. “Passei uns trinta minutos fora de mim. Eu não acreditava que tinha feito o gol. Eu tinha potencial, mas estava ao lado de craques como Zizinho, Ademir e Jair. E logo eu é que fiz o gol”. Se o Brasil precisava apenas de um empate, então o jogo estava liquidado: a seleção ia ser campeã do mundo. “Ali, nós já éramos deuses”.

Friaça só não poderia imaginar que outras cenas inacreditáveis iriam acontecer ali – além da queda com César de Alencar dentro da grande área, numa explosão de alegria. Consumada a tragédia brasileira, diante da maior platéia até hoje reunida para um jogo de futebol, a dor da derrota desnorteou o autor do gol do Brasil.

“O trauma foi enorme. Vim para o Vasco. Fiquei, em companhia de outros jogadores, andando de noite em volta do campo, ali na pista. O assunto era um só: como é que a gente foi perder com um gol daqueles ?”.

Depois das voltas inúteis em torno do campo do Vasco na noite de domingo, Friaça pirou. “Só me lembro de que a gente subiu para o dormitório. Eram umas onze da noite. Troquei de roupa e me deitei. Não me lembro de nada do que aconteceu depois. Quando dei por mim, por incrível que pareça, eu estava em Teresópolis, no meu carro. Passei pela barreira, fui para um hotel. Quando me perguntaram: “Friaça, o que é que você quer?” Eu simplesmente não sabia onde estava. Só sabia que estava debaixo de uma jaqueira, no terreno do hotel. Não sei como é que saí com meu carro da concentração. Não sei como é que fui bater em Teresópolis. Um médico que era prefeito de Teresópolis é que me deu uma injeção. Comecei a saber onde é que estava uns dois dias depois. A a minha família,em Porciúncula,estava atrás de mim, sem saber onde é que eu estava. O pior é que eu também não sabia. De 64 quilos eu passei para 59”.

Quem tivesse a sorte de fazer gol pelo Brasil ganharia um terreno – era um dos prêmios aos futuros campeões do mundo. O artilheiro da finalíssima contra o Uruguai mereceria um prêmio extra – uma televisão, na época, um luxo para privilegiados. Quando finalmente descobriu em que país estava, depois do trauma da vitória do Uruguai, Friaça tentou receber o terreno e a televisão.
“A resposta que me deram foi: só se o Brasil tivesse vencido o jogo...”.

“Eu tinha confiança : a gente ganharia do Uruguai com facilidade.Cheguei a imaginar um placar de 2 ou 3 a 0 para o Brasil,pelo time que nós tínhamos e pelo time que o Uruguai tinha.A gente pode dizer que o Uruguai tinha um grande time,mas o Brasil era uma potência,uma força.O Brasil não pensava nem no empate.A gente não daria essa chance ao Uruguai.A verdade é que nós,os jogadores,estávamos tranquilos.A gente sabia que,se o time jogasse o que vinha jogando,dificilmente perderia.Se o tempo pudesse voltar,se o Brasil pudesse jogar dez vezes contra o Uruguai,ganharia nove.A seleção de cinquenta foi uma das maiores que o Brasil já teve.
A maior vingança que experimentei em minha carreira esportiva aconteceu um ano depois de nossa derrota na final da Copa de 50.O Vasco da Gama foi ao Uruguai jogar contra o Penarol. Ganhamos do Penarol – que tinha onze jogadores de seleção – dentro do Estádio Centenário.Repetimos a dose em outro jogo,aqui no Brasil.

Em 1950,nós estávamos engatinhando. Não estávamos preparados para ter um impacto tão grande quanto o que sofremos.O nosso time tinha um potencial muito maior do que o do time do Uruguai. O gol de empate do Uruguai,marcado por Schiaffino,teve um impacto grande sobre nosso time.Porque,até então,o jogo mais duro que tivemos tinha sido contra a Iugoslávia.Vencemos por 2 a 1,um jogo duro.
Diante dos outros,o Brasil jogava quase que a toque de música,como,depois,a seleção de 70.Era um time homogêneo.Quando o Uruguai fêz o gol de empate,sentimos um impacto.Há quem fale em Bigode.Mas fomos todos nós.

Não houve falha na armação tática do time.Ainda ouço até hoje que Obdulio Varela deu um tapa em Bigode. Não deu.Eu estava lá ! Pude sentir todo o problema.Bigode –é verdade- tinha dado uma entrada violenta.Aliás,violenta,não : uma entrada dura.Houve o impacto do juiz.Neste momento,Obdulio entrou em cena para separar. Mas não houve nada.

O que aconteceu,no gol,adiante,é que Bigode foi batido numa jogada,porque Ghiggia era um jogador de alta velocidade. Se Bigode foi batido pela alta velocidade de Ghiggia,então teria de contar com a cobertura de outro jogador. Não posso ficar falando.Não é o caso de a gente crucificar A, B ou C.Mas não houve cobertura.Como não houve cobertura,veio aquele impacto. Schiaffino,no lance do primeiro gol do Uruguai,foi muito feliz,como Ghiggia.Basta ver que o próprio Ghiggia diz que pegou a bola mal no pé.Fêz o gol no contra-pé de Barbosa,o nosso goleiro.Pegou a bola quase que com o bico da chuteira.Resultado : a bola entrou entre a trave e a perna esquerda de Barbosa.

O que eu acho é que não houve uma cobertura certa no lance, já que se sabia que Ghiggia era um jogador de grande velocidade. Tinha pouco domínio de bola,mas era veloz.
Não acredito em falha técnica do treinador. Porque,desde o primeiro jogo,entramos da mesma maneira.Mas aconteceu o lance : Ghiggia recebia a bola e partia para cima de Bigode.Como era de alta velocidade,Ghiggia dava um chute lá pra frente e partia.Então,a cobertura era essencial.
Não estou crucificando ninguém.Mas estou dizendo o que faria : punha um jogador fazendo a cobertura.

Gravei bem o lance do meu gol contra o Uruguai,porque este é o tipo de coisa que a gente guarda.Eu tinha potência na perna direita,graças a Deus.Quando vi,Máspoli,o goleiro do Uruguai,tinha saído.Bati forte na entrada da área - do lado direito para o lado esquerdo.A bola entrou.O lance tinha nascido de uma combinação minha com Bauer.Assim : Bauer tocou para mim, eu toquei para o Zizinho – que tocou,na frente,para mim. Antes de entrar na área,bati na bola.Tive a felicidade de marcar !

Eu só tinha um pensamento : fiz o gol ! A única coisa que eu vi foi César de Alencar me abraçando.Caímos dentro da área.Passei uns trinta minutos fora de mim.Eu não acreditava: nós tínhamos craques como Zizinho,Ademir e Jair.Mas eu é que tinha feito o gol ! Em toda a vida,eu sempre fui muito frio, nunca tive medo de ninguém : eu era igual a todos. É uma das das vantagens que eu tinha -e tenho até hoje.

Quanto à recomendação que o nosso técnico fêz antes do jogo,é bom que se diga o seguinte : o que Flávio Costa não admitia a covardia,mas aceitava entradas firmes e duras,desde que fossem leais.Há uma diferença entre as duas coisas.Deslealdade é uma coisa,jogada dura é outra.
Se alguém pensou em tirar de campo um jogador como Obdulio Varela,foi bobagem.Porque Obdulio era um jogador vivo e manhoso : não ia cair numa dessas.Eu mesmo já passei por uma situação dessas. Gostava de jogo duro.Não cheguei a jogar quatro vezes no Vasco na mesma posição : ora era center-foward,ora ponta-esquerda,ora ponta-direita.ter four, ponta esquerda, ponta direita e gostava. Depois da Copa,joguei contra o Uruguai,como center-foward.Matias Gonzalez me disse : “Vou te botar pra fora da área !”.Eu disse : “Você me conhece ! Sou do estado do Rio ! Já joguei 4 vezes contra você.Vamos brigar até o fim do jogo.Você sabe que eu não corro do pau !”.

Antes do jogo,aquele assédio atrapalhou o descanso dos jogadores.Como era ano de eleiçãO,teve jogador que foi levado para passear.A seleção,então,não teve sossego,tranqüilidade.É por razões que eu digo que a seleção estava engatinhando,em 1950,porque não tinha uma vivência.Um exemplo: passamos quarenta e cinco dias em Araxá,sem comunicação alguma com nossas famílias. Depois que Paulo Machado de Carvalho e o falecido Geraldo José de Almeida foram para é que começamos a Ter contato.Acontecia o seguinte : nossas famílias não recebiam as cartas que a gente escrevia.

Não culpo Flávio Costa de jeito nenhum, porque ele era sozinho.Era Flávio Costa e Vicente Feola para tomar conta de vinte e cinco jogadores. Depois,ficaram vinte e dois.Hoje,existe uma comissão técnica.Mas quem fazia treinamento era Flávio Costa – tudo ele.A equipe era o roupeiro,dois massagistas,dois médicos e Vicente Feola,para ajudar.

Eu me lembro de lances que poderiam ter mudado a história do jogo.Eu era um jogador que tinha noção dos passes,principalmente os de perna direita. Houve um lance em que fiz um passe certeiro,para Ademir entrar de cabeça.Eu,naquele estado de nervos,tinha certeza de que Ademir,com a facilidade que tinha para jogar,faria o gol.Mas Ademir praticamente devolveu a bola para mim. A bola voltou na mesma direção ! Por aí,dá para ver o estado em que os jogadores do Brasil se encontravam,naquele momento,a dez,quinze minutos do fim da partida.Naquela altura,era tudo na base do “valha-me Deus”,porque ninguém entendia nada.

A gente tinha saído da concentração para o Maracanã às onze e quarenta e cinco.Chegamos ao estádio em torno de uma hora da tarde.Quando chegamos ao vestiário,encontramos colchão para todo mundo se deitar no chão.
Antes,quando a seleção estava concentrada no Joá,antes da mudança para São Januário,várias vezes tivemos de empurrar,em dia de treino,uma camionete enguiçada da Polícia Militar,uma daquelas que tinha a madeira pintada de amarelo e a lateria pintada de azul.

Durante a Copa,jogadores receberam camisa, corte de terno,relógios e lustres.Da Sexta para o sábado e do sábado para o domingo,dentro do bar do Vasco da Gama,na concentração em São Januário,eu assinei autógrafos como “capeão do mundo”.Assinei !
Tinha até comerciante envolvido.Hoje,jogador de futebol não faz um negócio desse se não receber uma importância. Mas eu assinei bolas,faixas,fotos,todo tipo de coisa.Já nem sei onde assinei...Quem fizesse o primeiro gol receberia um terreno,perto do Leblon.Quem fizesse o primeiro gol do Brasil contra o Uruguai iria ganhar uma televisão,uma novidade,na época.Fiz o gol.Nunca vi esse prêmio.Não ganhei terreno.Corri atrás,mas não adiantou nada.Quem ia dar os prêmios disse que não podia,porque o Brasil tinha perdido a Copa.A televisão ia ser prêmio de uma loja chamada A Exposição. Meu cunhado foi à loja,para saber do prêmio.Disseram : “Ah,não ! Só se o Brasil tivesse ganhado o jogo...”.
Logo em seguida,comprei uma televisão.

Durante a Copa,houve uma reunião entre os jogadores,para discutir a divisão de prêmios que eram oferecidos à seleção.Decidiu-se que ia se fazer um leilão dos objetos.Pelo seguinte : havia no grupo jogadores que não tinham condições físicas ou técnicas de jogar.Como não jogavam,corriam o risco de não receber prêmios.Então,combinou-se com nossa “diretoria”,formada por Augusto,Nílton Santos,Castilho e Noronha,o seguinte : tudo o que cada um recebesse seria leiloado.Houve,então,uma pequena desavença sobre como é que se ia dividir um lustre de cristal,oferecido por uma loja.Flávio Costa entrou na discussão para acalmar o pessoal.

Mas o pior,para mim,veio quando o jogo acabou.Vim para o Vasco. Ficamos eu,Bauer, Rui e o Noronha andando em volta do campo,na pista do do Vasco. : é a momento mais duro que tive em minha vida.Dali,subimos para o dormitório. O assunto era um só : como é que nós fomos perder com um gol daqueles ? Ficou aquela “conversa de bêbado”,sem fim nem começo.
Só sei que subi para o dormitório ás onze horas.Não me lembro de mais nada,não sei de mais nada. Quando eu dei por mim,estava em Teresópolis ! Uma pessoa do hotel me perguntava: “Friaça, o que é que você quer?” E eu nem sabia onde estava !.Só sei que estava debaixo de uma jaqueira,num hotel...Fui sozinho para lá.Não como é que pedi ao porteiro para sair,não sei como é que cheguei a Teresópolis.De manhã,o porteiro do hotel foi chamar o prefeito de Teresópolis – que eu conhecia.Tomei injeção,passei uns dois dias com ele. Honestamente,não sei o que eu tomei,mas fiquei apagado. Depois é que me refiz,comecei a saber onde é que eu estava e o que é que tinha feito.A minha família estava me procurando no Rio e em São Paulo,porque não sabia onde é que eu estava.Mas eu mesmo também não sabia ! Depois de chegar finalmente a Porciúncula,terra da minha família,eu me comuniquei com o Rio e com São Paulo.Eu tinha 64 quilos.Passei para 59.

Devo ter ido para Teresópolis porque sempre que tinha uma folga gostava de ficar quieto lá.Nunca gostei de confusão.Eu queria era tranquilidade.
O que vi no vestiário do Brasil,assim que acabou o jogo,foi só choro.Não se via outra coisa,a não ser gente se abraçando,chorando,lamentando.Os mais frios sofrem mais.Quem desabafa sente um alívio.quem não desabafa fica sofrendo.Nosso vestiário - desculpe a expressão – virou um cemitério.Era só gente se lastimando,como num velório.
Quando acabou tudo,eu pedia muito a Deus que eu jogasse outra vez contra o Uruguai.Terminei jogando – e ganhando,pelo Vasco : 3 a 1 em Montevidéu,2 a 0 aqui.
Não adiantava querer sonhar.Eu queria ir à forra.O Vasco chegou debaixo de cavalaria,mas ganhou.
Jogadores da seleção brasileira de 50 - que tinham condições de crescer na carreira - só regrediram depois da Copa.Antes,éramos deuses.
Nós,os jogadores,sofremos em todos os cantos,porque para onde a gente ia,ouvia só duas palavras : Obdulio,Uruguai "

8 de janeiro de 2009

PAUSA PARA UM REFRESCO: AS AVENTURAS DO COVER DE NELSON NED PELOS SERTÕES DO BRASIL

Há um novo blog na praça:

http://poeirasemaltomar.blogspot.com

É o bilionésimo blog a dar sinal de vida no Planeta Internet. Chegará o dia em que haverá um blog para cada leitor. Porque nenhum leitor é capaz de dar conta de tantos blogs.

O Poeiras é assinado pelos ex-tamanqueiros Amin Stepple e Roberto Borges.

"O COVER DE NELSON NED" é da lavra de Stepple. Divirtam-se:



Pachula sempre viveu no circo. Na verdade, a troupe o adotou aos sete anos de idade, quando o encontrou escondido num trailer, numa das temporadas pelo sertão baiano. A infância se passou no trato dos animais e no picadeiro, a única escola desse artista nato. Com o tempo, Pachula aprendeu todos os truques que o transformaram numa das atrações do Circo Babilônia. Com o talento compactado em um metro e oito centímetros de altura, era o único anão do divertido grupo de palhaços. As piadas e os pastelões arrancavam gargalhadas e garantiam a bilheteria. A caravana do Babilônia cansou de contar quantas vezes percorreu o mapa empoeirado do Brasil. Mas, um dia, o público sumiu de vez, aprisionado pela luz azulada das novelas.

--- Cansei da vida na lona.

Repetia Pachula, a iludir a si mesmo, sem admitir que o espetáculo acabara. Às vezes o anão cedia à nostalgia. Lembrava do circo indo de cidade em cidade, dos tempos impermanentes da vida nômade. Sacrificada, diga-se, mas refúgio seguro contra o tédio. Os aplausos da distinta platéia recompensavam a falta de conforto, os riscos e até os amores abandonados.

--- O público sabe reconhecer o verdadeiro artista.Disso Pachula não tinha dúvida, nada de queixas. Amores abandonados? Sim, lona que se arma e desarma num terreno baldio. Ao contrário dele, a grande paixão de Pachula não tinha medo de altura: a trapezista Denise. Loura de um metro e oitenta, sorriso aberto, confiante de quem jamais teme a morte. Artista perfeita, de gestos precisos, impulsos matemáticos.

E mais: quentíssima na cama.Confidenciava o amante Pachula. Aliás, as aptidões de Denise nos lances do trapézio sexual quase causam uma tragédia. Certa noite, entusiasmada, a trapezista, com suas coxas grossas e firmes acostumadas aos desafios das alturas, deu uma prolongada “chave de pernas” em Pachula. O anão por pouco, muito pouco, não morreu asfixiado entre as pernas da namorada.

___Cheguei a ficar roxo!Com o fim das jornadas circenses, Denise conquistou para si um destino de folhetim: desapareceu na estrada com um caixeiro-viajante. Pachula, dono de voz bonita e potente, decidiu sobreviver como cover do cantor Nelson Ned. As apresentações nos bares davam uns trocados e algumas refeições. Numa noite, ele foi apresentado a um empresário de shows. De lábia sedutora, Mário Aciolly convenceu Pachula de que ele era um produto artístico fácil de vender. O que faltava?

--Ninguém imita com tanta perfeição Nelson Ned. Ao ouvi-lo pela primeira vez, confesso que pensei que era o próprio Nelson. Além do mais, você é a cara dele e do mesmo tamanho. A partir de agora, você é o Nelson Ned.

Em pouco tempo, o esperto Mário Aciolly agendou vários espetáculos em cidades do interior. O show tinha forte apelo publicitário: “A VOLTA DE NELSON NED”. Casa sempre cheia, Pachula arrasava na interpretação dos sucessos de Nelson Ned.

___Vamos ficar ricos, milionários.É o que se lia no olho grande e gordo do empresário, eufórico por ter fechado mais uma longa turnê, agora pelo interior da Paraíba.Em Zabelê, terceira cidade programada do show “A VOLTA DE NELSON NED”, logo todos os ingressos foram vendidos. O empresário descobriu que até fã-clube o pequeno grande cantor brasileiro tinha em Zabelê. Gripado e febril, Pachula não estava na melhor forma. Tentou adiar a apresentação, mas Aciolly, receoso do prejuízo com a devolução dos ingresso, não concordou.­­­

___ Vai cantar de qualquer jeito.Iniciado o show, Pachula esqueceu algumas das letras do repertório, provocando risos e piadas na platéia. A situação se complicou ao desafinar quando começou a cantar “eu hoje estou tão triste, eu precisava tanto conversar com Deus...”, um clássico que sempre levava o público às lágrimas. Um gaiato não se conteve e gritou:

___ Esse anão não é Nelson Ned, porra nenhuma. Nelson Ned é menor do que ele uns quinze centímetros.Logo, outro, de chapéu de couro, berrou:

---Sai daí, toco de gente. Vai enrolar tua mãe.Do fundo do salão lotado, uma mulher, de cabelo oxigenado, vestida com pouquíssima roupa, esbravejou:

___Esse anão não canta nada. É do Paraguai, é do Paraguai!Era a senha que faltava para a massa avançar, enfurecida, sobre o palco, à caça do anão.Na delegacia de Zabelê, Pachula passou duas semanas detido. Tempo suficiente para se recuperar dos hematomas e voltar a exercitar a voz. Ajudaram-no as longas serenatas incentivadas pelos outros presos e pela lua imaginária das canções populares. Nem os meganhas escondiam a emoção quando ouviam a voz aveludada de Pachula clamar, entre as grades enferrujadas, que “precisava tanto conversar com Deus...”Na manhã em que foi solto, o anão recebeu como consolo um dos maiores elogios de sua curta carreira. Elogio sincero, sincero, do comissário de plantão:­­­­­

__Você, Pachula, canta bem melhor do que Nelson Ned.

2 de janeiro de 2009

DE ACORDO


O emprego em 2009. Eis o que mais preocupa nossos legisladores. Os legisladores do idioma, entenda-se. E o emprego de que se fala é o do hífen, está claro.

(Do hífen – até quando este acento agudo? Ate quando?)

Enquanto se aguardam outros decretos, enquanto observamos legislarem em causa própria, acordemos: não vamos economizar em dicionarios da lingua, vocabularios ortograficos e lexicos do portugues. Nao.



Na imagem, flagrante do "imperador da língua portuguesa" tomado por dúvida paralisante no instante em que firmaria um sermãozinho: "E agora? Com acento agudo ou circunflexo? Raios! E pitombas! Mas o sobrenome vai com ipsilone, num quero nem sabê!"

30 de dezembro de 2008

TESTE PARA SELEÇÃO DE JORNALISTAS

Uma sugestão aos responsáveis pelos departamentos de pessoal das empresas jornalísticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os especialistas do Sopa de Tamanco conseguiram montar um teste infalível para seleção de candidatos a vagas nas redações.

O candidato ao emprego deve ficar imóvel durante três minutos, diante um fiscal da empresa.

Se, ao final deste prazo, o candidato não latir nem relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque não serve para a profissão jornalística.

Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos terá provado que é jornalista legítimo. Deve ser imediatamente contratado.

Porque mostrou estar preparado para ingressar nas redações brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do mundo.

15 PONTOS BÁSICOS PARA ENTENDER POR QUE DEUS NÃO É BRASILEIRO E PROVAVELMENTE NÃO TORCE PELO FLAMENGO

1. Se Deus fosse brasileiro, para começo de conversa, o sol não nasceria para todos, apenas para quem tivesse assinatura mensal, cujo preço seria o equivalente ao valor do sol pela cotação islandesa, multiplicado pela massa de Júpiter e dividido em prestações de acordo com o ano lunar.

Isso, caso você assinasse o pacote premium, que garantiria o direito a ver cinco cores, bronzear dois braços e uma perna, colocar seis cuecas no varal para secar (varal não incluído no preço) e fazer fotossíntese à vontade (promoção por tempo limitado). Outras propriedades e funções da luz poderiam ser compradas em raios individuais pelo sistema de pay-per-sun, que funcionaria ou não, a depender da sua fé nas atendentes de telemarketing.
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O pacote básico permitiria apenas fritar um ovo no cimento e queimar uma resma de papel com uma lupa. Porém, misericordioso, Deus pensaria nos mais humildes e encarregaria uma falange de anjos de vender baratinho o gato solar, gambiarra que, reaproveitando a luz da lua, incluiria também os serviços de segurança, fornecimento de gás natural e comércio de maná e espadas flamejantes.

2. Se Deus fosse brasileiro, as catástrofes naturais não atingiriam a todos indiscriminadamente. Com algum dinheiro por fora, avisaria os eleitos, com antecedência, da chegada de um furacão, de uma tempestade, de uma nevasca ou de uma sogra. Abriria um instituto de meteorologia através de um laranja, ficaria milionário e acabaria numa CPI, graças a denúncias do Espírito Santo, inconformado por não ter se envolvido na negociata. Subitamente elevado à categoria de herói nacional, o Espírito Santo posaria nu para a G Magazine e Deus fugiria para a Europa.
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3. Se Deus fosse brasileiro, as estações seriam 37, mas alguns juristas defenderiam a existência de 42; outros, de 29; outros, ainda, de 76; enquanto a OAB fecharia o caso em 11 ou 315, a depender da comissão. O que não significaria muito, porque, no final, só duas seriam observadas na prática: o Verão 1 e o Verão 2, não se sabendo exatamente sua ordem, data de início ou tempo de duração.
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CHUCK NORRIS É MEU PASTOR E NADA ME FALTARÁ, EXCETO TALVEZ UM OU DOIS DENTES

No princípio destruiu Chuck os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, porque Chuck dera um golpe de kick boxing nela e com uma cotovelada mandara as trevas para longe, arrastando o pobre Espírito de Deus, que pairava sobre a face das águas. E Chuck estapeou a face das águas e afogou o Espírito de Deus no abismo, para ele deixar de ser besta.

E disse Chuck: “Faça-se a luz, motherfucker”, e a luz, que é ajuizada, se fez. E viu Chuck que a luz era boa para levar umas porradas, e saiu desferindo cascudos em fótons, prótons, elétrons e demais partículas subatômicas que apareciam pela frente. E com um coice apartou a luz das trevas; e Chuck chamou à luz Fucking Dia, e às trevas Fucking Noite.
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(Texto completo, aqui)

COM A MORTE DE DEUS, PSDB PERDE UM FILIADO

Mataram Deus no século XIX com dois ou três sofismas na cabeça e seis silogismos à queima-roupa. O episódio foi semelhante ao do assassinato de César, com a diferença fundamental de que Deus não estava no Senado e, que saiba, não sofria de epilepsia. O ponto de contato é que ambos tinham a mesma mania de grandeza, apesar de o divino Júlio deter obviamente mais poder.

O Senhor passeava tranqüilo sobre a face das águas quando Nietzsche, que tinha entrado no Paraíso à socapa, com a intenção de matar Sócrates, deparou-se com Platão, banhando-se num lago de águas cristalinas e pensando: “Se o lago do mundo ideal é assim, imagina o lago do mundo ideal do mundo ideal!”
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(Texto completo, aqui)

29 de dezembro de 2008

CAMPANHA CONTRA O ANÚNCIO "SOMBRANCELHA"

Venho, através desta, declarar meu sincero e inútil apoio à campanha do Sopa de Tamanco contra os anúncios que, veiculados em horário nobre, trazem absurdos como "sombrancelha".

O Sopa já tinha chamado a atenção dos caros internautas para outros absurdos, como o texto de um anúncio de carro, em página nobre da Veja, que trazia a pérola "encarar de frente".

Quem escreve "encarar de frente" deveria sair algemado da agência de publicidade.

Mas, não.

Deve ter cobrado uma nota para escrever tal preciosidade....

Não é má vontade com publicitários em geral, não.

Mas aposto uma boiada:

os gênios que criaram o anúncio "sombrancelha"....

a) consideram-se mal pagos. Devem achar que merecem um salário muitíssimo maior
b) é provável que usem gel no cabelo
c) contrabandeiam uma palavra ou expressão em inglês a cada duas frases que pronunciam
d) acham sinceramente geniais os belos anúncios que concebem

Faço estas suposições porque um dia um de nossos confrades do Sopa teve a chance de ver uma cena inesquecível numa faculdade de jornalismo: um publicitário, com blusinha preta bem justa e gel no cabelo, exibiu, como se fosse uma obra de arte digna do teto da Capela Sistina, o anúncio de uma cerveja em que uma tartaruga fazia umas embaixadas com uma lata. O rapaz tinha criado o anúncio. Falava da peça publicitária, a sério, como se estivesse discorrendo sobre as consequências da descoberta da penicilina.

Um silêncio de pedra percorreu o auditório.

Deus do céu - devem ter pensado os espectadores. O cúmulo do ridículo acaba de ser batido.

Eu diria à platéia, se tivesse a chance de me materializar na penúltima fileira: sim, tens toda razão, oh, caros circunstantes ! ( eu sabia que um dia teria a chance de chamar outros bípedes de "circunstantes")! O recorde do ridículo foi batido, aqui, inapelavelmente, sem que o autor da façanha ao menos desconfie do feito que acabou de cometer!

A conferência do gênio publicitário seguiu até o fim.

C´est la vie.

A ÚNICA TESTEMUNHA OCULAR REVELA COMO BRIZOLA SAIU DO BRASIL EM 1964!

O depoimento completo aqui:


http://www.geneton.com.br/archives/000306.html

JOVEM, ALISTE-SE NESTA CAMPANHA, ESPALHE A CORRENTE PELA INTERNET, MOBILIZE SEUS VIZINHOS: QUEM SERÁ O AUTOR DO ANÚNCIO "SOMBRANCELHA" ?

A CAMPANHA LANÇADA PELO SOPA DE TAMANCO - PARA TENTAR IDENTIFICAR QUEM FOI O GÊNIO QUE BOLOU O ANÚNCIO DE REFRESCO EM PÓ GULA FRUTS EM QUE A ATRIZ CAROLINA DIECKMANN PRONUNCIA, COM TODA CLAREZA, A PALAVRA "SOMBRANCELHA" - GANHA UM APOIO DE PESO.

NÉLSON VASCONCELOS ADERIU À CORRENTE, NO PRESTIGIOSO GLOBO ON LINE:


http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/nelson/


PODE PARECER IMPLICÂNCIA. NÃO É. O COLETIVO DO SOPA DE TAMANCO CONSIDERA INTOLERÁVEL O FATO DE UM ANÚNCIO - VEICULADO EM HORÁRIO NOBRE - TRAZER TAL ATENTADO AO IDIOMA.

É SIMPLES ASSIM: A PALAVRA "SOMBRANCELHA" NÃO EXISTE NA LÍNGUA PORTUGUESA. É UM ERRO CAVALAR. COMO TAL, NÃO PODERIA SER DITA NUM ANÚNCIO VEICULADO NAS TVS.

PROPAGANDEADO NA TV, O ATENTADO AO IDIOMA CORRE O RISCO DE SE ESPALHAR FEITO ERVA DANINHA.

JÁ NÃO BASTA A IMENSA LEGIÃO DE ARTISTAS, JORNALISTAS (!), APRESENTADORES & ASSEMELHADOS QUE PRONUNCIAM IMPUNEMENTE A EXPRESSÃO "O ÓCULOS" ?

E O QUE DIZER DOS QUE DIZEM "PRA MIM VER" ?

O PIOR É QUE É GENTE QUE, EM TESE, DEVERIA ZELAR MINIMAMENTE PELA LÍNGUA, PORQUE USA MEIOS DE COMUNICAÇÃO.

O CASO DE UM ANÚNCIO É MAIS GRAVE.

PELO SEGUINTE: PARA QUE FOSSE LEVADO AO AR, O ANÚNCIO FOI ENSAIADO, FILMADO, REVISADO, EDITADO E APROVADO !!

NÃO APARECEU UMA SÓ VOZ PARA DIZER: "PAREM AS MÁQUINAS! DIZER "SOMBRANCELHA" É DAR UM CHUTE NO OUVIDO DOS OUTROS!".

NÃO. O ANÚNCIO CHEGOU AO HORÁRIO NOBRE.

A GRANDE MARCHA PELA DISSEMINAÇÃO DA IGNORÂNCIA DEU UM PASSO ADIANTE.